terça-feira, 31 de março de 2015

Estudando a jihad


Por que as universidades britânicas produzem tantos radicais islâmicos?

O Estado de S.Paulo | The Economist

Se Theresa May tem grandes chances de vir a ser a próxima líder do Partido Conservador, como pensa ninguém menos que o primeiro-ministro britânico, David Cameron, é melhor que a atual ministra do Interior pare de colecionar barbeiragens, como a que protagonizou recentemente, envolvendo as universidades e o direito à liberdade de expressão.

May queria obrigar as instituições de ensino superior a investigar todos os conferencistas com visões extremistas que viessem de fora para falar a seus alunos. As associações estudantis teriam de informar antecipadamente quem pretendiam convidar para se apresentar em seus eventos. A proposta foi mal recebida na Câmara dos Lordes, no Partido Liberal Democrata e em vários ministérios comandados por políticos conservadores, que viram nela uma medida de caráter intoleravelmente antidemocrático. May acabou recuando.

Acontece que suas preocupações não são despropositadas. Quase todos os dias saem nos jornais notícias sobre o desaparecimento de muçulmanos britânicos que, tudo indica, estão a caminho da Síria, onde serão recebidos de braços abertos pelo Estado Islâmico. Com frequência esses novos recrutas são estudantes. Mohammed Emwazi, identificado como o encapuzado "Jihadi John" que aparece em vários vídeos decapitando reféns do EI, estudava na University of Westminster. Umar Farouk Abdulmutallab, que em 2009 tentou explodir em pleno voo um avião que seguia para Detroit, estudava no University College London (UCL). Asif Hanif e Omar Khan Sharif, que em 2003 tentaram mandar pelos ares um bar em Tel-Aviv, eram alunos do King's College London. Omar Sheikh, que em 2002 assassinou o jornalista Daniel Pearl no Paquistão, durante algum tempo frequentou a London School of Economics.

A maior fonte de preocupação para o governo britânico são as sociedades islâmicas universitárias - Abdumulltab foi presidente de uma dessas sociedades no UCL - e a propensão de algumas delas a convidar conferencistas com opiniões polêmicas, para dizer o mínimo. Exemplo: a Sociedade Islâmica da University of Westminster havia organizado um evento com Haitham al-Haddad, um clérigo muçulmano que já afirmou que o homossexualismo é um flagelo e fala coisas perturbadoramente pouco claras sobre o direito que os homens têm de bater em suas mulheres. Os organizadores adiaram o evento depois que Emwazi foi identificado como um dos três extremistas britânicos do EI apelidados pelos reféns do grupo com os nomes dos Beatles John, Paul e Ringo. Uma palestra de características semelhantes foi adiada em março na University of Kent.

Surgidas nos anos 60, as sociedades islâmicas há muito mantêm vínculos com formas conservadoras e políticas da religião muçulmana. A Federação das Sociedades Islâmicas de Estudantes, que congrega várias dessas associações estudantis, no passado teve grande proximidade com a Irmandade Muçulmana (do Egito). Os sauditas abasteceram essas associações com verbas generosas nas décadas de 80 e 90, diz o sociólogo Parveen Akhtar, da Bradford University, impregnando-as com um forte traço de salafismo, uma vertente fundamentalista do Islã. Grupos radicais islâmicos como o Hiz-ut-Tahir sempre tiveram as entidades estudantis em seu radar.

As universidades são ingênuas em relação aos riscos oferecidos por pregadores radicais, sustenta o imã britânico Usama Hasan, que integrou a jihad no Afeganistão, mas hoje trabalha para a Quilliam Foundation, um centro de estudos de orientação antiextremista. Muitas autoridades universitárias imaginam que as falas desses pregadores ocorrem nos moldes de uma conferência acadêmica tradicional, em que as ideias podem ser discutidas e questionadas. Mas os conferencistas muçulmanos frequentemente são convidados a apresentar sermões durante as orações de sexta-feira - quando eventuais questionamentos seriam vistos como intervenções impróprias.

O problema é mais grave em Londres. Faz tempo que a capital serve de refúgio para extremistas de todos os tipos, incluindo muçulmanos. As universidades londrinas não se concentram em campi delimitados, o que dificulta o acompanhamento das atividades de seus estudantes. E, ao contrário do que acontece em cidades de forte presença muçulmana - como Bradford, por exemplo -, em Londres a maioria dos universitários vive longe de suas famílias, que poderiam captar possíveis sinais de radicalização.

A situação na Grã-Bretanha parece incomum. Na Alemanha, por exemplo, os terroristas recrutados internamente geralmente têm um passado problemático (são frequentes condenações criminais anteriores) e poucos chegam à universidade. Mas isso não significa, necessariamente, que as universidades britânicas sejam responsáveis pela radicalização de seus alunos. A explicação para o fato de que tantos muçulmanos britânicos que se radicalizam frequentem o ensino superior pode estar no simples fato de que muitos muçulmanos britânicos frequentam o ensino superior. A Grã-Bretanha tem sido particularmente bem-sucedida em educar imigrantes e filhos de imigrantes, observa o cientista político Jytte Klausen, da Brandeis University.

Seja como for, a proposta de May não teria combatido a radicalização em sua origem. Os universitários que convidam pregadores radicais para falar em suas instituições já foram convencidos. E as pregações radicais estão à disposição de qualquer um na internet, mesmo que seus propagandistas sejam impedidos de apresentá-las em pessoa.

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