sexta-feira, 26 de junho de 2015

Rumo à estação Sion, ou de como Lula colocou o Estado a serviço do PT


Antes de ser eleito presidente em 2002 e de ser promovido a messias pelo PT, Lula ficou conhecido publicamente como o sindicalista incendiário que liderava as greves em São Paulo, o que já demonstrava o seu grande apreço pelo trabalho. Ele próprio deu o exemplo: trabalhou apenas nove anos como operário (de 1963 a 1972) até se tornar militante sindical88 e do PT, e depois político com mandato (deputado federal e presidente).

Para coroar a vida dedicada ao trabalho árduo, aposentou-se aos 42 anos, como perseguido político, por ter ficado 31 dias na cadeia. Foi nessa ocasião que cometeu aquele que provavelmente é o seu maior ato revolucionário: tentou driblar a greve de fome combinada entre os companheiros de cela ao esconder debaixo do travesseiro um pacote de balas Paulistinha.

Privadamente, Lula era conhecido nos escritórios dos diretores das montadoras de veículos não só pelas habilidades como negociador, mas pela maneira empolgada com que declarava o seu amor pela Escócia. No sindicato dos metalúrgicos, sua fama era bem mais prosaica: a de Don Juan de jovens viúvas desamparadas.

Numa entrevista à revista Playboy em 1979, confessou ter pedido a um colega do sindicato que o “avisasse sempre que aparecesse uma viúva bonitinha”. Uma delas foi sua atual mulher, Marisa. De uma maneira um tanto peculiar, pavimentou seu caminho político para se tornar o que sempre foi.

A história política de Lula começa no sindicato, mas sua relação formal com o mundo político se iniciou com o PT, partido que ajudou a fundar em 1980. A ata de fundação foi assinada por intelectuais, professores, religiosos e representantes de sindicatos no prédio do Colégio Sion, uma escola de elite criada em 1901 e localizada no bairro de Higienópolis, em São Paulo, conhecido pela alta renda de seus moradores e pela grande presença de judeus. O colégio, que de proletário marxista não tinha nem o nome, fazia parte da Congregação de Nossa Senhora de Sion, criada na França, no século XIX, por Teodoro Ratisbonne, um judeu que se converteu ao catolicismo.

Um ano antes da criação do PT, sua proposta de fundação foi aprovada num congresso de metalúrgicos que lhe definiu as bases radicais da ideologia e do método de ação. O objetivo do futuro partido era proclamar uma verdadeira república democrática e socialista a partir da organização e da mobilização dos trabalhadores para lutar “por suas reivindicações e pela construção de uma sociedade justa, sem explorados e exploradores”.

Num manifesto apresentado em 1980 essa orientação era ratificada com a afirmação de “que o país só será efetivamente independente quando o Estado for dirigido pelas massas trabalhadoras”. O documento explicava que, por essa razão, o PT pretendia “chegar ao governo e à direção do Estado para realizar uma política democrática, do ponto de vista dos trabalhadores, tanto no plano econômico quanto no plano social”.

Com esse discurso radical, boa parte dele influenciado pelos católicos socialistas (este oximoro) vinculados à Teologia da Libertação e às Comunidades Eclesiais de Base que participaram da fundação do partido, o PT conseguiu chamar a atenção e seduzir muita gente que ou já estava ligada ao socialismo e ao comunismo ou que estava em busca de uma representação política para estabelecer um compromisso ideológico.

Inclusive, a Teologia da Libertação, “a versão, inquestionavelmente religiosa, da vulgata marxista” e um dos grupos responsáveis por converter o “marxismo em objeto de culto”, conseguiu “alcançar grande influência na Igreja Católica”. No Brasil, “tudo indica que se trata da corrente de maior influência, porquanto domina claramente a instituição que a representa, a Confederação Nacional dos Bispos do Brasil”, que não é uma congregação oficial da cúria romana.

O trabalho de militância e de formação conduzido pelo PT foi intenso, o que serviu para dar uma coesão ao partido, muito embora houvesse internamente um intenso debate e grande disputa entre os grupos de diferentes correntes ideológicas.

Vários jornalistas e intelectuais não apenas embarcaram nesse trem petista rumo à estação Sion como se prontificaram a legitimar intelectualmente e a disseminar as ideias do partido nas universidades e na imprensa.

Mas as derrotas para Collor na eleição de 1989 e para FHC na de 1994, junto com a queda do muro de Berlim e a aparente vitória do tal “neoliberalismo”, criaram um ambiente extremamente desfavorável para um partido que defendia o oposto daquilo que estava acontecendo no mundo. A nova situação provocou no PT a necessidade de rever a estratégia política para a disputa eleitoral. Há quem veja nessa revisão de método uma ruptura do PT com o seu espírito fundador.

Ao adotar essa postura, o partido teria optado por manter duas almas contraditórias: uma que sustentava o discurso da inclusão dos pobres e a melhoria na condição dos trabalhadores e outra que aceitava a burguesia e a iniciativa privada. Os dois mandatos de Lula, segundo essa perspectiva, teriam sido a síntese contraditória dessas duas almas.

Não foi bem assim.

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Trecho do livro "Pare de acreditar no governo", de Bruno Garshagen (Record, 2015)

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