segunda-feira, 8 de abril de 2013

A força de 12 milhões de fiéis


Maior igreja evangélica do Brasil, a Assembleia de Deus, do deputado Marco Feliciano, escolhe nesta semana seu comandante para os próximos anos

Vinicius Gorczeski | Época

No início de 2010, o ex-governador paulista Orestes Quércia, morto no final daquele mesmo ano, era candidato ao Senado pelo PMDB-SP. Acompanhado de José Serra (PSDB), à época candidato a presidente, e do então prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (PSD), Quércia procurou o pastor José Wellington, da Assembleia de Deus, em São Paulo. O trio convidou o líder evangélico para ser suplente na chapa. Na ocasião, Quércia já sabia que sua saúde estava comprometida em decorrência de um câncer na próstata e queria um suplente de confiança. O pastor recusou a oferta, mas, em retribuição, prometeu apoio total ao grupo. Quércia não conseguiu seu suplente, mas garantiu aquilo que políticos mais buscam numa eleição: votos.

Depois de abrir mão da candidatura, em setembro de 2010, Quércia foi substituído por Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), que ficara com a vaga oferecida ao pastor. Wellington reiterou seu compromisso. Trabalhou ativamente na campanha, como se o nome na urna eletrônica fosse o seu. Aloysio elegeu-se com 11 milhões de votos e não se esqueceu do auxílio recebido. "Ele (Aloysio) me ligou à meia-noite (do dia da eleição) para agradecer", diz Wellington. Naquela mesma eleição, a Assembleia de Deus elegeu 27 deputados federais por todo o país, entre eles o pastor Marco Feliciano (PSC-SP), o polêmico presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara.

Tais vitórias são apenas as mais recentes conquistas da igreja comandada por Wellington desde 1988, quando foi escolhido para presidir a Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB). Wellington transformou o que já era uma força religiosa numa máquina política, com um crescimento anual de 5% em número de fiéis – e potenciais eleitores. Agora, sua bem-sucedida liderança é colocada à prova. De 8 a 12 deste mês, mais de 24 mil pastores e evangelistas, um recorde de inscritos, se reunirão em Brasília para decidir entre Wellington e o pastor Samuel Câmara na disputa pela presidência da CGADB, que representa 55 mil pastores. Numa espécie de mega-conclave tropical, eles escolherão o novo líder da Assembleia de Deus.

A denominação evangélica pentecostal é a maior e com o crescimento mais pujante do país, perdendo apenas para o catolicismo – tem 12 milhões de fiéis, contra 123 milhões de brasileiros católicos, segundo números do IBGE. Em termos políticos, a igreja é uma das mais organizadas e costuma atuar em bloco no apoio a candidatos, diretamente ligados a ela ou não. "Em 2010, pedi dois dias para decidir sobre o convite de Quércia, mas já sabia que não aceitaria. Política e igreja, para mim, são como água e óleo, não se misturam", afirma Wellington. Não é bem assim. Marta Costa (PSD) e Paulo Freire (PR), filhos de Wellington, ocupam cadeiras na Câmara Municipal de São Paulo e na Câmara dos Deputados, respectivamente. Como pauta comum, ambos fazem, assim como outros parlamentares ligados à Assembleia, a "defesa das coisas de Deus". Em outras palavras: são contra o aborto, a liberação de drogas hoje ilícitas e o casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo. E defendem a permanência do colega Feliciano à frente da comissão encarregada de debater alguns desses assuntos.

Wellington nasceu na diminuta São Luís do Curu, no interior do Ceará. Aos 68 anos, viajou em campanha pelo Brasil nos últimos quatro meses para pregar uma "palavra mais conservadora". Seu rival, já pela terceira vez, é Samuel Câmara, de 56 anos, natural de Cruzeiro do Sul, Acre, um pastor popular entre as lideranças jovens.

Como uma de suas bandeiras, defende a redução do mandato na presidência, de quatro para dois anos, e o fim da reeleição. Apesar de ter metade do Congresso Nacional no nome, Câmara também rejeita entrar na vida pública, mesmo sendo irmão de um deputado federal – Silas Câmara (PSD-AM) – e cunhado de outra – Antônia Lúcia (PSC-AC).

Câmara tem forte apoio no Norte e no Rio de Janeiro. São Paulo e o Nordeste tendem a preferir Wellington. "Eu me coloco novamente na eleição para não mudar a identidade da igreja, que é tão tradicional", diz Wellington. Câmara afirma que na atual gestão foram criados "vícios". "Nos primeiros 58 anos, 21 presidentes se alternaram no poder. O atual presidente interrompeu esse movimento democrático de integração", diz Câmara, que defende uma igreja mais ativa na TV e na internet. Mais que definir o rumo da instituição, a eleição oferece uma boa ideia da presença da Assembleia de Deus na vida brasileira. No Congresso Nacional, em meio a seus milhões de fiéis ou nas urnas que revelarão seu líder, a igreja dá mostras de poder e influência.

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