quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A Igreja baniu a ciência na Idade Média?

Detalhe da fachada oeste da Catedral de Notre Dame 

Poucos dos milhões de turistas que visitam a Catedral de Notre-Dame de Paris sabem que existe na França uma igreja gótica tão grande, antiga e com tantos ornamentos e vitrais como a apinhada atração turística parisiense. Trata-se da Catedral de Notre-Dame de Chartres, a 90 quilômetros de Paris, que tem um detalhe a torná-la especial. Entre as centenas de imagens de santos, teólogos e personagens bíblicos que adornam as fachadas, há sete esculturas de grandes nomes da filosofia e da ciência clássica, quase todos eles pagãos: Prisciano, Boécio, Cícero, Euclides, Aristóteles, Ptolomeu e Pitágoras.

As esculturas da Catedral de Chartres são a prova mais interessante da proximidade entre ciência e religião na Idade Média. Nos quase mil anos que vão da queda de Roma à queda de Constantinopla, a Igreja preservou e recuperou clássicos da Antiguidade, criou instituições de ensino que frequentamos até hoje e instituiu uma tradição de indagação científica que resultou nas grandes descobertas do Renascimento.

Quando foi construída, entre os séculos 11 e 13, a igreja abrigava uma das mais famosas escolas da época. Os sete pensadores retratados na fachada representam as sete artes liberais ensinadas na escola – gramática, aritmética, retórica, geometria, lógica, astronomia e música. Os padres de Chartres os admiravam tanto que decidiram imortalizá-los na fachada. “Nosso objetivo é descobrir a razão de cada coisa”, escreveu Guilherme de Conches, um dos mais entusiasmados professores daquela instituição. No início, as aulas aconteciam no próprio salão da igreja e eram destinadas a filhos de nobres que pretendiam seguir a carreira religiosa. Aos poucos, as escolas de catedrais europeias ganharam salas adjacentes e novos edifícios. No século 12, deram origem a uma instituição que ainda hoje significa conhecimento: a universidade. Criadas e dirigidas por padres em Oxford, Cambridge, Paris e Bolonha, as primeiras universidades do mundo ensinavam direito, filosofia natural, medicina ou teologia e, como atualmente, qualificavam os estudantes com diplomas de bacharel, mestre e doutor.

O traço mais importante das universidades medievais é que, embora a teologia fosse o curso com maior status, os dogmas cristãos nem sempre se impunham nas outras áreas de pesquisa. “Exigia-se dos filósofos naturais das faculdades de artes que se abstivessem de introduzir teologia e temas de fé na filosofia natural”, afirmou o historiador americano Edward Grant, um dos principais especialistas em educação medieval. [56] Entre crenças mágicas e dogmas religiosos, começou nas escolas de catedral e nas universidades a tradição de explicar os fenômenos físicos por meio da matemática e da experiência. Como escreveu, 350 anos antes de Galileu, o frade franciscano Roger Bacon, professor da Universidade de Paris:

Sem experiência nada se pode saber suficientemente. Há duas maneiras de adquirir o conhecimento: pelo raciocínio ou pela experiência. Raciocinar leva-nos a tirar uma conclusão que temos por certa, mas não elimina a dúvida. E o espírito não repousará na luz da verdade se não a adquirir através da experiência. [57]0000000000

Os livros usados nas escolas de catedrais também eram fruto do trabalho dos sacerdotes. Com a queda de Roma, em 476, e as invasões em cidades europeias, coube aos monges copistas proteger obras clássicas da Antiguidade contra saqueadores e reproduzi-las à mão. No século 12, depois da reconquista da maior parte dos territórios árabes da Espanha, os monges traduziram para o latim obras gregas que os árabes haviam assimilado. “Na Espanha, em Toledo, equipes de eruditos cristãos, judeus e árabes traduziam textos gregos e árabes que tratavam de medicina, astronomia, aritmética, álgebra e trigonometria”, diz o historiador Jean Gimpel. [58] Assim, apareceram na Europa edições em latim de Ptolomeu, Aristóteles, Hipócrates, Arquimedes e Galeno, além de obras de pensadores árabes, como o persa Avicena e o andaluz Averróis. A chegada desses livros animou estudantes e criou o que os historiadores chamam de Renascença do século 12. “Não se passa das trevas da ignorância à luz da ciência se não forem relidas com amor cada vez mais vivo as obras dos Antigos”, escreveu o poeta e diplomata Pierre de Blois, que foi aluno da escola da catedral de Paris. “Para eles serão todos os meus cuidados e a aurora me encontrará todos os dias a estudá-los.”

Também contribuiu para a Renascença do século 12 uma série de descobertas tecnológicas. A partir desse século surgiram, na Europa, os moinhos de vento, os óculos, o sistema numérico hindu-arábico, a fabricação de papel. Outra novidade fez tanto sucesso que o casal Abelardo e Heloísa se inspirou nela ao dar o nome do filho: Astrolábio.

Não é à toa que, hoje, 35 crateras da Lua levem o nome de matemáticos e astrônomos religiosos. “Durante mais de seis séculos, da recuperação dos antigos conhecimentos astronômicos durante a Idade Média até o Iluminismo, a Igreja deu mais ajuda financeira e suporte social ao estudo da astronomia que qualquer outra instituição, e provavelmente mais do que todas as outras juntas”, escreveu o historiador de ciência John Heilbron, da Universidade da Califórnia. [59] Há frutos curiosos dessa tradição, como o sacerdote francês Jean Buridan, que viveu entre 1300 e 1358. Ao tentar explicar os movimentos dos astros, Buridan imaginou uma mecânica única: os planetas e as estrelas estariam submetidos às mesmas leis de pequenos objetos na Terra. Também acreditava que o movimento dos astros era contínuo porque no espaço não havia atrito e nenhuma outra força a agir contra sua velocidade. Lembram as leis de Newton, não?

Não se sabe se Newton tomou conhecimento das ideias de Buridan, mas é certo que se baseou em outros sacerdotes astrônomos. Um deles foi o jesuíta checo Valentin Stansel, que veio ao Brasil depois de ordenado e ficou por aqui até morrer, em 1705. As observações de Stansel sobre o céu da Bahia e a descoberta de um cometa em 1668 renderam três páginas de Princípios Matemáticos da Filosofia Natural, de Newton. O fato de a obra fundadora da ciência moderna citar estudos de um missionário cristão da Bahia não é uma incoerência, e sim o atestado de uma longa tradição. [60]

Apesar dessa tradição, a Igreja medieval foi imortalizada pelos filósofos iluministas como instrumento de obscurantismo. Os casos de cerco à ciência, como a proibição das ideias de Copérnico e a condenação de Galileu ganharam muito mais ressonância. Essa injustiça levou a uma situação curiosa. Durante a Revolução Francesa, rebeldes invadiram e saqueadores ram a Catedral de Chartres. Pensaram em explodi-la, mas um arquiteto da cidade lembrou que os escombros de uma eventual explosão engoliriam toda a cidade por meses. Caso destruíssem a igreja, os revolucionários botariam abaixo também as estátuas de grandes mestres da razão, pela qual eles diziam lutar.
          
56 Thomas E. Woods Jr., Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental, Quadrante, 2008, página 53.     

57 Jean Gimpel, A Revolução Industrial da Idade Média, Zahar, 1977, página 155.
      
58 Jean Gimpel, página 156.
      
59 Thomas E. Woods Jr., página 8.
    
60 Thomas E. Woods Jr., página 81


Trecho do livro História Politicamente Incorreta da História do Mundo, de Leandro Narloch (Leya)

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