quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Intoxicação digital


O mundo está se transformando, paulatinamente, num grande cassino.

Gabriel Novis Neves | Diário de Curitiba
Imagem: Internet

O Brasil já tem o segundo maior número de usuários cadastrados no Facebook - 65 milhões de pessoas - atrás apenas dos Estados Unidos, segundo pesquisas recentes. 

O tempo que os brasileiros passam nas redes cresceu 208% em 2012, o que significa que ficamos 535 minutos por mês navegando nas redes sociais, enquanto a média mundial foi de 361 minutos. 

Segundo alguns estudiosos, a Internet gera uma dependência, não química, mas comportamental. Essa é a opinião de médicos e psicólogos que no momento se dedicam a esses estudos. 

Exatamente como nos cassinos, em que o tempo perde a sua dimensão, de muito ultrapassado pelo prazer auferido pelos jogadores. 

Alguns desses lugares mantêm os seus tetos com as cores entre um amanhecer e um anoitecer, exatamente na tentativa de nos descondicionar da relação espaço-tempo. 

Tudo é pensado em termos de neurociência, apesar de não nos darmos conta disso. Logicamente, relógio, como era de se esperar, não faz parte desse cenário. 

O mundo está se transformando, paulatinamente, num grande cassino. O advento da era digital, maravilha do mundo moderno, transformou grande quantidade de habitantes deste planeta em jogadores compulsivos. 

E o que é pior, o vício se instala muito cedo, logo após os primeiros anos de vida, época em que, até pouco tempo atrás, as crianças enchiam os parques e os jardins para os folguedos próprios da idade. 

Os plays dos prédios e condomínios se esvaziaram subitamente, assim como praças e jardins, e o que vemos são crianças ensimesmadas, atracadas nos seus modernos jogos eletrônicos existentes nos seus computadores, iPads, iPhones, fliperamas, etc. 

O fato é tão alarmante que há, em alguns lugares do mundo, serviços de desintoxicação digital. 

São clínicas especializadas com profissionais multidisciplinares para esse tratamento, que é ambulatorial. 

Pode ser realizado em grupo ou individualmente, e o tempo mínimo para uma desintoxicação digital é de seis meses. 

Muitos sintomas físicos poderão ser causados por esse fator, sendo a insônia a mais frequente. 

A ansiedade de não poder ficar antenado durante as vinte e quatro horas do dia causa sofrimento a essas pessoas. 

Foi criada uma série de recomendações para ajudar o usuário compulsivo da Internet a deixar esse hábito, entre elas: deixar seus aparelhos desligados durante as refeições, ao dormir, durante o trabalho, porém, por se tratar de uma dependência, é difícil a sua prática. 

Nos Estados Unidos alguns hotéis orientam os seus novos hóspedes, já que são tratados como convidados, tamanha distinção em escolhê-los, a deixar toda a sua parafernália eletrônica na recepção. 

Paralelamente, tem aumentado no mundo o número de cassinos reais. Há uns poucos países atualmente em que o jogo é proibido. 

Nova York, até então sujeito à proibição da jogatina, já conta com um grande espaço no “Queens”, com quatro mil e quinhentas máquinas de jogo eletrônico.

Difícil imaginar, por exemplo, daqui a trinta anos o que acontecerá num mundo tão condicionado a esse tipo de entretenimento. 

Seremos todos uns bandos de jogadores compulsivos obsessivos reais ou virtuais? 

Essa é a pergunta que não quer calar. 



*Gabriel Novis Neves é médico e ex-reitor da UFMT 

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