segunda-feira, 21 de outubro de 2013

É preciso muita fé


A campanha nem começou e os postulantes ao governo do Rio já travam uma guerra nos bastidores pelos votos dos evangélicos — que terão peso decisivo em 2014

Thiago Prado | Veja

A oito meses da largada oficial da campanha, o palanque para a disputa do governo fluminense já está sendo armado dentro dos templos evangélicos. Todo fim de semana, o senador e pré-candidato do PT Lindbergh Farias, ex-comunista e católico não praticante, percorre o circuito completo da fé: assiste a cultos, abraça fiéis e se deixa fotografar com as mãos espalmadas em oração. Já apareceu em 63 igrejas. Aniversário de pastor ele não perde um. O rival Luiz Fernando Pezão, vice do governador Sérgio Cabral, do PMDB, foi com tanto apetite aos redutos evangélicos que no mês passado chegou a ser condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral (TRE) a pagar multa por campanha antecipada. Pezão bateu recorde em participações na rádio gospel de maior audiência do estado: 29 aparições em quatro, meses, ou uma a cada quatro dias. A agenda dos postulantes ao governo do Rio é apenas a face mais visível da acirrada gueixa travada nos bastidores por um quinhão desse eleitorado decisivo. Conquistá-lo é questão de sobrevivência política em 2014.

O tabuleiro eleitoral fluminense tem uma peculiaridade: duas forças políticas do estado são evangélicas, o ex-governador e hoje deputado federal Anthony Garotinho (PR) e o senador Marcelo Crivella (PRB), sobrinho do bispo Edir Macedo e ele próprio uma liderança da Igreja Universal. Três sondagens às quais VEJA teve acesso, encomendadas por Lindbergh, Garotinho e Pezão, variam um pouco nos números, mas descrevem um cenário parecido: juntos, o ex-governador e o bispo Crivella oscilam entre 37% e 49% das intenções de voto (Garotinho sai na frente em duas e na terceira eles empatam, seguidos dos demais, embolados na faixa de 5% a 10%). Em outras eleições, Crivella também começou bem, justamente impulsionado pelo rebanho evangélico, até que foi minguando, minguando e nem ao segundo turno chegou; desde 2002, Garotinho não concorre ao Executivo. Como ambos têm alta rejeição, o mesmo pode ocorrer agora, mas eles contam com uma vantagem no campo de batalha: os evangélicos costumam ser fiéis à palavra do pastor. Diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, do IBGE: "O Rio é o estado com menos católicos e um dos que têm maior concentração de evangélicos, o que os torna imprescindíveis". Traduzindo em votos, são cerca de 4 milhões em jogo, um terço do total.

Nas últimas eleições, a maior parte dos evangélicos marchou com Sérgio Cabral, só que uma parcela debandou por se sentir alijada do poder. Não está fácil arregimentar apoios em meio à onda do "Fora Cabral", mas Pezão tem ao menos um trunfo, o pastor Abner Ferreira, da Assembleia de Deus. com ascendência sobre 2000 lideranças. Um dos que mais se consideram traídos pelo governador é o pastor Silas Malafaia, cujo raio de influência pode chegar a 1 milhão de eleitores. Atualmente, apoia Lindbergh, a quem conduziu ao púlpito de sua igreja no último domingo. "Vamos fazer uma oração grátis, 0800 para ele. Quem sabe estou orando pelo futuro governador", dizia o pastor a uma plateia cheia. Ele cedeu ao petista um de seus mais articulados discípulos.

Sóstenes Cavalcante, tão hábil na costura da agenda evangélica que sua fama já chegou até ao prefeito Eduardo Paes. Em 2 de outubro, num almoço que reuniu Malafaia e Pezão, Paes interpelou o pastor, em tom de brincadeira: "Quanto vale o passe de Sóstenes?". Velho aliado do prefeito, Malafaia sorriu e desconversou. Recentemente, emissários de Lindbergh e de Pezão tentaram selar aliança com outra figura-chave, o pastor Édino Fonseca (PEN), um dos mais votados deputados estaduais em 2010. O pastor, que tenta a reeleição, foi direto ao ponto: "Quem quiser meu apoio vai ter de bancar minha campanha". É coisa de uns 2 milhões de reais.

O ex-governador Garotinho também tenta avançar sobre rebanhos antes simpáticos a Cabral. Nos últimos tempos, aproximou-se do pastor Marcos Feliciano (PSC) e acaba de acolher em seu partido Marcos Soares, filho de RR Soares, da Igreja Internacional da Graça. Pelo menos por ora, RR se diz neutro. Há um mês, Cabral até lhe fez uma visita para tentar reverter a situação em favor de Pezão. Saiu de mãos vazias. Garotinho, que está firme na guerra, brada: "Não preciso de intermediários para me comunicar com os evangélicos". Desde junho, ele organiza shows de artistas gospel em todo o estado. Arrastou mais de 1 000 pessoas à Baixada Fluminense no último dia 10. Ao lado da filha, Clarissa, candidata à Câmara dos Deputados. Garotinho cantou, dançou, rezou, contou casos e sorteou Bíblias. Só podia participar do sorteio quem deixasse nome, endereço, telefone e e-mail na ficha. Realmente, isso é que é comunicação direta com o eleitor. Ops, fiel. 

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