sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Igreja Católica ataca Universal e chefe da campanha de Russomanno



Em nota, Arquidiocese de São Paulo insinua que eleição do candidato ameaça a democracia

Texto é uma resposta a artigo publicado, em 2011, pelo pastor que hoje coordena a chapa de Russomanno

Daniela Lima| Folha de S. Paulo

A três semanas da eleição, a Igreja Católica fez ontem um duro ataque à campanha de Celso Russomanno e à Igreja Universal do Reino de Deus insinuando que eventual vitória do candidato do PRB representa uma ameaça à democracia.

Russomanno lidera as pesquisas de intenção de voto para prefeito de São Paulo e tem o apoio da Universal, que é ligada ao PRB.

Em nota, a Arquidiocese de São Paulo ressalta o vínculo do candidato com a igreja neopentecostal, que acusa de incitar a intolerância religiosa, e expõe preocupação com sua possível eleição.

"Se já fomentam discórdia, ataques e ofensas sem o poder, o que esperar se o conquistarem pelo voto? É para pensar", diz a nota assinada pela arquidiocese, que é comandada pelo cardeal dom Odilo Scherer, arcebispo metropolitano de São Paulo.

A nota acusa o bispo da Universal Marcos Pereira, que é presidente do PRB e chefia a campanha de Russomanno, de disseminar posições "ridículas, confusas e desrespeitosas" sobre os católicos.

Ela é uma resposta a texto que Pereira publicou em maio de 2011 em seu blog e que voltou a circular recentemente nas redes sociais.

No artigo, o presidente do PRB vincula a Igreja Católica à proposta de distribuição do chamado "kit gay".

Idealizado na gestão de Fernando Haddad (PT) -hoje também candidato a prefeito de São Paulo- no Ministério da Educação, o tema despertou reações negativas de evangélicos, o que levou a a presidente Dilma Rousseff a determinar sua suspensão.

O "kit gay" tinha o objetivo de combater a homofobia nas salas de aula com vídeos e material didático.

O texto de Pereira tem sido vinculado, nas redes sociais, à campanha de Russomanno. A arquidiocese disse que só agora conheceu o seu teor.

"Estamos vivendo a política da catequização da Igreja de Roma. (...) Dias de absurdos e depravações. Dias em que filhos e netos chegam à escola e recebem 'kits' distribuídos pelos próprios professores lhes ensinando como serem gays ou como optarem por serem gays", diz Pereira no artigo. de 2011

"Precisamos salvar o Brasil e torná-lo um país verdadeiramente laico, completamente livre da influência da religião", conclui o bispo.

A arquidiocese classificou o texto de Pereira como "destempero". "Atribuir o malfadado 'kit gay' e os males da educação no Brasil à Igreja Católica não faz sentido e cheira a intolerância."

PERFIL FALSO

Procurado, Pereira disse que o texto foi escrito em "outro contexto" e que, hoje, é letra morta. "Esse texto não diz nada sobre o momento atual, e a mim não interessa ressuscitá-lo", afirmou.

"Criaram um perfil falso e começaram a divulgar no Twitter. A quem interessa trazer isso de volta agora?", questionou. A assessoria de Russomanno disse que ele não comentaria.

Esse não é o primeiro embate entre a Igreja Católica e a Universal. O episódio mais rumoroso ocorreu em 1995.

No feriado de Nossa Senhora Aparecida, o bispo Sérgio Von Helde, da igreja evangélica, chutou uma imagem da santa em um programa da Universal transmitido ao vivo pela TV Record.

A emissora pertence ao bispo Edir Macedo, líder da denominação -que também já atacou a Igreja Católica em diversas ocasiões.

Colaborou DIÓGENES CAMPANHA, de São Paulo



Engajamento religioso não alavanca candidatos em SP


Religião tem papel relevante na eleição? De acordo com o último artigo do sociólogo Flávio Pierucci, um dos maiores especialistas do tema, não.

Depois de analisar a "intromissão da religião" na eleição presidencial de 2010, Pierucci (morto em junho) concluiu que uma campanha "recheada de moralismo repressivo misturado com exibicionismo devoto pode dar em efeito fariseu": rejeição dos eleitores aos que fazem publicidade de sua própria religiosidade.

Os dados do Datafolha em São Paulo parecem combinar com sua tese. Até agora, o engajamento de líderes evangélicos nas campanhas de Celso Russomanno (PRB) e José Serra (PSDB) não tem surtido benefícios evidentes aos dois.

Pelo instituto, quem cresce de forma constante junto aos evangélicos desde março é Fernando Haddad (PT), o único dos três que não tem apoio explícito de pastores.

Em março, Haddad tinha 4% das intenções de voto entre os pentecostais. Saltou para 13% em agosto e, na última pesquisa, 15%.Entre os não-pentecostais, foi ainda melhor. Atingiu 22%.

Filiado à sigla controlada pela Igreja Universal, Russomanno desmoronou 17 pontos entre os não-pentecostais na última rodada, sua maior variação em todos os segmentos. Entre os pentecostais, oscilou três pontos para baixo.

Já Serra, em frequentes visitas a cultos, caiu 12 pontos entre os pentecostais desde março. E apesar de ter subido de 14% para 24% entre os não-pentecostais na última rodada, está 10 pontos abaixo do que já esteve nesse grupo.

Serra é apoiado pelo maior ramo da Assembleia de Deus, por igrejas menores, e foi abençoado pelo líder da Igreja Mundial. Ainda assim, tem a maior rejeição entre os evangélicos: 50% entre pentecostais, 47% entre não-pentecostais.

(Ricardo Mendonça)


Igrejas não têm votos para garantir a vitória, mas ameaçam os candidatos

Reginaldo Prandi

Eleição e religião não se dão bem em ambiente democrático. No passado, a religião interferia em todos os aspectos da vida em sociedade. Com a modernidade, as diferentes esferas da cultura ganharam autonomia, e a religião perdeu influência e poder.

A religião ficou pequena, restrita a interferir apenas na vida íntima das pessoas, agarrou-se a temas da moralidade individual. Não é pouco, mas ela quer mais: voltar a ter maior influência. E faz o que sabe: usa o moralismo para intervir na política.

Os evangélicos são o ramo religioso mais envolvido na política brasileira. Elegem representantes, criam partidos e não hesitam em usar as eleições para pressionar, ameaçar e chantagear políticos, partidos e governos temerosos de perder aliados e votos.

Já mostraram ter força: têm 15% dos deputados federais. E se apropriam dos votos dos fiéis para uso das igrejas. Isso não ocorre em denominações modernas em que os fiéis têm autonomia de escolha. Nas mais retrógradas, porém, os fiéis são mantidos como cidadãos menores, e seus líderes escolhem por eles.

Em eleições majoritárias, essas igrejas não têm votos suficientes para eleger candidatos próprios. No fazer das alianças, se esforçam em vender a imagem de que são capazes de decidir uma eleição.

Candidatos sem vínculo com a religião aceitam o jogo, beijam a mão do bispo, saem em peregrinação por templos que desconhecem, renegam projetos que possam ofender os aliados religiosos da hora.

Nunca houve, contudo, comprovação de que um candidato tenha ganhado ou perdido uma eleição majoritária por apoio ou veto de igrejas.

Nesta campanha não faltam candidatos batendo à porta de igrejas em busca de bênçãos que não combinam com suas posições nem com valores republicanos.

Ninguém quer correr riscos. Sobretudo quando o campeão de intenção de voto do momento, Celso Russomanno, é de um partido controlado por uma igreja neopentecostal.

Mas os votos da igreja que lhe dá sustentação são insuficientes. Ele precisa de votos dos não evangélicos. A encenação é dupla: ser da igreja para os de dentro, para não perder os votos da casa, e não ser da igreja para os de fora, para ter o voto dos demais.

REGINALDO PRANDI é professor da USP

NA INTERNET
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folha.com/no1153170



VIVIAN WHITEMAN
Os políticos e as 'roupas de missa'
Sacerdote popstar recebe candidatos

UMA IMAGEM de campanha bem-sucedida se apoia sobretudo na harmonia entre cenário e figurino. Nas últimas semanas, candidatos à Prefeitura de São Paulo fizeram o mesmo programa -foram assistir às missas do padre Marcelo Rossi.

O cenário, uma igreja católica, tem seus códigos de vestimenta. Interessante começar com o figurino do anfitrião -não Deus em si, mas o anfitrião humano, neste caso, o padre-, que oscilou entre uma e outra extravagância, na tendência Vaticano.

Para receber José Serra (PSDB), padre Marcelo optou por uma veste branca com capa preta. No peito, uma cruz de malta (símbolo cristão usado na primeira Cruzada) estilizada.

Já Serra lançou mão da camisa social azul -o pretinho básico de qualquer político- e de uma jaqueta casual, estilo pai de família. Por baixo do colarinho, a ponta de uma camiseta branca, sinal de recato, como um vovô.

Já na vez de Gabriel Chalita (PMDB), o padre escolheu uma capa verde.

A decoração é um Jesus carnavalesco, tirando um dos pés do chão e emanando cores. Chalita segue seu uniforme despojado, com jeans, camisa branca e cinto. Combinação funcional que passa uma certa imagem de humildade.

Quando recebeu Celso Russomanno (PRB), o padre inverteu a lógica.

Botou uma veste preta e uma capa acetinada branca, com uma imagem de Jesus típica dos quadros populares. Russomanno foi o mais arrumadinho, o que mais se esforçou para fazer jus à expressão "roupa de missa": usou camisa social e paletó.

Na vez de Fernando Haddad (PT), padre Marcelo faltou e deixou no ar a curiosidade sobre o look que escolheria.

Estava com o dente quebrado, culpa de uma torrada (talvez diet, o padre anda bochechudo), e foi atrás de um implante imediatamente. Um sorriso furado, afinal, estraga mesmo qualquer foto.



Um comentário:

Anônimo disse...

Bem que o título da reportagem poderia ser o contrário. Quem afinal é o acusador aqui?

A Santa Madre Igreja Católica é quem foi ultrajada por uma "igreja" que mente até no nome de sua denominação. Ela é sim Universal, mas do pai da mentira.
O destino dela e de seus fundadores já está selado.