sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O fardo da religião


Quando decidimos que Cristo é o nosso fim e o nosso tudo, todas as outras coisas tenderão, de alguma maneira, para ele

por Fabio Blanco

O cristianismo, se não abarcar a totalidade da vida do indivíduo, não passa de um fardo moral e religioso. Isso porque ele se confronta com a natureza decaída do homem. Sejamos sinceros, nosso corpo e nossa alma, naturalmente, não querem sofrer as restrições de uma vida religiosa. Por nossa natureza, o que queremos mesmo é relaxar, não sentir-se obrigados a nada, viver alimentando os desejos e os impulsos conforme eles aparecem para nós. E eu nem estou falando que queremos viver na esbórnia - mesmo sabendo que há alguns que até gostariam, sim - mas que as obrigações morais e religiosas são sentidas, boa parte do tempo, como pesos que precisam ser carregados.

Quando lemos Jesus dizer que o fardo dele é leve, é óbvio que entendemos o que ele disse, porém, não é tão fácil sentir essa leveza. Pense se não é assim: tudo o que envolve a vida religiosa, as orações, os cultos, os trabalhos, as obrigações morais, e também as restrições que nos impomos, é sentido como um fardo, e não exatamente como um fardo leve.

Eu sempre brinco, por exemplo, que deve haver um demônio específico para nos deixar com sono um pouco antes de irmos ao culto, à missa ou a alguma reunião de oração. É impressionante, mas a soneca pré-reunião é a mais gostosa do domingo! Da mesma maneira, separar momentos para oração, leituras bíblicas ou outros exercícios espirituais sempre parece que demanda um esforço além do ordinário.

Nos esforçamos por tornar tudo o que envolve nossa vida religiosa como algo prazeroso e natural, mas, na verdade, dificilmente conseguimos isso. E nos culpamos por isso. Achamos que se as coisas relativas à vida cristã não se tornam desejadas é porque deve haver algo de muito errado com nossa conduta. Concluímos, com isso, que precisamos orar mais, rezar mais, de repente até fazer penitências mais rígidas para domarmos nosso corpo e alma a fim de que eles comecem a tender mais para as coisas espirituais.

Isso, porém, talvez não seja a solução. Não que os exercícios espirituais não tenham função. Pelo contrário. Mas acredito, sinceramente, que mesmo eles são inúteis se antes não houver algo bem definido na vida do cristão: a decisão de ter Cristo como, nada menos, tudo em sua vida. O que eu quero dizer é que enquanto o cristianismo for apenas uma das áreas de nossa vida, enquanto ele for colocado no mesmo patamar de importância de outras coisas, mesmo como a família ou a igreja, tudo o que o envolve não será para nós nada mais que obrigações que cumprimos com muito esforço.

Para que as coisas superiores se tornem desejáveis e até agradáveis, é preciso que antes nosso ser queira muito viver em Cristo. Somente quando a vida em Cristo for nossa finalidade é que tudo o que nos envolve vai começar a se direcionar para o que é do alto.

É uma confusão achar que orando mais, trabalhando mais na igreja, lendo mais a Bíblia, a consequência disso será automaticamente nos sentirmos atraídos pelas coisas divinas. Quem faz isso, normalmente, acaba se frustrando. O que nós precisamos mesmo é tomar uma decisão definitiva: ter Cristo como tudo em nós!

Da decisão nasce a motivação. E quando decidimos que Cristo é o nosso fim e o nosso tudo, todas as outras coisas tenderão, de alguma maneira, para ele. 

Quando a resolução da nossa alma é que Cristo é a razão da nossa vida, e que todas as outras coisas existem, de alguma maneira, para colaborar para isso; quando decidimos que o que queremos é realmente nos aproximar cada vez mais do nosso Senhor, então temos aí o catalisador de tudo mais o que iremos fazer.

Com isso, a oração deixará de ser um esforço que cumprimos porque sabemos simplesmente que isso é bom, para se tornar um anseio de nossa alma, mas não porque ela se torna em si mesma desejável, mas, sim, porque ela nos aproxima daquele que desejamos. Da mesma forma, o cotidiano religioso, os cultos, as missas e as participações nos trabalhos eclesiásticos se transformam em um prazer, mas não porque sejam eles agradáveis em si mesmos, mas pelo fato de nos conduzirem até aquele que buscamos. E vida cercada de suas regras morais não são mais obedecidas pelo simples motivo de sabermos que é errado violá-las, mas principalmente pela consciência que temos que feri-las seria nos colocar mais longe daquele que dá sentido para a nossa existência.

O que eu quero dizer é que um cristianismo vivido sem a imersão total em Cristo é apenas a tentativa frustrada do homem natural, pecaminoso e tendente às coisas carnais de fazer tudo aquilo que seu ser inferior rejeita. Assim, viver um cristianismo dessa forma é sentir todo dia o peso e o enfado das obrigações que cumprimos para aliviar nossas consciências. O pior é que estas, ao invés de se sentirem aliviadas, na verdade, acabam ainda mais pressionadas pela constatação ininterrupta de que nossa natureza não quer mesmo as coisas celestes.

De fato, é apenas isso que sobra para o homem religioso que não toma a decisão de tudo viver em Cristo: um fardo de obrigações morais e religiosas que precisam ser cumpridas com muita dificuldade.

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