quinta-feira, 8 de maio de 2014

Maconha: Dois séculos de argumentos


Frederico Garcia | Folha de S. Paulo
Imagem: Internet

Vamos legalizar o ópio. É uma droga natural, extraída da papoula, flor do Afeganistão. Anestésico potente, é bom para dores do câncer, unhas encravadas, pernas quebradas e outras mais. Tem poder relaxante, cura o "mal-estar" da civilização.

Antes liberado em vários países, o ópio acabou banido devido a seus efeitos nefastos. Após sua introdução ilegal por comerciantes ingleses em 1839, a China proibiu o comércio da droga que ameaçava a estabilidade social e financeira do país, bem como a saúde da população. A medida resultou em guerra declarada pela Inglaterra.

O discurso atual sobre a maconha é semelhante ao que se empregava em defesa da legalização do ópio. Diz-se que a erva não causa dependência, tem efeitos terapêuticos e sua liberação traria consequências sociais positivas, como reduzir o encarceramento de jovens das classes menos favorecidas. Idealiza-se que o óleo de maconha está na mira da indústria automobilística como fonte de combustível barato. Ou seja, é uma panaceia: cura tudo, resolve mazelas sociais e ainda melhora a economia do país.

Será mesmo? A "legalização" beneficiaria a quem? Quais as consequências para os usuários? Conseguiríamos controlar seu uso por crianças e adolescentes, ou esse dado também seria irrelevante, já que maconha não faz mal?

A dependência de qualquer droga decorre de múltiplos fatores biopsicossociais. Até o momento, não temos teste para identificar quem se tornará dependente ou não. O que sabemos é que 30% dos usuários de maconha desenvolvem o vício e que alguns genes aumentam em até sete vezes o risco de dependência.

O princípio ativo da maconha, o THC, fica armazenado no tecido gorduroso por até 28 dias e age no cérebro durante todo esse tempo. O efeito prolongado pode ter implicações graves, por exemplo, na condução de veículos. Quanto mais THC no sangue, maior o tempo de resposta do cérebro. Esse argumento fez a Inglaterra adotar uma política de tolerância zero à presença de THC no sangue de motoristas.

Mais alarmante é o potencial para desencadear doenças graves. Quadros psicóticos agudos, com delírios e alucinações, são consequências comuns da intoxicação por drogas como a maconha. O que poucos sabem é que a maconha hoje comercializada é geneticamente modificada para ter alta concentração de THC, o que acelera a dependência e potencializa as alucinações.

Mais grave ainda é o risco do desencadeamento de esquizofrenia em adolescentes com predisposição a essa gravíssima doença mental crônica e incapacitante. Segundo estudo norueguês, 13% dos casos de esquizofrenia seriam evitáveis se o uso regular de maconha não ocorresse.

As consequências sociais são palpáveis. Um estudo neozelandês demonstrou que, quanto mais cigarros de maconha uma pessoa fuma, menores são suas chances de completar o segundo grau, ingressar na faculdade ou estar empregada aos 20 anos, diminuindo sua renda e sua satisfação com a vida.

A maconha reduz a capacidade cognitiva: prejudica a atenção, a memória e o raciocínio e dificulta o planejamento. Dados mostram que pessoas que fizeram uso habitual de maconha dos 15 aos 30 anos apresentam, em média, cinco pontos a menos de Q.I. em comparação aos que apenas a experimentaram.

Procura-se confundir uso recreativo com uso de substâncias extraídas da maconha que, purificadas e aplicadas em doses conhecidas, podem ter efeito medicamentoso, desde que sob prescrição médica e manejo clínico, como acontece com qualquer outro medicamento.

É estranho que a discussão do "uso recreativo" da maconha seja prioritária. No Brasil, há 12 milhões de dependentes de álcool e estamos nos tornando os maiores consumidores de cocaína do planeta. Será que outro entorpecente deve ter seu uso banalizado ou passa da hora de o Brasil encarar com ponderação a herança que o abuso de drogas, lícitas e ilícitas, deixará?

Que a China do século 19 nos sirva de exemplo. Que a incapacidade de planejamento gerada pelo uso da maconha não afete a política brasileira, como parece ter acontecido no Uruguai.

Frederico Garcia, 35, é professor-coordenador do Centro de Referência em Drogas da Universidade Federal de Minas Gerais e membro da Associação Mineira de Psiquiatria

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