domingo, 12 de janeiro de 2014

Por que a televisão emburrece

por Nelson José de Camargo 

A televisão brasileira é constantemente louvada como uma das mais criativas e dinâmicas do mundo. As telenovelas, principais atrações da emissora líder de audiência, são exportadas para diversos países. É verdade que hoje, embora ainda dominem a audiência no horário nobre, não detêm mais praticamente o monopólio da audiência, em virtude do crescimento da TV a cabo e da internet. A grande massa, porém, permanece sintonizada na “dramaturgia global”.

Isso significa que essa dramaturgia é de boa qualidade, pois consegue prender a atenção de parte significativa da população? Não, muito pelo contrário. Trata-se, na verdade, da imposição de um modelo emburrecedor e que pasteuriza a cultura nacional.
“O Aufklärung intelectual é um meio infalível para tornar os homens inseguros, com a vontade fraca, com desejo de ser conquistados e protegidos, em resumo, transformados em criaturas de rebanho”, como disse Nietzsche. E é exatamente o conjunto das “criaturas de rebanho” que prestigia os folhetins televisivos. As telenovelas “globais” não passam de subliteratura barata, repletas dos mais batidos clichês, que apelam cada vez mais para os mais sórdidos instintos. 

Assiste-se a um desfilar de tipos caricatos, representados por grandes “atores e atrizes”, fluentes no carioquês pasteurizado, independentemente da origem de seus personagens. Esse tipo de lixo influencia a moda, os costumes, os bordões, a música e a cultura do país, até ser substituído pela próximo telelixo do horário, escrito pelo literato de araque de plantão.

“Sacerdotes buscam comunicação com a divindade para apaziguá-las; usam da astúcia para enganá-las”, dizem Horkheimer e Adorno da Dialética do Iluminismo. Os “sacerdotes globais” dão à massa ignara aquilo que ela quer consumir: doses cavalares de emoções baratas, de corpos “bombados” por silicone e anabolizantes, de roupas de grife vendidas a crédito nos magazines, dos gadgets eletrônicos e de todo tipo de item de consumo, muitos deles fabricados pela mão de obra escrava da China para que possam ser comprados a preços módicos pela “classe C”. 

É isso o que o povo quer, dizem os criadores desse tipo de entretenimento. Nada mais falso; O povo gosta daquilo que conhece, do que lhe é enfiado “goela abaixo” pela indústria cultural. “Um dia a massa apreciará o biscoito fino que fabrico”, disse um modernista, talvez de forma utópica. É possível que a grande cultura nunca esteja ao alcance da maioria da população, mas é perfeitamente possível sair do marasmo e da passividade, e produzir entretenimento popular e de qualidade. Isso já ocorreu no país em épocas passadas, e também em outras partes do mundo. 

Quem pensa é capaz de mudar de canal. 

Nelson José de Camargo é graduado em filosofia e jornalista

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