terça-feira, 18 de setembro de 2012

Salman Rushdie e a intolerância satânica (e maquiavélica)


por Caio Blinder | Veja


Já vimos este este filme. Agora é a vez da entrada em cena do xeque Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, o grupo xiita, extremista, terrorista, compactuado com o Irã, aliado do regime sírio e integrante o governo libanês. Nasrallah pediu uma semana de protestos contra o vídeo produzido nos EUA que insulta o profeta Maomé e que gerou manifestações antiocidentais em várias partes do mundo islâmico (e até fora dele). Nasrallah, que raramente aparece em público, disse que se trata de um insulto “sem precedentes”, pior que o romance Os Versos Satânicos, de Salman Rushdie, publicado em 1988, ou as caricaturas do profeta Maomé, publicadas na Dinamarca em 2005.

A queima do livro de Rushdie na Grã-Bretanha (na Grã-Bretanha!)

Neste filme, eu prefiro a narrativa de Salman Rushdie, o muçulmano indiano que com a publicação de sua blasfêmia foi alvo de uma fatwa do regime xiita iraniano em 1989. Estes protestos agora no mundo islâmico coincidem com a publicação das memórias de Rushdie. O nome é Joseph Anton, o pseudônimo que ele adotou por 13 anos como parte do seu esforço para se proteger do estado terrorista iraniano.

Para Nasrallah, um vídeo vagabundo como este produzido por provocadores nos EUA insulta mais do que a destruição de mesquitas pela artilharia do regime sírio ou as barbaridades praticadas pelo regime iraniano. Insulta mais do que a intolerância de radicais islâmicos (aí seria um caso de autoincriminação).

A celeuma hoje em torno deste filmeco e a que foi gerada pelo livro de Rushdie se inserem no conflito entre o iluminismo ocidental (razão, tolerância e, sim, diálogo, que muitas vezes é confundido com apaziguamento) e o radicalismo islâmico (teocrático, literal, intolerante e que muitas vezes descamba para o puro terrorismo).

Falando em iluminismo, Rushdie tem algo ilustrativo a dizer sobre o “nosso lado”.  Ao final de Joseph Anton, Rushdie reflete que não sabe se ele venceu ou não a batalha em torno dos Versos Satânicos. O autor está vivo (embora o regime iraniano também esteja), sua livre expressão não foi suprimida e o livro continua sendo impresso. Mas nas palavras de Rushdie, “o medo e as ameaças cresceram”.

Uma consequência da Primavera Árabe foi a ascensão salafista e, para o dissabor de Rushdie, liberais ocidentais se dobraram às sensibilidades das formas mais extremas do islamismo. Ele acredita que, hoje em dia, seu agente literário não conseguiria vender o manuscrito de um romance mais crítico do islamismo do que Os Versos Satânicos.

E aqui minha intervenção. Minto caso não assuma estar mais em casa com a provocação literária de Salman Rushdie do que com o filmeco vagabundo agora produzido. Infelizmente, na essência não há diferença em termos de liberdade de expressão. Digo infelizmente, pois a diatribe intelectual de Rushdie foi legítima (uma religião pode ter os seus Luteros, os seus apóstatas, os seus enfants terribles), enquanto o filmeco tem o propósito de jogar mais lenha na  fogueira, num espetáculo primata de islamofobia. Nada contra provocar o islamismo ou qualquer religião. Mas é com este vídeo que se vai  ao debate?

Como lidar politicamente com o desafio? As memórias de Rushdie refrescam a nossa memória sobre viver sob o decreto de morte do aiatolá Khomeini. Mas ele vai além. Rushdie explica o jogo político. Não podemos nos concentrar exclusivamente na indignação muçulmana contra sua blasfêmia (algo que o iluminismo incorporou à civilização ocidental). Havia a jogada dos líderes teocráticos iranianos para manter acesa a chama da revolução depois do desastre da guerra contra o Iraque e o empenho para fortalecer Teerã na luta pelo poder no mundo islâmico contra o reino saudita. Rushdie foi um pretexto para vitaminar uma teocracia terrorista que amargava sérios problemas.

Nas celeumas de agora, os salafistas (islamistas ainda mais radicais do que grupos como a Irmandade Muçulmana) e gente ainda mais fanática como a rede Al-Qaeda querem ganhar pontos na luta pelos corações, mentes e espaço político entre as massas nestas turbulências que marcam a Primavera Árabe. E figuras como o xiita Nasrallah querem desviar a atenção do seu pacto com regimes como os do Irã e da Síria, acossados pela maioria sunita no Oriente Médio, e focalizarem nos suspeitos habituais, como os EUA e Israel.

É o mesmo tipo de manipulação empreendida pelo regime terrorista de Teerã. Foi assim em 1989 com o aiatolá Khomeini. É assim em 2012 com o aiatolá Khamenei.

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