terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O grande salto no abismo



Dois novos livros, um sobre a sovietização do Leste Europeu e outro sobre a Grande Fome na China, mostram como os sistemas totalitários erram em suas políticas e, em vez de corrigi-las, reagem com medidas ainda mais brutais. Foi o fascista italiano Benedito Mussolini que na, segunda década do século passado, cunhou o termo totalitário. “Tudo dentro do Estado. Nada contra o estado. Nada fora do Estado”, dominante devia permear todas as esferas da sociedade rurais a atividades culturais e esportivas. O espaço para a liberdade individual seria nulo. A II Guerra terminou como a derrota do fascismo e do nazismo alemão, mas outras tentativas de criar regimes totalitárias se seguiram. Em 1944, quando o conflito mundial ainda não havia se encarado, os soviéticos  implementaram nos países do Leste Europeu policias secretas comunistas, criadas à semelhança do NKVD, à organização antecedeu a KGB. Seus agentes  torturavam e matavam civis suspeitos de apoiar o nazismo ou aqueles que, por um motivo qualquer, poderiam se tomar inimigos no futuro. Outro tour de force totalitário ocorreu na China comunista de Mao Tsé-tung, na década seguinte. Como consequência do projeto de industrialização forçada do Grande Salto à Frente, de 1958. As propriedades rurais foram coletivizadas e a produção, confiscada pelo governo. Estima-se que, no processo, 36 milhões de pessoas tenham morrido de fome e 40 milhões de bebês deixado de nascer por causa da desnutrição ou de doenças gestacionais. Esses fatos históricos foram narrados com brilhantismo em duas obras recém-lançadas nos Estados Unidos, mas ainda sem previsão de publicação no Brasil:Iron Curtain: The Crushing of Eastern Europe, 1944-1956  (“Cortina de Ferro, a Aniquilação do Leste Europeu”), da americana Anne Applebaum, e Tomhstone – The Great Chinese Famine, 1958-1962 (“Lápide, A Grande Fome Chinesa”), do chinês Yang Jísheng. Ambas relatam em detalhes as táticas usadas na imposição do totalitarismo e suas conseqüências devastadoras e duradouras. Ex-membro do Partido Comunista, ti Yang estudou arquivos confidenciais do regime chinês, aos quais teve acesso com o pretexto de analisar estatísticas e agrárias. Também entrevistou vítimas da inanição e torturadores da época. A tragédia se originou em 1958. Por decisão de Mao Tsé-tung, de uma hora para a outra toda a população rural teve de se incorporar às comunas populares, enormes fazendas controladas pelo governo. A produção agrícola passou a ser integralmente confiscada para cumprir as metas estabelecidas em Pequim. Contudo, os grãos apodreciam nos armazéns. Para desestimular a iniciativa privada, a vida familiar foi eliminada. Facas, panelas, enxadas e arados foram derretidos para produzir metais e os camponeses, sem ter como cozinhar, foram obrigados comer em refeitórios coletivos.


A venda de alimentos foi proibida. Comer sozinho tornou-se um crime. Quem o fizesse poderia ser espancado até a morte. Mulheres começaram a se prostituir para conseguir alimentos. Para obterem algumas migalhas a mais, muitos chineses diziam nas comunas que precisavam levar para casa comida a parentes doentes que, na realidade, já estavam mortos. O canibalismo tornou-se corriqueiro e túmulos eram violados para que os cadáveres recém-enterrados servissem de alimento. Em 1959, alguns oficiais do partido alertaram Mao sobre o desastre em curso. Sua resposta foi que o modelo deveria ser aprofundado. “A razão básica para que dezenas de milhões morressem de fome foi o totalitarismo”, escreve Yang. Segundo o autor, esse sistema facilita o desenvolvimento de políticas públicas míopes e impede a sua correção, pois a hierarquia do governo é intransponível. O fato de ele ter sido um instrumento para a implantação de uma utopia comunista apenas agravou a situação. ”Quando o governo monopoliza toda a produção e os recursos de subsistência, os cidadãos comuns não têm como se salvar de eventuais calamidades”, escreve Yang, que viu o próprio pai sucumbir à Grande Fome. A incapacidade de corrigir erros grosseiros, embora com resultados menos letais, também marcou o .processo de sovíetízação dos países do Leste Europeu. Com a derrota do Eixo na Guerra, os países libertados do nazismo pelo Exército Vermelho foram engolidos pela União Soviética e obrigados a imitar suas políticas econômicas. Na Alemã Oriental, burocratas do Partido Comunista visitaram várias fábricas em 1950 e descobriram que, nas empresas privadas, a produtividade e o salário eram maiores do que nas firmas estatizadas. Foi uma revelação decepcionante (do ponto de vista deles, claro). Para piorar, os empresários eram benquistos entre os funcionários, que se diziam satisfeitos com o trabalho. “A questão da luta de classes quase não é discutida”, relatou um comunista. Um funcionário teve a ousadia de dizer que o proprietário da fábrica não era um explorador, mas um empreendedor. Antes que esses fatos caíssem na boca do povo, os comunistas trataram de esmagar todas as companhias privadas do país. Os impostos foram aumentados, o aluguel de salas e galpões para empreendedores foi proibido e as licenças de operação para atacadistas, reduzidas. Tanto na China quanto no Leste Europeu, a cólera estatal aumentou. À medida que os burocratas deparavam com a impossibilidade de transformar suas utopias em realidade. Como o sistema que eles defendiam não funcionava na prática, tratavam de botar a culpa em inimigos imaginários. Com isso, tentava-se convencer os demais cidadãos de que o problema não estava nas ideias comunistas, mas naqueles que,  resistiam ao projeto totalitário. Em 1959, Peng Dehuai, um dos militares responsáveis pela ascensão do Partido Comunista na China, escreveu críticas a Mao em uma carta. Peng foi demitido e expurgado em uma campanha difamatória. Mao também criou os “planos de prisão”, em que estabeleceu cotas de detenções para a polícia em cada província. Todos os que falassem contra o Grande Salto à Frente ou contra o regime deveriam ir para as celas. Em 1950, na província de Anhui, a ordem era prender 45.000 pessoas. Os dedicados policiais cumpriram com folga a meta, e fizeram 101.000 prisioneiros

Veja

Nenhum comentário: