quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

O relógio da ditadura em Cuba se aproxima da meia-noite


Yoani Sánchez | Época

é jornalista e escritora cubana. Aos 37 anos, publica suas críticas ao regime no blog Generación Y

Nos arredores da Igreja da Nossa Senhora da Regra, em Havana, uma mulher joga búzios para os transeuntes em troca de pouco dinheiro. Entre as perguntas que ouve todo dia, repetem-se quase como uma obsessão as seguintes: se a pessoa poderá viajar num futuro próximo, se conseguirá comprar uma casa, se encontrará seu amor e, claro, quando terminará “isto”. Com um simples pronome demonstrativo, os clientes da vidente tentam resumir o que alguns chamam de “revolução”, outros de “ditadura” e os mais neutros simplesmente de “o sistema”. Para a mulher de unhas de vermelho intenso e turbante branco na cabeça, a resposta é difícil de ser dita, por medo de que seja somente a provocação de algum agente do governo vestido de civil. Ela consulta a posição das conchas e quase sussurra: “Logo, será logo”.

O relógio biológico do governo cubano está perto de marcar meia-noite. Neste lento e desesperador movimento dos ponteiros que já dura 54 anos, a obsolescência se aproxima a cada minuto que passa. Ainda que, nos últimos cinco anos, Raúl Castro, de 81, tenha colocado gente mais jovem no governo, as decisões mais importantes seguem concentradas nas mãos de octogenários. Como um voraz Saturno que come seus filhos, os principais dirigentes da revolução não têm permitido que possíveis sucessores lhes façam sombra. Os últimos defenestrados pela paranoia do general-presidente foram o vice-presidente Carlos Lage, que gozava de bastante simpatia popular, e o chanceler Felipe Pérez Roque. Ambos foram acusados pelo próprio Fidel Castro de estar “viciados ao mel do poder”. Isso tem deixado os líderes políticos sem reposição, e não há mais tempo para formar dirigentes que queiram continuar o caminho traçado pela hierarquia verde-oliva. Para Raúl Castro, “o tempo urge” para deixar pronta a geração que os substituirá. Em 2013, ele se verá obrigado a acelerar o processo e poderá cometer muitos erros. Esse será um dos elementos que contribuirão para o enfraquecimento ideológico e a perda do minguado apoio popular que ainda desfruta o castrismo.

Cada passo rumo à flexibilização é como se os líderes carregassem uma arma para disparar em suas têmporas 

As reformas econômicas levadas a cabo por Raúl Castro também influenciarão na diminuição do controle sobre a população. Ampliação do setor privado, cobrança de impostos e autorização para a criação de cooperativas não agropecuárias são algumas das medidas que farão o peso do Estado se reduzir no dia a dia dos cubanos. Isso levará a uma diminuição do compromisso ideológico das pessoas com um governo que cada vez menos lhes dá subsídios e benefícios. Cada passo que as autoridades dão rumo à flexibilização é como se carregassem uma arma para dispará-la em suas têmporas. A reforma é a morte do statu quo. Os próximos 12 meses de 2013 serão decisivos para definir essa tendência de passar do centralismo à atomização produtiva.

No entanto, o regime é hábil em sobreviver diante dos prognósticos mais desfavoráveis. A crise econômica tem sido seu caldo de cultura nos últimos 25 anos. Aos inquilinos da Praça da Revolução, lhes parece melhor a emergência que a prosperidade, a crispação que a calma. A precariedade material se constitui em mecanismo de paralisia sobre uma população que tem de passar horas esperando pelo ônibus ou numa fila para comprar 1 quilo de frango. Por isso, os números no vermelho das finanças nacionais não chegam a provocar um estalido de inconformismo. Entre ir às ruas para derrubar o governo e se lançar ao mar numa balsa frágil rumo à Flórida, milhões de cubanos prefeririam a última opção. A explosão migratória pode estar mais próxima que uma explosão social. Quem espera assistir em 2013 a imagens de Havana como as da Praça Tahrir, no Cairo, terá pouca chance de ver realizada sua previsão.

Apesar disso, os aparelhos de repressão não conseguiram erradicar os setores mais críticos. Tem ocorrido, sim, o contrário. Mesmo com as prisões da Primavera Negra de 2003 e do exílio de muitos líderes da oposição, a oposição vive momentos de efervescência. O ano de 2012 termina com a lamentável perda de Oswaldo Payá, figura principal do Movimento Cristão de Libertação (morto em acidente de carro em julho), mas outros rostos começam a aparecer. O fortalecimento das redes sociais também ajuda a romper o monopólio da opinião estatal e dizer ao mundo o que ocorre dentro da ilha.

O agravamento da saúde do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, é um elemento catalisador do colapso. Diante da possível ausência do grande mecenas do Palácio Miraflores, Raúl Castro terá de acelerar as reformas para conseguir equilibrar as contas, o que levará a mais perda de autoridade do Partido Comunista. Ele pode optar por isso ou tentar entregar a nação nos braços de outro magnânimo tutor que pague as faturas. Mas não se avista no horizonte ninguém interessado em assumir um problema de 111.000 quilômetros quadrados e 11 milhões de habitantes. A atuação do governo de Barack Obama também será determinante. Se, enfim, ocorrer a suspensão do embargo americano sobre Cuba, muitos acreditam que o governo possa ter um respiro econômico. Outros dizem, contudo, que se perderia o argumento político mais usado pelo castrismo. Seria um duro golpe não poder culpar o vizinho do norte pelo descalabro produtivo do país.

Tal qual um complicado xadrez político e social se mostra o tabuleiro cubano para 2013. O governo conta com muito poucas fichas para obter resultados tangíveis nos pratos e bolsos dos cidadãos. Para piorar, dizem os supersticiosos, está a maldita cabala do número 13, que alguns identificam com momentos medulares da vida de Fidel Castro. A começar por sua data de nascimento, em 13 de agosto de 1926. Em outro 13 de agosto, de 1993, ele se viu obrigado a autorizar a dolarização da economia cubana. Dado seu delicado estado de saúde, é de esperar que nos próximos anos os cubanos recebam a notícia do “magno funeral”. Um fato, a esta altura, de conotações mais simbólicas que políticas. Na falta de elementos confiáveis para fazer previsões, as pessoas se aferram às adivinhações. Tudo para saber quando terminará “isto”, quando os ponteiros petrificados do relógio biológico de uma revolução marcarão meia-noite.

Nenhum comentário: