terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Um mundo mais quieto

Se o silêncio traz inúmeros benefícios para a atividade cerebral, a concentração e os ciclos do sono, por que é um item tão raro no cotidiano do ser humano?

por Alvaro Machado | Revista da Cultura

Ilustrações Lula Palomanes
Cada dia mais raro e muitas vezes cobrado a altos preços, o silêncio é item subestimado na “cestinha” da qualidade de vida. Os efeitos de sua ausência sobre o sistema nervoso costumam ser notados somente quando é tarde demais, como no episódio do assassinato de um casal a tiros devido ao barulho de saltos altos no assoalho, em prédio no interior paulista, em maio último. 

Sabe-se há milênios dos benefícios de um ambiente silencioso para a atividade cerebral, para a concentração da atenção e para os ciclos de sono. Os antigos gregos acreditavam que falar pouco favorecia até mesmo o convívio social e adotaram o deus do silêncio, Harpócrates, com seu característico gestual de um dedo sobre os lábios, a sugerir que nem toda experiência precisa ser oralizada. Segundo as práticas de meditação orientais, ao “desligarmos” às vezes o fluxo de palavras próprio de nossa mente, os benefícios para corpo e espírito são imediatos. Com esse silenciamento interior, o meditante logra, ao mesmo tempo, “neutralizar” em algum nível os ruídos ambientais. Decibéis em alta irrefreável já são, porém, flagelo conhecido em qualquer cidade brasileira, mesmo aquelas com menos de 10 mil habitantes. O problema mais frequente alia-se a lazer e ostentação de consumo, na forma de veículos com aparelhagens de som capazes de espatifar vidros com sua potência. O fenômeno levou à criação, em todo o país, nos últimos cinco anos, de milhares de leis municipais destinadas a conter a “cultura, criada entre jovens, de competir na potência de áudio dos seus carros”, conforme justificativa de um vereador belo-horizontino, em 2011. São Paulo sancionou, somente em maio deste ano, lei para carros equipados com mais de 80 decibéis, estacionados ou não, com multa de R$ 1 mil, dobrada em caso de reincidência.

Em outro exemplo marcadamente brasileiro, a segurança residencial precária conduz à multiplicação de cães de guarda treinados para ladrar a qualquer rajada de vento. Situado no Recife, O som ao redor, filme escolhido para representar o país na próxima disputa pelo Oscar, acompanha a personagem Bia (interpretada por Maeve Jinkings), cujo dilema é calar o doberman do vizinho. Para tanto, ela investe no “contrarruído” de bugiganga com frequência de som agudíssimo. Na vida real, o site Avaaz, de petições a serem entregues a autoridades, registra o clamor de certo Daniel O., que coleta assinaturas “pelo fim da poluição sonora provocada por latidos nas cidades brasileiras”. Destinada à presidente Dilma Rousseff, a petição cita o artigo 225 da Constituição, que assegura ao cidadão “o bem-estar e o direito a um ambiente livre de poluição”, bem como resoluções do Conselho Nacional de Meio Ambiente (Conama). Na era dos smartphones e de outros acessórios eletrônicos portáteis, avoluma-se a multiplicação de alarmes sonoros a nos solicitar incessantemente. Teatros, cinemas e mesmo igrejas perdem a aura de lugares onde se cala para reverenciar uma sabedoria mais alta e se rendem a duvidosas urgências de comunicação, mesmo com pedidos de desligamento das engenhocas. O crítico Sidney Molina registrou, no jornal Folha de S.Paulo, dois momentos de desrespeito à música por celulares do supostamente refinado público da Sala São Paulo, em concerto da Orquestra Sinfônica Finlandesa de Lahti, em outubro.

Ganhador do prêmio Shell de melhor ator em 2012 pela peça Oxigênio, Rodrigo Bolzan lida com o problema de maneira progressista: “Tenho o reflexo de incluir na cena ruídos de helicópteros, sirenes e celulares. Mas em Salvador, tive de intervir, mesmo estando na plateia, quando o consagrado bailarino francês Cédric Andrieux parou pela terceira vez e improvisou em inglês para pedir que uma espectadora não mais atendesse seu aparelho”. Bolzan, atualmente na peça Puzzle, do diretor Felipe Hirsch, diz ter o silêncio “quase como um lema”: “Demoro a perceber, mas entro em êxtase com a ausência de ruído nas ruas de cidades como Berlim e Paris”. O silêncio que a arte e a cultura requerem naturalmente é um dos principais preceitos da Universidade Brahma Kumaris, surgida em 1937, na Índia, e logo internacionalizada: “Antes de qualquer criação há o silêncio. Silêncio é condição essencial, o ingrediente vital para toda a criação e para tudo o que é criado. O artista começa com uma tela branca – silêncio. O compositor se expressa entre as notas e além delas. O que há de mais profundo na existência é o silêncio, e o caminho para ele é a meditação”. 

Protetores de ruídos
Mesmo no Oriente, entretanto, as antigas sabedorias parecem a caminho de anular-se ante a globalização das chamadas Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC), no contexto da revolução industrial digital. Em um exemplo corriqueiro, basta abrir várias abas de um navegador web para ser invadido por anúncios e “trilhas sonoras” não solicitadas, sem que consigamos encontrar a fonte da intromissão – problema para o qual o Vale do Silício californiano encontrou uma solução, a surgir nas próximas versões desses programas.

De outro lado, o bem-estar auditivo caminha para tornar-se privilégio de VIPs capazes de pagar para a sua fruição. Restaurantes são buscados para conversar, além de comer, mas esse conforto costuma ser embutido nos preços do cardápio. A empresa APP Acústica faz isolamento acústico de estabelecimentos em todo o país, entre eles o do célebre Fasano, de São Paulo. “Faz toda a diferença comer em ambiente de acústica bem tratada, onde executivos podem até fechar negócios”, observa Vanessa Sebenello, consultora da APP. Ela aponta, ainda, o exemplo das praças de alimentação de shoppings, que concentram, às vezes, cerca de mil pessoas: “Seus administradores começam a dar mais atenção ao problema da reverberação de talheres batendo, cadeiras caindo e gente falando alto ao celular”. A empresa, que também atende auditórios e teatros, instala neste momento, em exemplo incomum, proteção acústica para os camarotes do estádio Arena Corinthians, em construção na capital paulista. 

Padrões de tratamento acústico em edificações entraram em vigor no país em fevereiro, com a publicação, pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT), da Norma de Desempenho n. 15.575. Construtoras não mais poderão economizar em espessura de lajes, caixilhos sem revestimento especial etc. Talvez se diminua o número de brigas mortais entre vizinhos, mas, a seguir a atual lógica de mercado, os preços dos imóveis devem subir.

Na escala de privilégios, não é difícil imaginar o dia em que, atraídos por promessa de experiência do “silêncio absoluto”, os bilionários do planeta comprarão bilhetes para o espaço sideral. “O mais impressionante deste lugar é o silêncio”, diz a astronauta interpretada por Sandra Bullock no recente Gravidade, filme do mexicano Alfonso Cuarón. A frase corresponde apenas em parte à verdade, pois o éter é cheio de frequências sonoras sutis, não alcançadas por nossa audição, como as de buracos negros. A ficção é citada pela produtora de cinema Vânia Catani, do Rio de Janeiro: “Gosto e preciso tanto de silêncio que batizei meu gato com esta palavra. Adorei Gravidade principalmente pelo silêncio que o filme tem. Começo a achar a palavra falada algo quase íntimo, reservado a situações em que o trabalho requer, mas percebo também que, nesta era virtual, as pessoas conseguem ser ruidosas mesmo sem falar!”.

No consultório do otorrino
Professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e membro do corpo editorial da revista Otology & Neurotology, o otorrinolaringologista Oswaldo Laércio Mendonça Cruz relativiza o problema de perda auditiva por poluição sonora na atualidade. “Com a evolução do sistema nervoso central nos humanos e das sensações complementares ligadas à percepção do som, pode-se, sim, falar da poluição sonora como causadora de transtorno. O ruído normal de uma cidade grande pode ser irritante, porém não traz danos ao sistema sensorial auditivo, a não ser pontualmente, se você está ao lado de uma britadeira ou de um aeroporto.

No consultório, onde é assistido por três fonoaudiólogas especializadas em avaliar perdas auditivas, os atendimentos relacionados à poluição sonora representam minoria. “Em geral, trata-se de estafa auditiva ligada a trabalho de músicos em casas noturnas, ou de funcionários de indústrias. A lesão começa com um zumbido nos ouvidos e sobrevém a perda de audição em graus variados. Havendo a lesão, o sistema sensorial auditivo fica irritado e qualquer som alto produz muito desconforto no sistema nervoso”, explica. 

Fones de ouvido são, por outro lado, um ponto a considerar: “Aumentou bastante a incidência de lesão auditiva em usuários jovens. Não temos estatísticas confiáveis no Brasil, mas no Reino Unido de 6% a 8% dos jovens de 7 a 18 anos já apresentam alteração auditiva. Órgãos de associações médicas ligados à otologia policiam as empresas para que informem claramente o limite de 80 decibéis ou pedem que se reduza a capacidade de amplificação de som dos aparelhos. Mas o que importa é o ajuste do volume, não a utilização propriamente”, diz o médico.

Barulho sem fim
Rafael Alves da Silva, quando doutorando em Ciências Sociais na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) esbarrou em um pesadelo chamado “obsessão pelo silêncio”. Na fase de redação de sua tese, o sociólogo imaginou um ambiente em que sua concentração fosse total. Assim, alugou casa em um “condomínio verde”, no distrito campineiro de Sousas. No primeiro descanso no suposto “paraíso” descobriu, porém, que a casa vizinha promovia agitados bailes quase todas as noites. O precioso sono ficou impossível. Negociou então com o proprietário para ocupar apartamento em bairro central da cidade, porém, após mudar-se, constatou ruído frequente de tráfego de veículos. Em outro acordo, transferiu-se para nova casa em Sousas, mas esta logo foi alvo de assalto, no qual perdeu seu computador e parte de seu trabalho. Mudou-se então, pela quarta vez em menos de sete meses, para uma casa no município vizinho de Valinhos, em hipótese mais tranquilo. Porém, no terreno vizinho iniciou-se uma construção. E Rafael rendeu-se ao uso de protetores auriculares para melhor pensar e escrever.

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