terça-feira, 6 de agosto de 2013

Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo



Jornalista dá versão politicamente incorreta da história do mundo em novo guia

Danubia Guimarães | Porta Imprensa

O jornalista Leandro Narloch já passou pelas redações de revistas como Veja, Superinteressante e Aventuras na História, mas de uns anos para cá tem se dedicado a um trabalho mais autoral. Logo em sua estreia como escritor, em 2009, integrou a lista dos dez livros mais vendidos do País, feito repetido também em 2011. O “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” e o “Guia Politicamente Incorreto da América Latina”, respectivamente, trouxeram informações nada convencionais sobre personagens como Zumbi dos Palmares, Santos Dumont, entre outros heróis da história, caindo quase que automaticamente no gosto dos leitores mais jovens. 

Lançado no início de agosto, o “Guia Politicamente Incorreto da História do Mundo”, da editora Leya, chega com proposta semelhante. Reunindo dois anos de pesquisas e, pelo menos, 150 estudos e materiais de referência, a obra promete contrariar muitos fatos dados como concretos da história tradicional dos livros didáticos mundo afora. 

No guia, o leitor terá acesso a informações que apontam, por exemplo, que Dalai Lama não teria sido um governante tão “zen” quando comandava o Tibete. Segundo o autor, “a maior parte dos tibetanos vivia em um rígido sistema de servidão. Transgressores e criminosos eram punidos com açoites e amputação de orelhas, braços e olhos”.

Como diferencial, o livro traz ainda uma pesquisa exclusiva e polêmica realizada na Câmara dos Deputados. Ao longo do dia, os governantes eram questionados se concordavam ou não com uma série de frases sem saber que se tratavam de citações do ex-ditador fascista Benito Mussolini.   Segundo Narloch, o objetivo era “mostrar que quando é tirado o nome do líder italiano, a ideia de que o Estado deve ter total poder sobre as escolhas individuais permanece arraigada”.

A seguir, o jornalista fala à IMPRENSA sobre o processo de produção e apuração de seu mais novo livro e o impacto que ele deve causar.

IMPRENSA Como foi o processo de apuração de seu novo livro? Como elegeu fontes confiáveis diante da incapacidade de comprovar 100% a veracidade dos fatos?
LEANDRO NARLOCH - Procurei falar com especialistas no assunto. Para falar sobre Hitler e o nazismo, por exemplo, falei com o Ian Kershaw, que é um grande historiador e um de seus biógrafos mais importantes [do ex-líder nazista]. Também fui até Oxford, na Inglaterra, consultar alguns pesquisadores, além do material de consulta, que foram cerca de 150 publicações. Foram dois anos de entrevistas e pesquisas. 

Nos livros anteriores você comentou que teve o interesse de provocar o leitor quando contou algumas histórias. Neste novo livro também pensou dessa forma ou houve uma preocupação de comprovar fatos por um outro ângulo?
As duas coisas. O projeto editorial não é sobre um livro que conta a história do mundo. Minha proposta é trazer um guia politicamente incorreto. É um olhar politicamente incorreto da história do mundo. E como o assunto é vasto, escolhi aquilo que provocasse mais, incentivasse à reflexão. Induzisse uma sensação de que o leitor foi meio que enganado na escola.

É o caso da África, por exemplo. Eu aprendi e repeti a ideia de que os problemas do continente foram causados pelas fronteiras artificiais criadas pelos europeus no século 19. Já faz pelo menos 30 anos que muitos historiadores da África já deixaram de lado essa teoria. Eu adorei isso, porque é a típica atualização científica necessária para o leitor. 

Como filtrou quais assuntos abordaria diante de um tema tão vasto como a história do mundo?
Muitos critérios. Primeiro aquilo que apresentasse uma diferença muito grande entre o que o leitor acredita e o que uma nova corrente de estudo diz. Isso para que o guia sirva para atualizar o leitor mesmo. Foi muito do meu feeling de saber de assuntos que causariam polêmica, que podem deixar os politicamente incorretos irritados.

Uma boa parte do livro mostra que os heróis da bondade, do bom mocismo, da paz mundial, podem até ter dado sua contribuição para o mundo, mas a grande melhoria de vida que a gente tem hoje não vem deles. Vem de pessoas interessadas em ganhar dinheiro que foram vendendo cada vez coisas melhores e mais baratas para vencer seus concorrentes e, por isso, hoje, a gente tem em casa, mesmo os pobres, coisas, que no passado, apenas aos milionários tinham. Nesse cenário, eu levanto uma que talvez seja a maior polêmica do livro: o capitalismo foi uma das melhores coisas que aconteceram no mundo.

Conta um pouco sobre essa pesquisa realizada na Câmara dos deputados. De onde surgiu a ideia? Eles souberam depois que as frases eram de Mussolini? Você pediu autorização para utilizar as entrevistas?
No capítulo dedicado ao fascismo eu começo falando que hoje todo mundo é fascista. No Facebook, ou em qualquer outra discussão, as pessoas acusam uns aos outros de fascismo. O termo mudou de significado, passou a significar aquele que não concorda comigo ou com você.

Não entrei em um dilema ético com essa pesquisa. Se tivesse contado que as citações eram de Mussolini, ninguém iria concordar com elas. Peguei frases que mesmo fora de contexto são obviamente fascistas, que colocam o indivíduo a serviço do Estado. E apresentei para os deputados analisarem. Esse é o sabor da pesquisa. Mostrar que quando a gente tira o nome do Mussolini, a ideia de que o Estado deve ter total poder sobre as escolhas individuais ainda está arraigada.

Você teve algum problema com os deputados por causa dessa pesquisa?
Parece que um deles ameaçou processo, mas nada concreto. A editora foi questionada sobre a pesquisa...

Por que você acha que os livros didáticos continuam contando as mesmas histórias diante do surgimento de versões tão diferentes da história?
Os livros didáticos são muito ruins no Brasil. Não existe uma grande preocupação com o conteúdo. Talvez porque a venda deles é mais motivada por lobby. Talvez por medo das editoras de chocarem professores ou medo de que os livros não sejam vendidos. Mas isso está mudando um pouco.

Até o muro de Berlim e a Guerra Fria, a história estava muito polarizada, entre o comunismo e capitalismo. Essa visão deixou os jornalistas e historiadores do passado também com uma visão polarizada do passado. Depois disso os historiadores começaram deixar a ideologia um pouco de lado na hora de escrever. Começaram analisar papeis, fontes e deixaram de tentar encaixar o Brasil numa grande teoria.  

Você já passou por revistas que abordavam a história de alguma forma em suas pautas. Como é mostrar um lado nada convencional sobre os fatos?
Me sinto fazendo o mesmo exercício de atualizar o leitor cientificamente que já fazia nas revistas por onde passei. A gente aprendeu lá há 10, 15 anos algumas histórias e muita gente repete lugares comuns em relação ao passado. Decidi questionar um pouco isso. Meu trabalho é o mesmo: farejar informações de que o leitor vá gostar. Isso foi o que procurei trazer para os livros.

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