terça-feira, 12 de agosto de 2014

Primeiras leituras


Faço uma lista de indagações, na esperança de que alguém mais inteligente, mais esperto ou mais informado do que eu me ajude

Lya Luft | Veja
Imagem: Internet

Começando esta coluna lembrei de lhe dar o título acima, porque me vejo cheia de indagações a que ninguém ainda respondeu a meu contento. Faço aqui uma lista delas, na esperança de que alguém mais inteligente, mais esperto ou mais informado do que eu me ajude:

- Por que, se não estamos nem em Israel nem em Gaza, morrem tantos inocentes por aqui, diariamente – homens, mulheres, velhos, crianças – encurralados nas ruas e em casa por criminosos que acabam em sua maioria impunes? Por que andamos feitos ratos assustados mesmo em nossas cidades menores? Moradores de países conflitados dizem que suas crianças nem conhecem a paz. Muitas das nossas só conhecem a violência.

- Por que o assunto Pasadena nem se encerra nem se abre direito? Revelações cada vez mais escabrosas vão juntando infratores de todo o tipo, cor, classe, partido e escalão, tão bem disfarçados e protegidos que até os mais infratores pareciam inocentes, e os mais inocentes podem ser acusados de infratores – o que está acontecendo com o Brasil?

- Como é possível que agora se descubra que nos depoimentos nessa CPI da Petrobrás pessoas ditas sérias e competentes receberam as perguntas antecipadamente, portando-se como moleques que fazem cola no vestibular – roubando-nos as últimas pequenas esperanças de confiabilidade -, e nada sério aconteça?

- Por que os processos que deveriam expor nossas feridas, encontrar, mostrar e punir culpados dos mais variados crimes se arrastam anos, décadas a fio, e ninguém se anima a fazer uma reforma no nosso Judiciário, que impede a polícia de prender criminosos, ou os solta no segundo dia, e toda sorte de burocráticas complicações com ar e cheiro de atraso secular – e tantas vezes réus condenados ou confessos, em lugar de punição, recebem cargos ainda mais altos?

- Por que, sendo o Brasil um país civilizado, temos quase quarenta ministérios e outro tanto de partidos políticos? Mais significa menos, gente: dá para arrumar isso ou não, não e nunca?

- Por que nossa política virou um mercado persa de ofertas e negociatas, e a maioria se empenha, nessas campanhas iniciantes, em denegrir o outro, insultar, caluniar, difamar, inventar mais do que romancista criando suas ficções...e ninguém diz nada, ninguém faz nada, tudo é permitido nessa grotesca arena?

- Por que, quanto mais honesto o político, mais dificuldades ele tem, e por que quase ninguém mais acredita em política e políticos?

- Por que não é a educação o primeiro e principal clamor de todos os candidatos? E por que, se algum deles afirmar isso, a gente de saída não acredita porque já perdeu a esperança? Aliás, como é possível que num país civilizado a educação não seja o projeto primeiro, e tenhamos tanta criança sem escola, tanta escola sem professor, tanto professor sem incentivo, tanta ilusão sobre notebooks em todas as escolas quando em muitas não há nem merenda escolar nem giz ou livro? Como chegamos a esse ponto?

- Por que aceitamos tudo com esse jeito de “Deus quer assim”? Por que grandes quantias de dinheiro dirigidas a consertar a devastação trazida por tragédias de anos atrás, como os deslizamentos de Nova Friburgo, e tantas mais, nunca foram empregadas e lá ainda encontramos carros afundados no barro até a metade, dezenas de casas destruídas, e igual número de famílias vivendo em barracas, em casa de parente, em abrigos públicos – e ninguém seriamente reclama?

- Por que andamos em transporte público vergonhoso, apertados como carga ou animais, atrasados, suados, exaustos já antes de iniciar um dia de trabalho – e ninguém faz nada?

- Por que nossa economia manca, anda de ré, engatinha, e ainda tem gente em altos postos dizendo que está tudo bem – como se fôssemos um povo de débeis mentais (ou somos alienados)?

- Por que num país onde há dezenas e dezenas de lixões por onde rastejam seres humanos – não animais -, sobretudo crianças, se anunciam com orgulho, depois da Copa, obras bilionárias para a Olimpíada de 2016, e aplaudimos?

- E por que, diante disso e muito mais, o país não para estarrecido?


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