terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Lincoln, de Spielberg

por Nivaldo Cordeiro


O filme Lincoln, de Spielberg, é uma construção cinematográfica grandiosa, que dá ao expectador o efeito específico que só o cinema consegue: o impacto visual da reconstrução biográfica do grande presidente dos EUA. Além do notável diretor temos a ação dos grandes atores do elenco. Daniel Day-Lewis no papel principal equiparou-se agora aos maiores atores de todos os tempos, no nível de Al Pacino. Tudo que se escreveu sobre ele é merecido e quem vê o filme sai do cinema de queixo caído, admirado.

O foco da narrativa é as últimas semanas de vida de Lincoln e sua batalha parlamentar para aprovar a Décima Terceira Emenda, a que aboliu a escravatura. O diretor talvez pudesse abreviar essa narrativa e dar um pouco mais de dinamismo ao filme. Mesmo assim, sua escolha foi boa, para mostrar como é a mecânica da aprovação das leis, mesmo daquelas mais emblemáticas. No filme foi sublinhado que mesmo ele, o incorruptível Lincoln, passou a corromper para que a lei pudesse ser aprovada. Momentos de verdadeiro “mensalão”, como tivemos por aqui. Coisas da vida política.

O Daniel Day-Lewis captou a psicologia do personagem. A perfeição que conseguiu na reprodução do corpo e dos gestos (talvez da voz) de Lincoln é admirável. O rápido envelhecimento, a máscara dos últimos dias de vida, é evidência do desgaste da luta política, da administração da guerra e do drama familiar. Mas penso que é sobretudo resultado do esgotamento do tempo faustico. Lincoln foi uma figura fáustica, um construtor de império que não hesitou em fazer o sacrifício de 600 mil vidas para esmagar as liberdades federativas originais, pondo em seu lugar um Estado mais centralizado, de vocação imperial.

Essa constatação nos leva necessariamente a meditar sobre a história norte-americana, de forte impacto nos acontecimentos globais, desde então. Com Lincoln, os EUA realizaram o esplendor do Estado moderno, guerreiro, expansionista, realizador. O papel desempenhado desde então por aquele país, em todos os conflitos relevantes, parece confirmar o destino manifesto. Tornou-se hegemônico. Suplantou a Europa. Virou policia do mundo. Explodiu a bomba atômica.

Muita gente vê os EUA como um Estado providencial. Penso ser um engano. É da mesma natureza que os demais Estados modernos. Se a história lhe reservou certos papéis mais moderadores foi por circunstância, pois ele nunca esteve dissociado nem da logica de movimento e nem dos propósitos dos demais Estados. O Estado moderno é sempre o devorador de homens, o matador em escala industrial. A guerra civil foi um momento conspícuo dessa jornada assassina.

Lincoln é a figura chave na construção do Estado norte-americano. Seu legado político fez sucumbir o idealismo daqueles que apostavam na federação de fato, na “federação de reinos autônomos”.  No lugar das liberdades federativas temos a União centralizadora e determinadora das formas jurídicas e políticas do existir.  No momento, a grande ameaça é o Estado mundial, desejado por muita gente, inclusive por Obama, mas não se sabe muito bem qual o formato que terá. Os que lutam pelo Estado mundial ainda não têm a fórmula de implantação, mas seguem o caminho necessário da homogeneização dos marcos jurídicos nacionais, passo a passo, e da implantação da agenda da nova moral, anticristã. A nova moral mundial.

Sem que Lincoln tivesse obtido seu êxito o mundo teria sido bem diferente no século XX e estaria bem diferente agora. Talvez as ameaças fossem menores, mas isso é tão impossível de saber quanto se contar a história do que poderia ter sido. 

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