quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O extremo oposto de “Cinquenta Tons de Cinza”: um filme sobre o namoro à moda antiga


“Old Fashioned” tem prós e contras, mas os prós o fazem valer a pena

por David Ives | Aleteia

Esta informação pode ser surpreendente para alguns leitores, mas, na história do cinema, o filme que mais arrecadou dinheiro em seu primeiro fim de semana de exibição durante o mês de fevereiro é “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson: foram 83,8 milhões de dólares entre a Quarta-Feira de Cinzas e o primeiro domingo da Quaresma, em 2004.

Só que, se os especialistas em rastrear tendências de comportamento e consumo estiverem certos, estes onze anos em que “A Paixão de Cristo” permaneceu no posto de campeão de bilheteria de fevereiro estão prestes a chegar ao fim. O filme de Gibson deverá ser ultrapassado, em termos de dinheiro arrecadado, por “Cinquenta Tons de Cinza”.

Pois é, chegamos a este ponto.

“Cinquenta Tons de Cinza”, como você provavelmente não tem como não saber a essa altura, é a adaptação cinematográfica da trilogia escrita pela autora E. L. James, que fala de práticas sexuais alternativas e que, inexplicavelmente, se tornou um best-seller internacional. Digo “inexplicavelmente” porque até o popularesco site “The Huffington Post” descreveu os livros como “uma triste piada”, o que sugere que a coisa era mesmo apelativa e fraca. Mas o fato é que, mal escrita ou não, a trilogia virou um arrasa-quarteirão e a sua inevitável versão para os cinemas vem disposta a bombar também.

Não faz muito tempo que os adeptos de práticas sexuais como dominação-submissão e sadismo-masoquismo eram vistos como pessoas “psicologicamente desordenadas”. Os tempos mudaram. Hoje, a Associação Americana de Psiquiatria só considera esses atos como “desordenados” quando eles são realizados não consensualmente ou causam sofrimento clinicamente significativo para um dos participantes.

Os líderes cristãos não têm a mesma opinião: eles denunciaram abertamente a visão degradante do sexo apresentada pela história e lembraram ao público os ensinamentos da Igreja sobre o caráter sublime e amoroso da intimidade sexual no casamento.

Em paralelo, o cineasta norte-americano Rik Swartzwelder decidiu responder aos cinquenta tons e suas cinzas produzindo um filme alternativo chamado “Old Fashioned” (“À moda antiga”, em tradução livre).

A trama, que estreou nos cinemas dos Estados Unidos no mesmo dia que “Cinquenta Tons”, conta a história do namoro decididamente não sexual entre um homem e uma mulher para quem a revolução sexual foi um fracasso completo. Recém-chegada a uma pequena cidade para recomeçar a vida, Amber (Elizabeth Ann Roberts) fica fascinada com o proprietário da casa que alugou: Clay (Rik Swartzwelder, que é também o roteirista, o diretor e o produtor do filme). Ele a faz ficar do lado de fora da casa enquanto termina alguns reparos. Ao que parece, Clay fez a promessa de nunca ficar sozinho com mulher nenhuma, exceto com sua esposa (caso algum dia ele se case). E, por mais que Amber proteste, esta é uma promessa que ele não vai quebrar.

A cidade inteira parece saber das peculiaridades de Clay quando o assunto é mulher. E todos tentam alertar Amber para que ela não perca tempo correndo atrás dele. Mas Amber é determinada e não desiste de quebrar coisas de propósito na casa para forçá-lo a vir consertá-las. Ainda que não seja por outro motivo a não ser o de dar um basta nessa destruição, o relutante Clay finalmente concorda em sair com Amber. Para grande espanto dela, no entanto, o encontro acontece no escritório de um ministro religioso, onde Clay consulta livros que ajudam a avaliar se uma pessoa é compatível com o seu pretenso futuro cônjuge. Nada a ver com o clássico jantar-e-cineminha, mas, pelo menos, ele ganha pontos pela originalidade.

O caso é que Clay já foi um grande mulherengo em seus dias de faculdade e agora está tentando mudar: ele quer construir um relacionamento “à moda antiga”, com base espiritual em vez de apenas física. E Amber, cujos flertes sexuais terminaram todos em dor de cabeça, acha essa abordagem encantadora. Mas a opinião de todos os amigos dela e dele é que os dois estão fadados ao fracasso. Como é que termina essa história? Desculpem, mas eu não vou contar.

Em entrevista ao jornal “Catholic World Report”, Swartzwelder declarou: “Eu só queria contar uma história romântica que não se passasse em 1800 nem numa vila de cristãos ultraconservadores, mas que refletisse a vida dos solteiros e solteiras que eu conheço, de garotos e garotas comuns que querem achar alguém para compartilhar a vida e honrar a Deus com esse relacionamento. E já que ninguém estava contando essa história, resolvi contar eu mesmo”.

“Old Fashioned” é a produção mais recente de uma série de filmes, como “Believe Me” e “The Song”, que tentam se livrar do antigo paradigma dos filmes que falam de fé (muita pregação e não muito talento artístico), adotando, em vez desse modelo, uma abordagem com mais apelo ao público em geral. Como na maioria dos filmes independentes, há momentos de texto e atuação irregular, e, como na maioria dos filmes feitos por evangélicos, há um pouquinho de sermão; mas, no geral, o filme é bem feito e tem lá o seu charme... se você for cristão.

Infelizmente, esta condição me parece relevante. Eu não acho que “Old Fashioned” vá chamar a atenção de gente que não esteja disposta a encarar o namoro do ponto de vista cristão. O código de conduta de Clay é tão extremista que pareceria bizarro demais para a plateia laica. Afinal, há muitas maneiras de ficar “a sós” com uma mulher e ao mesmo tempo estar “na presença de outros”: num restaurante, num teatro, num parque lotado... Mas dar a ela um machado para que os dois possam estar juntos cortando madeira em público? Sinceramente, eu duvido que uma coisa dessas convença alguém a “namorar à moda antiga”. É quase o extremo oposto de “Cinquenta Tons de Cinza”, sugerindo um amor puritano em vez de puro.

De qualquer maneira, se você está cansado das histórias supersexualizadas de Hollywood, mas gostaria de ver um filme com a sua namorada ou com o seu namorado, “Old Fashioned” tem um “charme pateta” que faz a experiência valer a pena.

Além disso, você vai ter a vantagem de não precisar pegar filas de gente afoita para ver as cinzas de um relacionamento cinquenta tons acima.





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