quinta-feira, 6 de junho de 2013

70 mil cristãos a um… Onde estava o povo?


Por Reinaldo Azevedo | Veja

Há mecanismos fraudulentos de pensamento que, não obstante, são muito influentes, especialmente se quem os exercita os reveste, assim, de camadas de aparente requinte intelectual. Uma das fraudes frequentes no nosso tempo consiste, por exemplo, em considerar que a religião é “uma questão individual”, de sorte que “o estado não tem nada com isso”.

Ontem, enquanto Luís Roberto Barroso, agora novo ministro do Supremo, era sabatinado na CCJ do Senado, 70 mil cristãos se reuniam no gramado em frente ao Palácio do Congresso. Segundo a lógica falsa, de um lado, estava o novo tribuno da plebe para o mundo do direito; do outro, nada mais do que 70 mil mônadas, cada uma com uma cabeça e uma sentença. O bem coletivo, o saber concentrado da civilização, entende-se, estava com o jurista. Sim, foi ele a dizer, para delírio de certa ignorância ilustrada, que religião é questão privada.

Bem, não é, como sabe qualquer estudioso e como gritam os fatos. Mas não me perco nisso agora. Interessa-me, no caso, é o tal mecanismo de pensamento.

Uma das palavras ocultas numa consideração dessa espécie é esta: “aborto”. Assim, quem é contra a sua legalização o seria apenas por preconceito… religioso! Em seu site, aliás (ele vai mantê-lo?), Barroso nos convida a ver a questão sem… preconceitos!!! Sem as viseiras da divergência, todos pensaríamos como ele.

Notem: por esse caminho, pode-se impor qualquer coisa, não é? Se a religião é, então, um saber e uma experiência alheios aos interesses da sociedade, basta que uma determinada interdição — qualquer uma, a depender dos grupos influentes — mereça a etiqueta de “religiosa” para que, então, seja imediatamente descartada.

Em certas áreas, é o máximo de sofisticação intelectual que se pode alcançar. E, no entanto, não é assim!

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