quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Nova heroína da Marvel Comics será adolescente muçulmana

Kamala Khan, a nova heroína da Marvel

The New York Times | O Globo

Num esforço para aumentar a diversidade de seus personagens, a Marvel Comics vai apresentar em fevereiro uma nova série cujo personagem principal será Kamala Khan, uma adolescente muçulmana vivendo em Jersey City.

Os poderes de Kamala não têm origem na explosão de um planeta, mordida de aranha ou acidente radioativo. Sua criação é mais mundana, começou com uma conversa entre Sana Amanat e Steve Wacker, dois editores da Marvel.

“Eu estava contando alguma história curiosa da minha infância, crescendo como uma criança muçulmana nos EUA”, diz Amanat. “Ele achou engraçado.” E no meio da conversa os dois notaram a escassez de séries com protagonistas femininos e, ainda mais, de quadrinhos com especificidades culturais.

Comentaram então o assunto com a escritora G. Willow Wilson, convertida ao Islã, e ela quis entrar no projeto. “Sempre que se faz algo assim, é um risco”, comenta Wilson. “Você está tentando atraiar o público, mas ele está acostumado com outras coisas nas páginas dos quadrinhos.”

Kamala, cuja família vem do Paquistão, segue com devoção a carreira da heroína loira e de olhos azuis Carol Danvers, que responde como Capitã Marvel, um nome herdado de um herói masculino. Quando Kamala descobre seus poderes, entre eles mudar de forma, assume o codinome Ms Marvel — o mesmo usado por Carol no início da carreira.

“A Capitã Marvel representa um ideal de vida para Kamala”, explica Wilson. “Ela é forte, bonita e não tem a bagagem de seu paquistanesa ou ‘diferente’”.

Kamala vai enfrentar desafios para além de sua dificuldade de aceitação, alguns deles dentro de casa. “Seu irmão é extremamente conversador”, diz Amanat. “Sua mãe morre de medo que ela encoste num garoto e engravide. O pai quer que ela se concentre nos estudos e se torne médica.” Perto desses desafios, enfrentar supervilões é moleza.

A equipe criativa está preparada para todas as possíveis reações. “Eu espero alguma negatividade”, reconhece Amanat. “Não apenas de anti-muçulmanos, mas também de muçulmanos que prefiram os personagens retratados de uma forma específica.” Mas isso “não é evangelismo”, alerta Wilson. Para ela, foi muito importante mostrar Kamala como uma jovem que luta com a sua fé.

A Marvel tem um histórico de incluir mulheres e minorias em seus grupos de heróis e os X-Men são provavelmente o melhor exemplo disso. Ano que vem mais duas heroínas vão ganhar revistas próprias: She-Hulk e Elektra.

Mas a busca por diversidade cultural nos quadrinhos nem sempre dá certo. O mercado pode receber com frieza novos personagens e o tiro pode sair pela culatra se não for bem planejado.

E ainda acontecem as tempestades: em setembro os roteristas de “Batwoman”, da DC Comics, anunciaram que estavam deixando a série por interferência editorial. Eles tinham sido proibidos de escrever um casamento para a personagem, que é lésbica.
Dan DiDio, co-editor da DC, disse que a decisão tinha a ver com a missão dos personagens do univers do Batman de sacrificar seus interesses pessoais em nome do bem comum. Eles “não deveriam ter vidas pessoais felizes”, argumentou.

Em 2011, quando a Marvel anunciou que Miles Morales, um adolescente hispânico, seria o Homem-Aranha numa versão alternativa do personagem, houve revolta entre os fãs. Muitos acharam que Peter Parker, branco e angustiado, havia sido substituído. Não era isso. Miles seria parte de uma série separada.

A resposta mais clara dos leitores, no entanto, demora um pouco, mas é fácil de quantificar. “ Os fãs respondem com seus dólares”, disse Axel Alonso, editor-chefe da Marvel Comics. Ele afirma que Miles ajudou a trazer novos leitores para os quadrinhos.

“Quando você vê o Homem-Aranha sem a máscara e ele se parece com você, vem a inspiração de comprar a revista”, argumenta.

A edição de setembro da série de Miles vendeu cerca de 32 mil cópias nos EUA. A versão mais tradicional, 80 mil, apesar de Parker estar aparentemente morto e o Doutor Octopus ter assumido o papel de Homem-Aranha.

Quanto a Kamala, Wilson disse que a revista será “sobre a experiência de todos os adolescentes americanos, se sentindo isolados e descobrindo quem são”. Mas aqui, ela acrescenta, isso acontece “pelos olhos de uma muçulmana” com superpoderes.

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