segunda-feira, 7 de julho de 2014

Muçulmanos convertidos sofrem perseguição no Oriente Médio

Josef tem vivido em um esconderijo, longe da mulher e do filho, pois teme a sua morte em função da opção religiosa

por Azam Ahmed | The New York Times
Zero Hora

Numa porão úmido nos arredores de Cabul, Josef lia sua surrada Bíblia azul à luz de uma lanterna de propano, como fazia há semanas, desde que fugiu de sua família no Paquistão.

Suas poucas posses estavam ao seu lado, na sala de pedra e terra medindo 3 por 3 metros. Ele mantém uma cruz de madeira com uma passagem do Sermão da Montanha escrito sobre ela, um maço de cigarros e uma fina pasta de plástico contendo registros de sua conversão ao Cristianismo.

Os documentos são o motivo pelo qual ele está se escondendo. No papel, a lei afegã protege a liberdade de religião, mas a realidade no Afeganistão (e em outros países muçulmanos) é que renunciar ao Islã é uma ofensa capital.

O cunhado de Josef, Ibrahim, chegou recentemente a Cabul, deixando para trás sua família e seus negócios no Paquistão, para caçar e assassinar o apóstata. Por telefone, Ibrahim, que usa apenas um nome, ofereceu US$20 mil a um repórter do New York Times para lhe informar do paradeiro de Josef.

— Se eu o encontrar, assim que tiver acabado com ele, vou matar também seu filho, pois seu filho é um bastardo —, declarou Ibrahim, referindo-se ao filho de três anos de Josef. — Ele não tem um pai muçulmano —.

Para Josef, de 32 anos, que pediu para ser identificado por seu nome cristão para proteger sua esposa e filho pequeno, o caminho ao Cristianismo foi apenas um segmento de uma jornada muito mais longa – um ano de vagar que o levou pela Turquia, Grécia, Itália e Alemanha, buscando refúgio da violência afegã.

Mas em cada parada ele encontrou desgraça. Foi detido na Grécia, deportado da Alemanha e morou nas ruas da Itália até entender que não haveria final feliz na Europa, onde seu pedido de asilo não deu em nada. Ele voluntariamente trocou a Itália pelo Paquistão para ficar com sua esposa e filho, mas essa já não é uma opção.

Tampouco se reverter ao Islã. — Eu herdei minha fé, mas vi muitas coisas que me fizeram descartar minhas crenças religiosas—, explicou Josef. — Mesmo se eu for morto, não vou me converter de volta —.

Oficialmente, não existem cristãos afegãos. Os poucos afegãos que seguem a fé o fazem escondido por medo de perseguição, frequentando uma de um punhado de igrejas clandestinas que funcionam no país. Expatriados usam capelas de embaixadas, mas essas são efetivamente inacessíveis aos afegãos.

Apenas alguns poucos afegãos convertidos surgiram na última década, e o governo lidou com eles de forma rápida e silenciosa: eles são convidados a se retratar, e caso se recusem, são expulsos – geralmente para a Índia, onde uma igreja afegã prospera em Nova Déli.

Num país de uma pobreza debilitante, divisões étnicas e décadas de guerras, a piedade islâmica oferece um raro fio de solidariedade nacional a muitos afegãos. Rejeitar o Islã é considerado uma traição.

— A identidade religiosa é a única coisa que os afegãos podem reivindicar —, explicou Daud Moradian, professor da American University no Afeganistão. — Eles não possuem uma identidade nacional, eles não possuem uma identidade econômica, e não existe classe média ou classe trabalhadora aqui —.

Isso deixa Josef praticamente sem opções de segurança. A polícia não ajudaria em nada: convertidos relatam surras e abuso sexual enquanto estavam presos. Sua família no Afeganistão também é um beco sem saída: seus tios também o estão caçando.

Josef contou ter perdido sua fé bem antes de descobrir que poderia substituí-la. A maior parte de seus irmãos emigrou para a Alemanha quando ele era adolescente, mas ele ficou para cuidar de seus pais idosos. Dirigia um táxi durante a noite e estudava medicina, obtendo um diploma da Universidade de Medicina de Cabul.

Ele se aguentou durante a guerra civil, o repressivo regime talibã e a invasão do Ocidente, mas um tiroteio sem sentido que viu de perto em 2009, quando um menino de 8 anos morreu nos braços da mãe, finalmente quebrou sua determinação de ficar.

Ele emprestou dinheiro de sua família e trabalhou turnos dobrados até conseguir pagar um contrabandista para levá-lo à Europa. Deixou para trás sua mãe, que morreu pouco tempo depois, e sua esposa grávida, que se mudou para o Paquistão para ficar com sua família.

Após 15 dias na Alemanha, ele se entregou e pediu asilo, e foi mantido num campo de refugiados onde a monotonia era quebrada por visitas de missionários.

— Acho que fiquei impressionado com a personalidade de Jesus —, afirmou ele. — O fato de ele ter vindo para pagar todos os nossos pecados, isso me tocou. Admirei seu caráter e personalidade muito antes de ser batizado —.

Quando foi libertado para viver com sua irmã em Kassel, procurou uma igreja em Hanover e se converteu - uma decisão que seus irmãos aceitaram com naturalidade.

O alívio teve vida curta; as autoridades alemãs voltaram a prendê-lo e o deportaram para a Itália – porque ele não havia pedido asilo no país da União Europeia onde havia sido inicialmente processado, conforme a lei. Sem família ou amigos na Itália, buscou ajuda de igrejas e instituições de caridade que lhe ofereceram comida, mas não abrigo.

Desabrigado, sem dinheiro, deprimido e com a saúde piorando, Josef desistiu e foi morar com sua esposa e a família dela, no norte do Paquistão.

Conhecendo os riscos de seu segredo, ele guardou cópias de seus documentos de asilo e lembranças de sua conversão num pen drive que carregava no bolso, encontrando algum conforto em levar esses materiais consigo.

Num dia de março, porém, ele deixou o pen drive em casa. Enquanto resolvia algumas coisas, um dos irmãos de sua esposa pegou o dispositivo para salvar um arquivo e descobriu o que havia nele.

Quando Josef voltou para casa naquela noite, seus cunhados o agarraram pela garganta e o espancaram. — Nós amarramos suas mãos e pernas e queríamos matá-lo—, contou Ibrahim. —Foi meu pai que interveio, e explicou que queria conversar com a família dele primeiro—.

O pai disse que eles pediriam orientação aos tios de Josef, e enquanto isso, ele ficaria trancado num quarto na lateral da casa, amarrado.

No meio da noite, Josef conseguiu escapar, esgueirando-se da casa sem um último adeus a sua esposa e filho. Pegou um ônibus noturno até a fronteira com o Afeganistão. No caminho, telefonou para um amigo de infância para pedir ajuda, e então ligou para sua irmã na Alemanha, chorando em seu celular.

Na Alemanha, sua irmã (que pediu para não ter o nome divulgado por medo de dar pistas aos perseguidores do irmão) garantiu que, desde então, não teve mais notícias de Josef.

Aqui, ajudar um convertido é quase tão desprezível quanto ser um deles, mas seu amigo o ajudou assim mesmo, escondendo-o no porão de uma casa vazia e levando comida uma vez por semana.

— Quando estava tudo bem, ele sempre foi generoso comigo —, declarou seu amigo, que falou em condição de anonimato devido ao risco. — Agora ele está em perigo, precisa da minha ajuda, e eu não tenho escolha a não ser ajudá-lo —.

Para Josef, que recentemente mudou de esconderijo, o tempo agora passa lentamente, com pouca companhia além de sua Bíblia.

— Quando joguei fora minhas convicções, era difícil conversar com as pessoas sobre o assunto—, contou ele, uma brasa vermelha pulsando na ponta de um cigarro. — Era como uma prisão imaginária —. Ele fez uma pausa, a luz de sua lanterna de propano lançando uma longa sombra na parede. — Agora é o contrário— , disse ele por fim. — Meu corpo está na prisão, mas minha alma está livre —.

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