quarta-feira, 30 de outubro de 2013

O glamour da violência


Minorias simplesmente impõem  a sua opinião, como se isto fosse completamente "natural"

por Denis Rosenfield | Diário do Comércio

A violência tem ganho a cena das manifestações urbanas. As reações são as mais díspares, com alguns falando dos seus autores como "infiltrados”, outros como "fascistas", e  assim por diante. É como se se tratasse de algo novo, quase incompreensível.

Perde-se, com isto, toda uma história já existente no Brasil de prática revolucionária da violência e de uma ideologia esquerdista que compartilha dessa tese. O "novo" é aqui apenas um "reconhecimento" velado de algo que foi sustentado e que, por suas consequências nocivas junto à opinião pública, é, agora, rotulado como algo da "direita".

Durante anos, senão mais de uma década, a opinião pública urbana e seus formadores de o pinião tornaram-se "simpáticos" às invasões ditas "pacíficas" do MST no campo brasileiro. A violência lá imperava com o apoio de toda uma esquerda que falava da luta contra o "latifúndio", justificando a violência sistematicamente empregada. Foices e facões, senão armas de fogo, eram sistematicamente usadas nessas invasões. Animais eram esquartejados, tratores queimados, galpões incendiados, trabalhadores sequestrados, empreendedores rurais enxotados de suas terras. 

O direito de propriedade era sistematicamente violado, as pessoas tinham sua segurança física ameaçada e a insegurança jurídica campeava. 

Os invasores justificavam a sua violência em nome da luta “revolucionária”, pela transformação da sociedade capitalista e pela eliminação do "lucro". Todo meio e, principalmente, a violência, era considerada  válida. Contudo, havia todo um palavreado falando de "invasão pacífica", armas brancas como foices e facões eram tidas por "instrumentos de trabalho" e ações sistematicamente planejadas, em moldes revolucionários, eram consideradas como "manifestações espontâneas". Mu lheres e crianças eram utilizadas como escudos, sem que isto se tornasse objeto de opróbio público. 

A violência foi institucionalizada e reconhecida enquanto valor.  Não deveria, pois, espantar que estudantes invadam a Reitoria da USP como se fosse uma manifestação pacífica, impedindo o ir e vir das autoridades. Aprenderam com o MST e com a ideologia revolucionária   que impera em boa parte das universidades públicas.

Minorias simplesmente impõem  a sua opinião, como se isto fosse completamente "natural".  Talvez "natural" na perspectiva revolucionária que adotam e assumem publicamente. O que surpreende, porém, é o fato de que podem continuar operando desta maneira, com decisões favoráveis de juízes. Na verdade, trata-se de toda uma mentalidade revolucionária que termi nou se impondo, pois durante muitos anos compartilhada  por formadores importantes da opinião pública. 

Quando os "black blocs" empregam a violência, incendiando carros, agredindo policiais, atingindo meios de comunicação, depredando estabelecimentos comerciais e assim por diante, eles estão somente retomando, no espaço urbano, o que lhes foi ensinado pelo MST e organizações congêneres no campo brasileiro. Não há novidade alguma aqui. 

O que chama, no entanto, atenção é o fato de que são denominados "infiltrados" e "fascistas".  Por que não denominá-los simplesmente pelo que eles são: esquerdistas? Por que os bem pensantes da esquerda não querem se reconhecer nesse rebento seu? 

Note-se que, no Rio de Janeiro, os "black blocs" foram considerados como "companheiros" por uma parte dos manifestantes cariocas, ou seja, como participantes de uma mesma luta, com objetivos iguais. Haveria uma pequena diferença no que diz respeito aos meios utilizados, embora sejam eles considerados igualmente como válidos. 

Tudo depende da consecução dos objetivos e da simpatia angariada junto à opinião pública. Se a repercussão se torna muito ruim, afastando a sociedade das teses da esquerda, eles passam a ser considerados  "fascistas". Trata-se de mera tática, maleável segundo as circunstâncias. 

Observe-se ainda que tanto o "fascismo", o "nazismo" quanto o "comunismo" empregaram e justificaram as formas mais extremas da violência. Todos tinham uma aversão congênita à economia de mercado, ao lucro, às liberdades e ao estado de direito. Neste sentido, não se distinguiam essencialmente. Ocorre que, dentre nós, a simpatia foi dirigida à "violência revolucionária",  na melhor tradição marxista, leninista, trotskista, maoísta, guevarista e castrista. 

Até hoje, mesmo em salas de aula, essa tradição é honrada e, por alguns, considerada como moralmente superior. Quantos dirigentes partidários do PT ainda não se reconhecem nessa tradição? E os ditos movimentos sociais? 

Digno de nota é o fato de que todos os manifestantes que se utilizam da violência e os seus simpatizantes não cessam de dizer que estão agindo legitimamente, como se compartilhar de sua ideologia fosse um dever mesmo legal de todos os cidadãos. Isto se expressa na defesa da tese de que são contra a "criminalização dos movimentos sociais". Nada mais claro, de fato.

Se eles são contra a "criminalização" dos movimentos sociais é porque eles são a favor da violência que é utilizada nas cidades brasileiras, como antes no campo. Eles querem apenas carta branca para que a sigam utilizando, como se se tratasse de algo moralmente e politicamente justificado. Ou seja, a "violência revolucionária" ou "social", como dizem eles, não deve ser tida por um crime, mas como algo "diferente", evidentemente, na perspectiva esquerdista.

Almejam com isto que seus atos sejam também reconhecidos como "legais", como formas legítimas de manifestação da cidadania. Almejam, ademais, a impunidade de suas ações, para que possam, tranquilamente, perseguir com seus objetivos revolucionários de transformação do capitalismo. 

O que está verdadeiramente em questão é a conservação ou não da democracia. Se ela se deixa minar pela violência revolucionária ou "social", considerada como moralmente legítima, é o seu próprio futuro que está em jogo.  


Denis Lerrer Rosenfield é professor de Filosofia na UFRS

Nenhum comentário: