sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

A necessidade dos intelectuais



por Fabio Blanco | Discursos de cadeira

As mazelas da humanidade te atraem e vês tudo pelo seu lado mais sombrio. Realças as dificuldades da vida, tens uma tendência tétrica à desgraça e alimentas uma paixão doentia pela tragédia. Quem te ouve pergunta se tu não sofres de alguma enfermidade, pois o que tu dizes realça as tristezas deste mundo.

Não seria muito mais suave se enxergasses as belezas desta vida, notando os detalhes harmoniosos que nela subsiste? Ora, homem do saber, tu não sabes que serias bem mais agradável se te esforçasses para salientar o que há ainda de bondade, de amor e comunhão?

No entanto, me dizes que é impossível para ti ser assim. As desgraças te parecem evidentes demais para serem ignoradas, os problemas demasiados demais para serem esquecidos e a ignorância abundante demais para sobre ela silenciar-te.

Não te calas porque és profeta, ainda que um profeta do caos. Mesmo quando decides não mais falar sobre o terror instalado, tua alma afirma como Jeremias: "Quando pensei: não me lembrarei dele e já não falarei no seu nome, então, isso me foi no coração como fogo ardente, encerrado nos meus ossos; já desfaleço de sofrer e não posso mais".

Falar sobre essas coisas é para ti necessidade. Não que tenhas prazer nestes males, não que te delicies na maldade, mas é que se não te expressares sobre isso tua alma chorará amargurada. Tuas críticas são como um grito de libertação, como uma tentativa de colocar a ti mesmo acima dessa dificuldades que também te cercam.

Quando enfatizas as mazelas, o que fazes é expulsar teus próprios demônios. Como os carnavais medievais, que serviam como uma válvula de escape para uma sociedade socialmente estática, desfilar tuas palavras, apresentando a todos as máscaras de um mundo decaído, é para ti um forma de aliviar a pressão que te sufoca todo dia.

No entanto, saibas que jamais serás querido pelos homens, não terás os louvores da multidão, sequer o reconhecimento dos teus. Tua missão se dá na solidão, teu trabalho é forjado na incompreensão e teu destino é ser um incômodo para os outros.

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