quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Missão reversa. A diáspora das religiões brasileiras em Londres


Entrevista especial com Olivia Sheringham

"Já se pode falar em termos de uma missão reversa, uma vez que os brasileiros agora trazem para o Velho Mundo as religiões que há séculos os missionários levaram para a América", constata a geógrafa inglesa.

Por Márcia Junges | Instituto Humanitas Unisinos



A transnacionalização dos credos brasileiros para Londres, capital da Inglaterra, deve ser compreendida dentro do contexto de globalização, observa a pesquisadora inglesa Olivia Sheringham, na entrevista que concedeu por telefone à IHU On-Line.

Hoje, estima-se que existam aproximadamente 90 igrejas protestantes, sobretudo pentecostais, em Londres. Some-se a esse universo oito igrejas católicas, nas quais as missas são rezadas em português. Já se pode, inclusive, falar em termos de uma missão reversa, uma vez que os brasileiros agora trazem para o Velho Mundo as religiões que há séculos os missionários levaram para a América.

Para a pesquisadora, mais do que um centro econômico, o Brasil deve ser pensado sob a perspectiva de ser um “centro de religião” do planeta. “O Brasil está espalhando suas religiões para diferentes partes do mundo no contexto dessa diáspora religiosa”, disse na conversa com a IHU On-Line. E completa: “A igreja católica atuante em Londres tem sua ênfase na identidade brasileira. Em torno dela gravita um pequeno Brasil. A igreja dá apoio social e espiritual, mas se trata de um apoio que cria um ambiente brasileiro, para as pessoas sentirem um pouco de sua identidade nacional em Londres”. Já a igreja protestante tenta inserir o imigrante dentro da cultura inglesa e não quer se considerar como igreja do “migrante”.

Olivia Sheringham é graduada em Línguas Modernas (Francês e Espanhol) pela Universidade de Cambridge e em Estudos Latino-Americanos pelo Instituto de Estudos das Américas, além de PhD em Geografia Humana pela Universidade Queen Mary, em Londres. É pesquisadora no Programa Diáspora da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Suas pesquisas incluem transnacionalização de credos, identidade e pertencimento com foco na imigração latino-americana, sobretudo brasileira. Em breve será publicado o livro de sua autoria Transnational Religious Spaces: Faith and the Brazilian Migration Experience (Basingstoke: Palgrave Macmillian). É autora do artigo Brazilian churches in London and transnationalism of the middle, publicado na obra The diaspora of Brazilian religions (Leiden: Brill, 2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais são as principais igrejas brasileiras que se radicaram em Londres?
Olivia Sheringham – Estima-se que hoje existam cerca de 90 igrejas protestantes, sobretudo pentecostais, em Londres. Isso inclui a Igreja Universal do Reino de Deus, que tem 16 templos na capital britânica. Há, ainda, a Assembleia de Deus e igrejas evangélicas menores, como o Ministério de Luz para os Povos. Algumas dessas igrejas têm vínculos com as igrejas no Brasil.

Além das igrejas evangélicas, há oito igrejas católicas espalhadas em Londres que, juntas, formam a Capelania Católica Brasileira de Londres. Nesses locais são rezadas missas em português. A primeira missa rezada em português em Londres aconteceu em 1996.

Em 2004, seus adeptos conseguiram um passe mais permanente para estabelecer essa igreja. Há quatro padres brasileiros que foram enviados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil — CNBB para aí atuarem. O número de fiéis é de cerca de 3 mil pessoas.

Outra religião brasileira na capital é o espiritismo. Há uma Sociedade Espírita, fundada por brasileiros em 1998, e um terreiro de candomblé.

IHU On-Line - Qual foi o contexto histórico e social dessa transnacionalização de credos?
Olivia Sheringham - O contexto da globalização dos meios de comunicação influenciou a globalização da religião. Isso teve um impacto no movimento dos credos ao redor do mundo.

Falando especificamente sobre o Brasil, a diversidade religiosa desse país se espalhou pelo mundo em forma de uma diáspora. Há, assim, um “mercado” no qual é possível escolher a religião que se quer professar, e essa escolha pode ser mudada com o passar do tempo.

Minhas pesquisas abordam a questão da relação entre migração e religião e como a religião atravessa fronteiras. Esse fenômeno tem diversas características. A migração dos brasileiros para a Inglaterra aconteceu por causa de vários fatores, como das dificuldades econômicas enfrentadas pelo Brasil. As pessoas vinham para a Inglaterra para tentarem a vida.

Depois de 2001, ficou mais difícil de ir para os Estados Unidos, por isso houve um incremento na vinda à Europa. Como muitos brasileiros têm antepassados europeus em função da migração oriunda desse continente para o Brasil nos séculos XIX e XX, essas pessoas conseguem com mais facilidade passaporte europeu. A força da libra esterlina foi outro atrativo para os brasileiros rumarem a Londres como imigrantes. Some-se a isso que Londres teve um mercado informal de trabalho muito forte, sendo mais fácil para os brasileiros conseguirem emprego. Assim, chegaram os brasileiros na Inglaterra, formando uma diversidade religiosa.

Diáspora brasileira

Pode-se, também, falar em missão reversa, tomando em consideração a ida de inúmeros missionários para o Brasil no século passado e a recente volta dessas religiões para o Velho Mundo. Esse movimento traz a religião do Brasil para a Inglaterra. Trata-se de uma interessante missão reversa.

Agora se fala do surgimento do Brasil como centro econômico do mundo, mas também creio que esse país deva ser pensado como um centro da religião no planeta. O Brasil está espalhando suas religiões para diferentes partes do mundo no contexto dessa diáspora religiosa.

IHU On-Line - O que essas religiões brasileiras radicadas em Londres expressam sobre o pertencimento e a identidade de seus fiéis?
Olivia Sheringham - Esse foi um aspecto da minha pesquisa sobre a identidade brasileira e a religião. Também nesse caso as variações são inúmeras. Falo especificamente dos exemplos que estudei.

A igreja católica atuante em Londres tem sua ênfase na identidade brasileira. Em torno dela gravita um pequeno Brasil. A igreja dá apoio social e espiritual, mas se trata de um apoio que cria um ambiente brasileiro, para as pessoas sentirem um pouco de sua identidade nacional em Londres. A missa é rezada em português, sempre se fala no que acontece no Brasil, e as canções são entoadas em português. A comida servida depois da missa também é típica.

As festas católicas promovidas remetem, igualmente, ao Brasil, como é o caso das festas juninas, por exemplo. Certa vez fui a uma festa específica sobre o estado de Goiás. Então havia música, comida e bebidas brasileiras. A igreja católica tem o propósito de apoiar o imigrante para que ele se sinta mais em casa em Londres, e assim se insira na sociedade britânica com mais facilidade.

Cristo global

Por outro lado, a igreja evangélica onde trabalhei, em Londres, é parecida com outras igrejas evangélicas, que dão ênfase na universalidade do Reino de Deus, e não no Brasil especificamente.

Para essa religião, Cristo é mais global. Portanto, a ênfase é dada na integração, para que o imigrante aprenda inglês e que não fique sem os documentos oficiais. A partir dessa perspectiva, o imigrante deve entender que não está no Brasil, mas sim na Inglaterra. No centro espírita, a procura é por brasileiros de classe média, com ênfase também na integração à cultura inglesa.

IHU On-Line - Há uma interação entre a comunidade britânica e essas igrejas? Existe um diálogo inter-religioso?

Olivia Sheringham - A Aliança Pastoral, uma ligação entre igrejas protestantes da Inglaterra, é um meio de diálogo entre essas confissões com as igrejas brasileiras. Pensemos no fato de que muitas das igrejas evangélicas alugam e compartilham seus templos.

Na igreja evangélica em que fiz a minha pesquisa, convivem quatro igrejas evangélicas diferentes. O mesmo acontece com a igreja católica. São alugadas igrejas, que são compartilhadas com igrejas inglesas e de outras nacionalidades. Um padre católico me disse que há muitos ingleses que vêm às festas brasileiras — assim como a festa junina — organizadas pela Capelania Católica Brasileira. Portanto, eles procuram se comunicar com o público inglês.

IHU On-Line - Quais são as peculiaridades dessas religiões brasileiras em Londres em relação ao modelo que possuem no Brasil?
Olivia Sheringham - Como o papel da igreja muda em Londres? Em muitos aspectos. O papel da igreja em Londres é apoiar o imigrante, não apenas no contexto e vida espiritual, mas social.

Como essas pessoas podem viver em Londres? A igreja católica dá aulas de inglês, oferece conselhos sobre o contexto legal em Londres, como conseguir um visto, trabalho e outros aspectos. O papel da igreja é quase como centro social, além de religioso. Ao final de cada missa o padre anuncia se há trabalho disponível para brasileiros. Além disso, vários padres católicos falam que é preciso ter maior flexibilidade, pois muitos dos fiéis que procuram a igreja em Londres não eram católicos no Brasil. No Brasil, por exemplo, se espera que as pessoas que frequentem a igreja sejam casadas formalmente. Em Londres a situação é bem mais complicada e é preciso estar mais aberto às diferenças. Um migrante pode ir à igreja católica porque ali são oferecidas aulas de inglês, por exemplo.

Hoje há uma clareza por parte da igreja católica, que percebe que seu papel é proteger o imigrante, defendendo-o do Estado. Portanto, usa a própria história religiosa para justificar essa atitude de defesa, visto que Jesus Cristo foi um refugiado. Então, o mundo não deve ter essas fronteiras, e as religiões devem proteger o imigrante. Para os evangélicos, por outro lado, o imigrante deve ser legalizado, ter seu visto e ser integrado à sociedade britânica. Assim, não apoiam o migrante sem visto e aconselham os membros da igreja para que se regularizem.

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