quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Tirania democrática



Não é difícil entender a decisão dos grupos de esquerda, antes invariavelmente adeptos da tirania centralizada, de participar do jogo democrático. Isso não é uma mudança em suas características despóticas, mas a descoberta de que a ditadura que se pode alcançar com a democracia é um tipo de tirania muito mais estável e perene.

por Fabio Blanco

A democracia, dentro do espectro político contemporâneo, é vista como a solução para todos os problemas sociais. Desde a revolução americana, quando ela universalizou-se e foi tida como o antídoto contra as injustiças dos governos centralizadores, vem expandindo-se e falar hoje contra a democracia é colocar-se praticamente à margem do jogo político. Não há mais lugares na vida pública para qualquer um que não defenda irrestritamente aqueles que são chamados de valores democráticos.

A confiança na democracia expandiu-se de tal maneira que, atualmente, mesmo os grupos antes adeptos da governança centralizadora e totalitária têm ingressado, cada vez mais, em seu jogo. Inclusive, muitos deles, ignorando a retórica opressora de suas próprias histórias, se colocam como verdadeiros paladinos da democracia, como se a natureza democrática fosse algo inerente a eles mesmos. O que ouvimos nos discursos e lemos nos estatutos dos partidos vinculados às velhas ideologias tirânicas é a proclamação dos ideais democráticos sem qualquer pudor.

Mas o que há na democracia que tem atraído todas as vertentes políticas, inclusive seus antigos opositores? Por que ela está vencendo em todo o mundo?

Infelizmente, a resposta para essas perguntas não é tão positiva quanto muitas pessoas poderiam imaginar. Independente das origens das razões democráticas, o motivo porque a democracia tem se espalhado pelo mundo não são seus supostos valores superiores, nem sua eficiência hipótética em promover a igualdade e a justiça. Na verdade, os países têm assumido a democracia como seu modo de governo simplesmente porque ela tem se mostrado o melhor caminho para um poder despótico estável e perene.

Isso soa como um contra-senso. Mas a verdade é que a tirania alcançada por meio da democracia é a mais forte de todas as tiranias. Isso porque enquanto o velho despotismo do tirano individual era sustentado por uma elite minoritária que lutava acirradamente para mantê-lo em meio ao descontentamento e oposição constantes, na democracia a tirania é exercida pela suposta vontade da maioria, pelo voto, pelos representantes do povo. Por isso, nela toda ditadura imposta adquire legitimidade automática. Se o que se impõe é a vontade da maioria, resta aos descontentes somente a resignação.

A democracia, quando encontra o estado de tirania, oferece aos governos uma promessa de estabilidade antes inimagináveis. Por isso, se eles conseguirem fazer com que o povo decida segundo a vontade de quem está no poder, poderão ter a certeza que o que alcançaram será provavelmente indestrutível. Nesse sentido, a democracia oferece aos tiranos uma oportunidade jamais tida por nenhum outro na história: a solidificação de uma força praticamente sem oposição. E para alcançar isso eles não precisam mais, como em outros tempos, perseguir os opositores ou eliminá-los ou bani-los. O meio democrático de alcançar o totalitarismo almejado é o sufocamento da oposição, a diminuição dela até a irrelevância.

O sistema funciona assim: proclama-se a ficção democrática como se fosse uma realidade. Todos, então, passam a acreditar que é realmente a vontade da maioria da população que está sendo respeitada. Todas as decisões, com isso, são legitimadas como uma decisão do povo. Nesse ambiente, qualquer oposição se torna apenas a voz dissidente, pois o que está estabelecido é aquilo que a maioria decidiu. A impressão que fica é que quem impõe os destinos de uma nação democrática é, realmente, a sociedade.

Conscientes disso, os grupos oriundos de ideologias totalitárias entenderam que, ao invés de tentar restringir os mecanismos democráticos, impedindo que o povo decida os rumos do país, o caminho mais inteligente seria exatamente o contrário, ou seja, ampliá-los. Isso parece contraditório, mas, na verdade, não é. Pense bem: nas antigas tiranias o poder era adquirido na força e na imposição. Tomar o poder e, mais ainda, mantê-lo, era um exercício complicado, dependente de exércitos, de lutas sangrentas e de apresentação de constantes medidas impopulares. De maneira diferente, para se chegar à tirania por meio da democracia não é mais o poder bélico que conta, nem mesmo a força da persuasão. Na democracia, a ditadura é atingida pela MANIPULAÇÃO. Para implantar a política desejada, o governo não precisa dar mais um tiro sequer; ele precisa, sim, conduzir as pessoas a acreditarem que sua proposta é a melhor.

O que os governos modernos descobriram é que, pelo desenvolvimento das técnicas de manipulação em massa, é possível levar sociedades inteiras a pensarem exatamente como eles querem. Dessa maneira, conseguem com que as pessoas não apenas aceitem suas políticas, mas realmente as desejem. Com isso, por meio dos próprios instrumentos da democracia, como o voto, os referendos e a representatividade, além de impor as políticas que lhes apraz, ainda as legitimam pelo aval da população.

É por isso que o centro do poder atual não está mais nos comitês, nem nas forças armadas. O poder moderno está se desenvolvendo nos institutos de pesquisas em Psicologia coletiva. Um governo forte não é mais composto de um grande exército, mas de um time de experts que possuam o conhecimento sobre como conduzir as pessoas a fazerem exatamente aquilo que eles querem que elas façam e decidam exatamente no sentido que eles querem que elas decidam.

Diante disso, não é difícil entender a decisão dos grupos de esquerda, antes invariavelmente adeptos da tirania centralizada, de participar do jogo democrático. Isso não é uma mudança em suas características despóticas, mas a descoberta de que a ditadura que se pode alcançar com a democracia é um tipo de tirania muito mais estável e perene. Suas adesões aos métodos da democracia não são, decididamente, a aceitação dos ideias de igualdade propagados nas origens do movimentos democráticos, mas a usurpação maligna, de um instrumento criado para o bem, em favor do mal.

É importante salientar, porém, que o momento atual é ainda a fase de transição entre as democracias. Estamos vivendo o período entre aquela democracia representada pelos founding fathers americanos, criada com o intuito de impedir o estabelecimento de um governo centralizador e despótico e essa nova democracia tirânica que vem se impondo, onde tudo o que o governo desejar conseguirá simplesmente porque terá os meios para fazer com que o povo legitime sempre suas decisões. É certo, no entanto, que desta nova democracia já começamos a vislumbrar a formação, enquanto daquela nós já perdemos a vista há algum tempo.

As futuras tiranias e mesmo um governo mundial opressor não serão resultado de uma imposição, conquistada por meio da coação física. Serão, sim, conquistados por meio da manipulação das massas. Quando eles se estabelecerem, não pense que os povos se sentirão oprimidos, não imagine que serão governos que precisarão o tempo todo reprimir as pessoas para se manter no poder. Quando eles chegarem lá, o trabalho de manipulação estará tão avançado que apenas uma ínfima fração dos homens perceberá o que estará acontecendo.

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