quinta-feira, 23 de julho de 2015

Bibliotecas da Idade Média


Tal como são hoje usadas e entendidas, as bibliotecas constituem um legado dos primórdios da Europa e da era dos manuscritos. Embora bibliotecas pessoais e institucionais fossem uma característica importante da cultura greco-romana, nenhuma sobreviveu à dissolução do Império Romano ocidental. Entre o final do século VI e meados do século VIII, as igrejas europeias, sobretudo as comunidades monásticas, possuíam pequenas coleções de livros básicos, o mesmo acontecendo com um pequeno número de indivíduos (em sua maioria clérigos, exceto no litoral mediterrâneo); mas não havia bibliotecas na plena acepção da palavra.

Verdadeiras bibliotecas — coleções consideráveis de livros focalizadas num núcleo de textos clássicos, estáveis, seguras, acessíveis e adequadamente conservadas — surgiram de súbito no Império franco com Carlos Magno (768-814). Foram iniciadas em catedrais e abadias como parte do programa do imperador de reanimar o saber latino-cristão em seus domínios. Em fins do século IX, algumas dessas bibliotecas continham entre 200 e 500 livros, e nunca cresceriam muito além disso. Entre o colapso do Império Carolíngio e ó século XII, as bibliotecas propagaram-se por toda a Europa na esteira da atividade missionária e da reforma monástica.

Muitas generalizações que podem ser feitas acerca das bibliotecas europeias no século IX são válidas até cerca de 1300. Dentro desse período, com poucas exceções, as bibliotecas existiam em instituições religiosas: catedrais e as muito mais numerosas abadias beneditinas. Entre 200 e 500 livros constituía uma grande coleção, como as que se poderiam encontrar numa populosa casa monástica. A composição de tais coleções, e mesmo os livros específicos que nelas figuravam, eram semelhantes em dado momento em toda a Europa. As bibliotecas eram catalogadas, tendo sobrevivido até nossos dias listas do século IX em diante. Essas coleções eram para uso dos membros das comunidades que as alojavam; das pessoas de fora, somente as particularmente privilegiadas podiam ter acesso a elas. Entretanto, os livros eram comumente emprestados por uma comunidade a outras, muitas vezes para recopiá-los, o que indica um dos principais métodos pelos quais as bibliotecas eram formadas; esse trabalho de cópia poderia ser feito in loco ou onde o exemplar estava guardado, quer pelos próprios clérigos ou por copistas profissionais. O outro principal método de aquisição era por doação, um ato virtuoso realizado por aqueles que se tornaram monges ou cônegos depois de terem feito uma carreira universitária. Alguns catálogos de bibliotecas registraram os nomes dos doadores e os títulos de seus livros, e essas listas indicam que uma biblioteca individual tenha usualmente entre 6 e 24 livros, embora alguns bibliófilos ricos — cujo número aumentou a partir do século XII — pudessem ter muito mais. Até o século XIV, as instituições religiosas não conservavam seus livros num recinto especial, nem mesmo num único lugar. Os livros eram guardados em arcas ou armários, o mais importante deles geralmente perto da entrada da casa do cabido, outros talvez na própria igreja. Segurança e manutenção eram de responsabilidade do chantre. As instituições escreviam, com freqüência, alguma forma de identificação da propriedade em seus livros, uma inscrição ex-libris, seguida por um severo anátema contra roubo ou dano. Quando foram construídos recintos especiais para biblioteca, durante os séculos XIV e XV, eles foram equipados como mobiliário especializado — estantes ou leitoris — e os livros eram colocados em posição própria e presos com corrente.

Importantes mudanças intelectuais e sociais afetaram o desenvolvimento das bibliotecas europeias entre os séculos XIII e XV. A primeira delas foi o crescimento das universidades. Inicialmente, como as escolas anteriores, não possuíam suas próprias bibliotecas. Isso era um problema, pois o número crescente de novas universidades, de estudantes e de textos prescritos para estudo criou uma demanda de livros sem precedente. Isso pôde ser enfrentado, em parte, simplificando e barateando a produção de livros, mas estes ainda eram dispendiosos. Uma solução era tornar acessível o grande número de bibliotecas institucionais já existentes. Os franciscanos ingleses, na segunda metade do século XIII, criaram o primeiro “catálogo unificado”, arrolando autores e obras, bem como a indicação das bibliotecas monásticas onde poderiam ser encontradas, usando-se para tanto um sistema de números e uma explicação. Mas, finalmente, as universidades tiveram que fundar suas próprias bibliotecas; estas situavam-se nos colégios constituintes, o mais antigo em Paris (a Sorbonne), seguido de Oxford (Merton College), em fins do século XIII. A segunda influência importante foi a crescente classe de leigos ricos e instruídos, nobres ou mercadores, para quem o patrocínio do saber e a posse de belos livros eram manifestações de status social. Reis e príncipes tinham desde há muito possuído pequenas coleções de livros devocionais para seu uso pessoal ou de exemplares de luxo de obras que lhes eram dedicadas e presenteadas. Tais livros, freqüentemente em vernáculo, continuaram formando o núcleo de suas bibliotecas ao norte dos Alpes — sendo as mais famosas as dos reis da França e dos duques de Borgonha e de Berry. Entretanto, naquelas áreas influenciadas pelo humanismo, sobretudo em seu berço do norte da Itália, príncipes-mercadores com gostos e ambições mais esclarecidos possuíam consideráveis bibliotecas cujo conteúdo era generosamente emprestado ao seu círculo de relações eruditas. A biblioteca do convento de São Marcos, em Florença, fundada em 1444 por Niccolò Niccoli e Cósimo de Medici, foi a primeira biblioteca da Europa que realizou empréstimos públicos. Os livros de propriedade de todas essas pessoas eram profissional e esplendidamente executados.

Durante todo esse período, dos séculos IX ao XV, os livros básicos das bibliotecas institucionais mantiveram-se razoavelmente constantes: as obras dos grandes padres latinos e uma seleção de clássicos pagãos. Com o avançar do tempo, somaram-se-lhes um pequeno número de trabalhos de literatura técnica sobre assuntos tais como direito e medicina, os escritos de teólogos europeus e de estudiosos da Bíblia, e itens de interesse local, como as crônicas relacionadas com a vida da própria instituição e do país onde esta se situa. O acesso a novo material tornou-se torrencial nos séculos XII e XIII, formado pelos textos usados em escolas e universidades: livros bíblicos glosados e as obras de Aristóteles e seus comentadores árabes e ocidentais. Os humanistas italianos acrescentaram mais clássicos latinos e, pela primeira vez, escritos gregos, tanto pagãos quanto cristãos. Durante esse período, o público leitor, em especial o leitor de latim, era uma fração minúscula da população e, antes de 1300, estava limitado ao clero. Mesmo assim, dado que os livros eram terrivelmente dispendiosos, ler um livro de biblioteca era uma experiência muito mais comum para a pessoa instruída do que a propriedade pessoal de um volume. Assim, o papel das bibliotecas institucionais na preservação e disseminação do conhecimento foi vital, ao passo que o papel desempenhado por livros de propriedade privada foi insignificante antes do século XIV. 

J.W. Clark, The Care of Books (1902); The Medieval Library, org. por J.W. Thompson (1939); F. Wormald e C.E. Wright, The English Library before 1700 (1958); Medieval Scribes, Manuscripts and Libraries; Essays presented to N.R. Ker, org. por MB. Parkes e A.G. Watson (1978)

Fonte: Dicionário da Idade Média / organizado por Henry R. Loyn. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1997

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