segunda-feira, 25 de março de 2013

A ensolarada retórica de Chesterton



por Rodrigo Gurgel

A revivescência de G. K. Chesterton, exatamente num dos períodos mais populistas e demagógicos da história brasileira, não é fruto do acaso, mas o anúncio de que parcela da nossa sociedade permanece lúcida, pronta a buscar a verdade – e não as histórias da carochinha que insistem em nos contar todos os dias.

Acaba de sair, pela Editora Ecclesiae, mais um volume desse irônico polemista inglês, O que há de errado com o mundo, no qual assino o prefácio, estudo que contextualiza as ideias de Chesterton no início do século XX, quando o livro foi publicado.  

Como afirmo no prefácio, intitulado “O que falta ao nosso tempo”,

com seu raciocínio envolvente, construído por meio de analogias e paradoxos inesperados, Chesterton dilui a camada de banalidade que recobre as coisas comuns. Sua retórica ensolarada pisoteia, com a alegria de um menino, grande parte do ensaísmo contemporâneo, principalmente no Brasil, onde a arrogância epistêmica se espalha, renovando-se, a cada dia, por meio da sintaxe confusa e do jargão intraduzível. Há algo de agradavelmente hipnótico na sua escrita, correndo solta, desimpedida, livre de exercícios tautológicos, um dos cacoetes herdados da semiologia de inspiração barthesiana. Chesterton não se refugia no vocabulário afetado ou hermético porque não dissimula, não é um enfadonho esnobe, possui convicções e dá à linguagem o tratamento merecido: o de honrosa ferramenta – e não o de uma divindade. Movido por profundo respeito pelo leitor, seus textos nascem da consciência de que, “para um católico, qualquer ato cotidiano é uma dramática dedicação ao serviço do bem ou do mal”. Alto, obeso, de riso tonitruante, seu volumoso corpo só foi superado pela multifacetada abrangência de suas ideias. Era o que mais falta ao nosso tempo: um sábio.

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