segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Relativismo: gênese e implicações

Vivemos em uma época em que cada vez mais as pessoas lutam por mais liberdade e, ao mesmo tempo, tornam-se escravas de várias coisas, inclusive de si mesmas

Dr. Joel Gracioso - Faculdade de São Bento | Construir Notícias

No nosso dia a dia, é muito comum vermos na televisão, ouvirmos no rádio ou lermos em revista pessoas dizerem: “essa é a sua verdade”, “cada um tem a sua verdade”, “cada época tem a sua moral”, “cada cultura tem os seus valores”, “todas as religiões são verdadeiras”, “o que é verdadeiro pra você não é pra mim”. Ora, o que essas pessoas querem dizer com essas expressões? Se as analisarmos com calma, vamos perceber que elas são carregadas de pressupostos, principalmente de um referencial filosófico chamado relativismo. Mas o que é relativismo? Qual seu conteúdo? Quais suas formas e sua origem? Quais as implicações desse modo de pensar e conceber o mundo? O relativismo é uma doutrina que afirma a relatividade do conhecimento humano. Ou seja, há um condicionamento do sujeito que conhece sobre o objeto conhecido e também dos objetos entre si. Assim, a posição do sujeito, sua situação e seu momento condicionam e determinam o modo como ele vê e concebe a realidade.

A pessoa, portanto, como um ser que sempre se encontra em uma circunstância determinada, não consegue transcender essa particularidade e conceber algo universal. A única coisa que ela pode expressar é sua impressão sobre o que está observando, sua opinião, enfim aquilo que considera verdadeiro. Não há verdade absoluta ou universal.

Quando adentramos a história da Filosofia, percebemos que o termo relativismo aparece a partir do século XIX, no contexto da filosofia moderna e contemporânea. Porém, ao analisarmos as diversas correntes filosóficas desde o período antigo, vemos que existiram filósofos que comungavam com esse modo de pensar, mesmo que ainda não usassem o termo. Ademais, o pensamento de alguns filósofos colaborou muito para a difusão desse modo de compreender o conhecimento humano.

Num primeiro momento, é importante lembrarmo-nos da sofística grega. Os sofistas eram pensadores livres, professores de uma arte ou técnica que exerciam de maneira admirável, conseguindo apresentar aos seus ouvintes os mais diversos temas de forma atraente. Procuravam ensinar o que era útil às pessoas fazendo uso da retórica, que nada mais é do que a arte da eloquência, de saber falar bem e argumentar com eficiência, com o intuito de persuadir o interlocutor. Procuravam persuadir apresentando a seus adversários as razões e definições de algo, tendo por fundamento não aquilo que uma coisa é em si mesma, mas, sim, o modo como nós a apreendemos e de que maneira nos será útil. Além disso, distinguiam a convenção (nómos), fruto de uma decisão humana, e a natureza (phýsis), que não depende da ação humana, pois segue uma ordem necessária. Eles despertaram no mundo grego o ardor pela retórica e também colocaram em dúvida a pretensão da filosofia de conhecer a verdade última das coisas. Dois grandes nomes da sofística grega foram Protágoras de Abdera e Górgias de Leontini.

Há uma proposição de Protágoras que expressa de maneira clara o modo de pensar dos sofistas. Ele diz: “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são, e das que não são pelo que não são”.

Ora, ao analisarmos essa sentença, percebemos de maneira explícita a ideia de que as coisas, ou seja, os seres e os fatos em geral, não o são por si mesmos. O que as coisas são ou deixam de ser depende do modo como cada homem ou pessoa individual aprende e julga a realidade, pois o indivíduo é a referência absoluta. Assim, não há uma verdade universal apoiada nas próprias coisas, no que elas são em si mesmas. Tudo varia de pessoa para pessoa. O que temos são meras opiniões sobre as coisas, e o máximo que podemos pretender é tentar persuadir o outro de que nossa opinião é mais útil ou eficiente naquele momento. Não se tem, portanto, a pretensão de achar que as próprias ideias ou conceitos revelam o que as coisas realmente são, pois não há uma dimensão das coisas em si mesmas, como se elas tivessem uma identidade própria, independente do que nós achamos sobre elas. Enfim, o que elas são ou deixam de ser é determinado pelo homem que as percebe, pois ele é a medida de tudo.

Num segundo momento, nesta nossa genealogia do relativismo, é importante mencionar o pensamento de Kant, filósofo alemão do século XVIII. Kant dizia que era necessário fazer uma revolução copernicana na filosofia, isto é, da mesma maneira que se passou do geocentrismo para o heliocentrismo, vendo que não era a Terra o centro do universo, mas, sim, o Sol, era preciso tirar o objeto do conhecimento do centro da reflexão filosófica e partir de uma análise do sujeito do conhecimento. Segundo ele, a tradição sempre olhou o objeto do conhecimento e nunca analisou o sujeito do conhecimento, e as condições de possibilidade do conhecimento humano. Assim, se partia do pressuposto de que o ponto de partida do filosofar seria a realidade e que o homem, de fato, com sua estrutura natural, teria capacidade de conhecer as coisas tais como elas são. Porém, para Kant, isso era má ilusão, pois o ponto de partida da busca do conhecimento deveria ser justamente a análise crítica dessa faculdade de conhecer, o sujeito do conhecimento, a razão.

A razão é uma estrutura vazia, mas universal, igual em todos os humanos. Essa estrutura seria constituída de uma forma da sensibilidade, a qual está relacionada com o espaço e o tempo; de uma forma do entendimento, que utiliza diversas categorias; e da forma da razão propriamente dita. No processo do conhecimento, os conteúdos que irão preencher essa estrutura são provenientes da experiência sensível. Assim, essa estrutura, a priori, condiciona o modo como as informações empíricas serão organizadas e interpretadas.

Por conseguinte, para Kant, só podemos conhecer as coisas como fenômeno (phainomenon), e não em si mesmas (noumenon), flexibilizando e, num certo sentido, relativizando o conhecimento humano. Nunca podemos ver a realidade em si mesma, mas apenas como ela se apresenta para o nosso modo de percepção humana.

Num terceiro momento, é importante mencionar a filosofia de Nietzsche, um grande pensador do século XIX. A filosofia nietzschiana procura efetivar uma crítica ao modo como, muitas vezes, a questão dos valores morais foi entendida na história do pensamento humano, principalmente na cultura ocidental.


Segundo Nietzsche, para compreendermos realmente a problemática dos valores morais, é preciso efetivar uma genealogia da moral. É preciso questionar o que entendemos por bem e por mal. Analisar como se determina o que é o bem e o mal e também de que maneira busca-se legitimar o bem e o mal. A tendência da maioria das pessoas, segundo ele, é achar que o modo como essas questões são abordadas sempre foi o mesmo, como se fossem algo natural às concepções de bem e mal. É contra esse modo de pensar, que se esquece de que os valores morais são históricos e construídos dentro de determinadas sociedades, que o pensamento nietzschiano se insurge, propondo uma transvaloração dos valores.

A partir do perspectivismo e do experimentalismo, Nietzsche vai questionar qual é o valor dos valores, mostrando, assim, que eles são criações históricas. A compreensão do que seja o bem e o mal depende do contexto e da perspectiva em que isso é pensado. O que há, na realidade, são leituras e interpretações diferentes do mundo e das questões que emergem da vida. Talvez não se possa classificar o pensamento nietzschiano de relativista, pois ele não entendia que todas as interpretações da realidade teriam o mesmo prestígio e peso. Porém, é inegável que esse perspectivismo possui uma semente de relativismo.

Além disso, a partir do século XIX, desenvolve-se uma percepção mais clara da historicidade do ser humano. A compreensão de que o ser humano é um ser histórico e, por conseguinte, alguém profundamente inserido na sua época e realidade social levou muitos pensadores a entender a impossibilidade de o ser humano transcender a sua particularidade.

O que percebemos, na realidade, a partir dessa breve reconstrução que fizemos, é que, principalmente no período moderno, determinadas opções filosóficas foram feitas a partir de um conjunto de mudanças que ocorreu na cultura ocidental.

No século XVII, a concepção de razão começa a se alterar. Enquanto os antigos e os medievais concebiam uma razão que possui uma abertura à totalidade do ser e que, apesar dos seus limites, era capaz de pensar o universal e transcender o particular, o mundo moderno estabelece a razão lógico-matemática, empírico-formal, como o modelo de instrumento de conhecimento. Não se nega o absoluto, mas se absolutiza o sujeito do conhecimento. Ou seja, no âmbito filosófico, desde o período antigo, a razão foi concebida, na maioria das vezes, com uma abertura ao ser e uma capacidade de reflexão metafísica. Já no mundo moderno, a noção de razão muda; o modelo lógico-matemático e empírico-formal vai ser a base da nova concepção de razão. A transcendência real é trocada pela transcendência lógica. O primado não é mais do ser, mas, sim, do sujeito do conhecimento. A razão moderna, portanto, é primordialmente operacional, vendo o homem apenas como objeto e esquecendo que este é chamado a voltar-se para uma realidade que o transcende. A partir disso, foi se estabelecendo uma desconfiança cada vez maior da capacidade da razão humana em conhecer realmente o verdadeiro. O caminho do verdadeiro foi perdendo espaço para o que se considera verdadeiro. Qual a consequência disso?

No dia a dia, vemos constantemente os meios de comunicação (rádio, televisão, jornais, revistas) apresentarem versões altamente questionáveis e tendenciosas sobre os mais diversos assuntos: aborto, sexualidade, pobreza, inquisição, origem da vida, família, drogas, prostituição, religião, etc. Além disso, na maioria das vezes, percebemos que não há um amor pela verdade, mas, sim, um intuito de defender uma ideologia ou cosmovisão totalmente questionável, com o objetivo de influenciar o modo de pensar da maioria das pessoas, manipulando dados e informações.

A consequência de tal trabalho já se manifesta visivelmente nas famílias e na vida das pessoas em geral. Uma mentalidade cada vez mais permissiva e relativista vai adentrando a cultura contemporânea. Uma crise ética e dos valores fundamentais vai se agravando de maneira nunca vista na sociedade. O desrespeito à vida humana e a hipervalorização do técnico e da produção ferem profundamente a dignidade humana. Consequentemente, o desprezo pelo transcendente também cresce. A professora Nancy Pearcey, envolvida no debate atual entre criacionistas e evolucionistas nos Estados Unidos, nas suas obras A Alma da Ciência e Verdade Absoluta, analisa como se formou esse paradigma relativista predominante na nossa cultura.

Num primeiro momento, a autora analisa a relação entre fé e cultura, explicitando como foi se formando uma postura relativista, agnóstica e antirreligiosa no meio acadêmico.

Nos dias atuais, segundo a professora, estabeleceu-se uma fragmentação muito grande na sociedade, criando, assim, uma dificuldade enorme para se viver qualquer tipo de integridade. Na família, somos de um jeito; no emprego, de outro; etc. Qual a razão de ser de tudo isso?

Primeiramente, devido a uma dicotomia social. De um lado, temos a família, a Igreja, os relacionamentos pessoais compondo a esfera privada. De outro lado, temos a esfera pública, constituída da política, da academia, etc. Essa dicotomia estaria apoiada numa outra divisão entre fatos e valores. Os primeiros como algo objetivo que se aplica a todas as pessoas, e os segundos como algo totalmente subjetivo. Assim, na medida em que a religião pertence à esfera privada, ela é algo meramente subjetivo; e a ciência, na medida em que pertence à esfera pública, é algo objetivo. Portanto, temos já estabelecido o início do conflito entre ciência e religião, verdade objetiva e verdade subjetiva, levando, por conseguinte, segundo a autora, a um duplo âmbito da verdade e até das ciências, pois, de um lado, teríamos as ciências humanas, as quais estariam no âmbito do subjetivo e do relativo, e, do outro lado, as outras ciências, que estariam no âmbito do materialismo e do naturalismo.

O equipamento da mente moderna, portanto, levaria a isso.

Assim, para a professora Nancy, essa dicotomia social leva a uma dicotomia mental e epistêmica, na qual a verdade objetiva pode estar presente na ciência, na história, mas não nas questões éticas, por exemplo. Mas nem sempre foi assim, segundo a professora. No século XIX, por exemplo, a unidade e possibilidade da verdade eram defendidas por alguns pensadores. Onde e quando começou essa mudança?

No entendimento de Pearcey, foi no ensino da evolução e na visão naturalista do conhecimento. A partir desse referencial, os dogmas teológicos e os absolutos filosóficos passam a ser vistos como fraudulentos. A religião pode existir e funcionar, desde que não faça afirmações com pretensão de serem verdadeiras. Enfim, tanto a religião como a ética foram transpostas para o âmbito meramente pessoal.

Segundo a referida professora, a guerra entre fé e ciência é um mito produzido pela teoria evolucionista. Portanto, no entendimento da autora, os pressupostos e as implicações do darwinismo — seja no âmbito epistemológico, antropológico ou moral — precisam ser abandonados, seja devido às suas limitações, seja para termos outra compreensão da relação entre fé e razão, religião e ciência.

Por fim, segundo Nancy Pearcey, é preciso recuperar a unidade da verdade. Uma verdade que tenha condições de tornar o todo da realidade coerente. Uma visão unificada da realidade contra a fragmentação moderna. Para ela, é preciso ter a coragem de se perguntar: minha cosmovisão consegue explicar e sustentar a totalidade da experiência humana? Segundo a professora, uma cosmovisão relativista, materialista e naturalista, como o darwinismo, não.

Ademais, podemos perceber que o discurso relativista se apresenta no mundo moderno sob o conceito de tolerância e liberdade.

Ora, a história da humanidade vivenciou no seu seio diversos fenômenos absolutistas e fundamentalistas. Ditaduras, estados totalitários e posturas autoritárias em vários momentos não respeitaram a liberdade de cada ser humano e a sua dignidade. O respeito ao diferente nem sempre foi vivido de maneira concreta. Minorias foram perseguidas e massacradas. Devido a isso, gerou-se certo consenso de que uma sociedade democrática necessariamente é relativista. Qualquer questionamento e discordância sobre o modo de viver e pensar do outro já é interpretado como intolerância e preconceito.

Que não seja concebível que alguém queira impor aos outros o seu modo de pensar, está claro. Que existem coisas que são relativas também é aceitável, pois existem situações e coisas que são diferentes. Que a realidade humana e social muda, que o modo de pensar muda de uma época para outra e de uma cultura para outra também. Que tudo isso influencia no modo como as pessoas pensam é inegável. Incontestavelmente essas coisas são reais, mas nada disso prova que não haja verdade. É totalmente possível conciliar as afirmações feitas anteriormente e a defesa da verdade como realidade universal e imutável.

Assim, não ter o direito de entender e propor que uma determinada visão de mundo seja mais coerente e verdadeira que outra nem ter o direito de defender a existência da verdade e de valores perenes parece ser um contrassenso e um desrespeito à liberdade de pensamento do ser humano.

Será que podemos afirmar que estamos passando por uma ditadura do relativismo, como reiteradamente afirma o Papa Bento XVI? É só olharmos ao nosso redor e vamos ver que sim. Na política, na ética, na família, no trabalho, na religião, vê-se que o modo de pensar relativista é o que predomina. Há uma cisão no interior e na vida das pessoas. Na religião que se frequenta, por exemplo, professa-se uma fé e, ao mesmo tempo, afirmam-se concepções que a contradizem. Ensina-se uma determinada conduta e, ao tempo, vive-se o contrário.

Assim, vai se estabelecendo um discurso fragmentado, em que não há uma verdade integral. A ideia de que tudo é válido e legítimo se estabelece cada vez mais.

Assim, o que percebemos também é que o relativismo epistemológico acaba levando a outros tipos de relativismo, como o moral e o religioso. Há princípios básicos que servem para nortear o agir humano? Se o relativismo estabelece ou acaba levando a uma sensação de que tudo é aceitável, pois não há o certo, como questionar as atrocidades éticas que vemos no mundo?

Evidentemente, não resolvemos essa questão apelando a um universal abstrato, que não leve em consideração a situação concreta do indivíduo. A intenção e as condições em que um ato acontece sempre devem ser levadas em conta. Isso faz parte dos critérios da moralidade. Todavia, isso não significa relativisar nem defender uma ética situacionista. Mas, sim, estabelecer uma dialética entre a historicidade do ser humano e sua capacidade de transcendência.

Talvez seja necessário relembrarmos a distinção aristotélica entre o essencial e o acidental. O primeiro não muda, é universal e necessário, é o que mostra o que as coisas realmente são. O segundo é contingente e, portanto, pode ser diverso. Há coisas que são relativas, outras não.

O relativismo só se afirma se partirmos do pressuposto de que o real nada mais é do que uma construção da nossa mente. Porém como demonstrar isso? Uma coisa é supor, outra é provar. Todavia, o real não é um mero constructo humano. Ele é por si. Ele tem existência própria e, por isso, tem uma identidade em si mesmo. A verdade é justamente o real ou aquilo que o mostra. Que o ser humano é um ser simbólico, que constrói maneiras diferentes de se aproximar do real, isso a História mostra.

O ser humano construiu certas formas de pensar e interpretar o mundo a partir de referenciais e perspectivas distintas. Assim, em alguns momentos procurou vislumbrar o real a partir do mito, isto é, de uma linguagem e de um modo de pensar metafórico e simbólico cujo intuito era expressar, por meio de determinadas narrativas, uma verdade imemorial. Em outros momentos, preferiu, através de determinadas condições históricas favoráveis, estabelecer e utilizar um pensamento fundado na razão, cuja lógica exclui a contradição, o fantasioso, considerados absurdos. Nesse trabalho, de olho no real a partir do logos demonstrativo, é que vai surgir também o discurso científico, no sentido moderno do termo. Geralmente, o que se denomina conhecimento científico é a noção elaborada a partir da modernidade, cujo modelo é a matriz lógico-matemática. Ademais, a possibilidade de verificação experimental de qualquer enunciado é o critério principal da sua veracidade. Exclui-se, portanto, dessa concepção a visão aristotélica de ciência, por exemplo.

Além desses meios mencionados, a arte e a religião, uma por meio da experiência estética e outra a partir da questão do sagrado, permitem outro olhar sobre a mesma realidade. Dessa maneira, o homo sapiens analisa o real a partir de olhares diferentes. Contudo, esses olhares se complementam e ajudam o homem a conhecer cada vez mais a verdade na sua totalidade.

Enfim, percebemos que essa mentalidade relativista também está intimamente ligada à sociedade capitalista em que vivemos. A busca pelo sucesso, pelos bens materiais e pelo prazer a qualquer custo predomina no contexto social atual.

A sociedade contemporânea salienta, cada vez mais, a realização pessoal, o prazer, o saber e a qualidade de vida como pré-requisitos para se atingir a felicidade. Ora, mas o que vem a ser vida feliz? A sociedade de consumo será o caminho para satisfazer o desejo de felicidade do ser humano?

No mundo contemporâneo, percebemos que o ser humano continua se questionando sobre o que é ser feliz e qual o caminho que leva até a vida feliz. Parece que realmente o desejo de ser feliz é algo muito forte na natureza humana. Porém, ao mesmo tempo, cada ser humano se depara com o seu drama existencial, isto é, a experiência da própria finitude, das próprias limitações, das frustrações e injustiças da vida. E tudo isso, muitas vezes, acaba esvaziando de sentido a busca da felicidade. Esta acaba parecendo um desejo irrealizável ou uma verdadeira ilusão. Quando pensamos que atingimos a felicidade, somos surpreendidos pelas contingências e dores da vida.

Todavia, no mundo contemporâneo, na sociedade do hipercapitalismo e do consumo, em que tudo é transformado em mercadoria, parece que não se pensa sobre o drama da existência humana, mas, ao contrário, tenta-se negar esse drama e vender a felicidade, associando-a a determinados produtos. Assim, ser feliz passou a ser uma questão de ter coisas, de poder consumir certos produtos. Ter dinheiro, comprar roupas, viajar, ter fama, satisfazer todos os desejos pessoais, etc. são vendidos como passaporte para a vida feliz.


O fato é que essa postura gera uma mentalidade relativista, achando que os fins justificam os meios, e também um vazio existencial nas pessoas, despertando muitas vezes depressões e distúrbios sérios nos indivíduos e na sociedade em geral. As pessoas acabam não sabendo o que fazer com suas frustrações e dores. O individualismo se acentua, e a perda de sentido da vida é inevitável. Além disso, a crise ética que percebemos na sociedade é um reflexo dessa hipervalorização do ter em detrimento do ser. Para possuir uma postura ética, é preciso se questionar sobre o sentido radical do humano, sobre a importância do outro na nossa vida e principalmente sobre o nosso modo de ser.

Há uma dificuldade muito grande, no mundo atual, em entender a relação entre verdade e liberdade. Parece que, se afirmarmos a existência de uma verdade absoluta, é como se estivéssemos negando a liberdade do homem. Ora, o ser humano é livre ou determinado? O que significa ser livre?

"Vivemos em uma época em que cada vez mais as pessoas lutam por mais liberdade e, ao mesmo tempo, tornam-se escravas de várias coisas, inclusive de si mesmas."

A escravidão tira do ser humano sua capacidade de escolher por si mesmo, de se posicionar perante algo e, assim, tomar uma decisão de maneira não coagida. Dessa forma, num primeiro momento, o ser livre ou ter liberdade é justamente não ser dominado por nenhuma coação. Contudo, devemos tomar cuidado para não usar isso como desculpa para satisfazer nossos desejos e impulsos mais primitivos e inferiores. Ser livre, nessa perspectiva, não é simplesmente realizar todos os meus apetites. Não é apenas fazer o que eu quero, mas principalmente o que eu devo. É conseguir escolher sempre o melhor, o verdadeiro, o bem.

É preciso estar claro, portanto, que uma coisa é o livre-arbítrio da nossa vontade, outra coisa é a liberdade da vontade. A nossa vontade é uma capacidade da nossa alma de querer e produzir atos voluntários de tendência consciente. O livre-arbítrio permite operacionalizar a vontade de maneira não coativa. Pelo conhecimento intelectual que tenho de objeto, passo a ir ao encontro dele a fim de possuí-lo sem coação. Isso é possível porque tenho uma vontade e também o livre-arbítrio.

Todavia, só isso não basta. É preciso, nesse processo do querer voluntariamente, chegar à liberdade da vontade, ou seja, possuir de fato uma vontade livre. Não basta ter uma capacidade que me permita querer de maneira não coagida. Ser livre, ter uma vontade livre implica sempre querer e escolher, não qualquer coisa, mas o melhor, o bem devido. Infelizmente, hoje em dia, a sociedade defende, cada vez mais, a ideia de que ser livre é realizar os próprios desejos e apetites.

Enfim, o exemplo do drogado mostra bem a falsidade disso. Por um lado, ele faz o que quer, mas, por outro, mostra como é escravo.

Ou seja, quando vêm os momentos de crise, e ele percebe os malefícios das drogas, vislumbra como é escravo de si mesmo, pois não consegue querer e escolher o melhor, o que deve, e sim apenas entender que aquilo não convém. A presença de um mau hábito, um vício, compromete a liberdade da sua vontade.

Assim, o mundo contemporâneo nos mostra, com todos os seus problemas, que a felicidade não está no ter e na mera materialidade da vida. Que o ser humano realmente precisa de pontos e referências sólidas que norteiem a sua existência e as suas escolhas. Que o amor pela verdade é algo fundamental na vida humana e que o relativismo é uma grande questão a ser refletida. 

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