segunda-feira, 29 de julho de 2013

Francisco critica liberais e conservadores da igreja

No último dia no Brasil, papa diz que ideologias põem em risco ação pastoral

Francisco ataca ideologias e prega renovação na igreja
Papa critica correntes progressistas e conservadoras que dividem católicos

Sem propor reformas estruturais, pontífice deixa mensagem dura para bispos no último dia de sua visita ao país

Fabiano Maisonnave | Folha de S. Paulo

O papa Francisco atacou ontem as correntes progressistas e conservadoras que atuam no interior da Igreja Católica e pregou sua renovação com base em um diálogo mais eficaz com o mundo contemporâneo e mudanças de atitude dos seus líderes.

Em discurso para bispos da América Latina no último dia de sua visita ao Brasil, Francisco criticou a "ideologização" da igreja por grupos que vão da "categorização marxista" até o "restauracionismo" de "formas superadas".

Para ele, a igreja precisa se voltar "às questões existenciais do homem de hoje". "Toda projeção utópica [para o futuro] ou restauracionista [para o passado] não é do espírito bom", disse. "Deus é real e se manifesta no hoje."

Como havia ocorrido na véspera, no encontro que teve com bispos brasileiros, Francisco usou o discurso para dar a sua visão da igreja para o que considera dois grandes desafios, a "renovação interna da igreja e o diálogo com o mundo atual".

No trecho mais duro do discurso, afirmou que "determinadas propostas" ideológicas trazem o risco de "fazer fracassar" o trabalho da igreja.

Uma delas foi classificada como "reducionismo socializante", em alusão à Teologia da Libertação, que foi muito popular na América Latina nos anos 70 e 80, pregando o engajamento da igreja nas lutas dos movimentos sociais.

"Trata-se de uma pretensão interpretativa com base em uma hermenêutica de acordo com as ciências sociais", disse Francisco em seu discurso. "Engloba os campos mais variados, desde o liberalismo de mercado até à categorização marxista."

Os adeptos da Teologia da Libertação, que tiveram anos difíceis sob João Paulo 2° e Bento 16, receberam com otimismo a escolha de Francisco, que defende "uma igreja pobre, para os pobres" desde que assumiu a liderança da Igreja Católica, em março.

Mas o papa também foi duro com a "direita" da igreja, ao mencionar "grupos de elites", com "uma proposta de espiritualidade superior" e que se consideram "católicos iluminados". Criticou ainda "pequenos grupos" que buscam "recuperar o passado perdido", com foco em "disciplina e formas superadas".

Francisco atacou o "funcionalismo", que deixa a igreja parecida a "modalidades empresariais" e promove "uma espécie de teologia da prosperidade", em referência ao movimento carismático, que adotou no catolicismo práticas semelhantes às dos evangélicos pentecostais.

No Brasil, os carismáticos se tornaram nos últimos anos uma das principais forças responsáveis pela atração de jovens para a Igreja Católica.

Em vez de reformas estruturais, o papa propôs uma "mudança de atitude" do clérigo latino-americano. Como já havia feito no sábado, Francisco exortou os bispos a se questionarem. "Superamos a tentação de tratar de forma reativa os problemas complexos que surgem? Criamos um hábito proativo?"

Com relação ao "diálogo com o mundo", o papa disse que a igreja deve abandonar uma "cultura de base rural", estática, para usar uma linguagem que responda "às questões atuais do homem".

"Por exemplo, em uma mesma cidade, existem vários imaginários coletivos que configuram diferentes cidades'", afirmou Francisco.

O papa enfatizou ainda a necessidade de incentivar uma maior participação dos leigos na vida da igreja, investindo em sua formação.

O pontífice citou várias vezes o Documento de Aparecida, aprovado em 2007 pelos bispos latino-americanos e do qual ele foi o relator, quando era cardeal de Buenos Aires. O documento dá diretrizes para a igreja da região e é considerado um dos pilares do pontificado de Francisco.

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