sexta-feira, 15 de junho de 2012

A principal dificuldade na Democracia é a natureza humana


Entrevista Luiz Felipe Pondé

Felipe Pondé é escritor e ensaista, doutor pela USP, professor da PUC-SP e da Faap e colunista do jornal Folha de S. Paulo. Em entrevista exclusiva, o intectual aborda, dentre outros, temas como ativismo de minorias, supremacia de teses socialistas no mundo cultural e religiosidade.

por Maria Júlia Ferraz. | MídiaaMais

M@M - O senhor acha que hoje vivemos algo parecido a uma “tirania das minorias”, onde uma série de grupos minoritários brigam por “direitos especiais” acima das pessoas comuns? Por exemplo, os ciclistas em São Paulo, que reivindicam o tempo todo mas parecem não ser capazes de respeitar sinais de trânsito como os carros e pedestres comuns? Se a bandeira política de outros tempos era “igualdade”, hoje é “privilégio”?

LP - De certa forma sim; mas acho que isso é resultado de uma sociedade excessivamente cheia de gente e de interesses; tem que fazer engenharias de acomodação de interesses sociais o tempo todo; o que julgo pior nisso, é que casos como o dos ciclistas - acho ótimo quem pode ir trabalhar de bike, nada contra e acho que deve haver uma regulamentação para isso - são comumentemente acompanhados de um senso de superioridade moral do tipo “ando de bike, estou salvanado o mundo, por isso sou melhor que você”. Isso é muito comum hoje em dia. Mas, de certa forma, sempre foi assim, quem acha que faz o bem, se acha superior.

M@M - Há uma noção moderna, e disseminada especialmente pelo cinema e pela literatura, de que a “repressão” (especialmente a de natureza sexual) é a responsável por boa parte dos males humanos e suas infelicidades. O senhor acha que tal noção é verdadeira? A chamada “Revolução Sexual” foi realmente “libertadora”?

LP - Sem repressão não há tesão. O pecado é um afrodisíaco; a revolução sexual foi um fenômeno da classe média americana junto com a pílula. Há algo de verdadeiro nela, principalmente em termos de marketing de comportamento e de vestuário. Mas não acho que ela implica em mais sexo ou em melhor qualidade de sexo; acho que há 100 anos se fazia mais sexo que hoje.

M@M - Após o fim do regime militar, percebemos a predominância praticamente absoluta do pensamento de esquerda, marxista, no meio universitário, na imprensa, entre os artistas e “formadores de opinião”, etc., uma tendência que acaba se refletindo também no campo político-partidário. O senhor acha possível que uma verdadeira “democracia” conviva com tal ausência de debate ideológico? Como combater ou diminuir os efeitos do “pensamento único”, especialmente quando pensamos no ambiente acadêmico, todo regido por grades curriculares, regimentos, ementas e portarias?

LP - Primeiro dando aos alunos a chance de lerem mais autores que não os marxistas. A democracia vive bem sem debate ideológico, mas hoje ela é um regime de massa e de espetáculos ideológicos e não discussão. Acho que a principal dificuldade na Democracia é a natureza humana que não se resolve politicamente: somos medrosos, ressentidos, vaidosos... a generosidade e a coragem não se ensinam politicamente; necessitamos de mais diálogo moral e não só político.

M@M - Hoje em dia, o movimento feminista parece confundir-se com outros movimentos mais predominantes na esquerda, tais como a defesa do aborto, a luta contra o “imperialismo”, contra Israel, contra o embargo a Cuba, etc.? Não é irônico (ou trágico, enfim) que uma feminista empunhe bandeiras contra a presença de americanos no Oriente Médio, ou que fique ao lado dos palestinos contra Israel, sabendo-se que as mulheres têm infinitamente mais direitos nos EUA e em Israel do que em qualquer país muçulmano?

LP - Claro e é ridículo! Mas isso é fruto da natureza fundamentalista do movimento
feminista. Sua radicalidade religioso-fanática faz isso com ele. Esquecem as mulheres e embarcam em projetos utópicos monstruosos como qualquer fanático religioso...

M@M - O senhor acredita em Deus? O senhor acha possível compatibilizar a crença no Deus bíblico com a prática científica e com o ambiente acadêmico? E como o senhor vê a “substituição”, de certa forma proposta pela modernidade e que hoje resultou em fenômenos muito perceptíveis em nossa sociedade, como quando os jovens (e mesmo muitos adultos) trocam o culto a Deus por outros cultos (a celebridades, bandas de música, astros de cinema, ou mesmo a Che Guevara)?
LP - Chesterton dizia que o problema em parar de acreditar em Deus é que começamos a acreditar em qualquer coisa em seu lugar, como as que você citou. A ciência não tem nada a dizer sobre Deus porque Deus não é uma variável sob controle epistemológico. Não dá para testar Deus em um laboratório, mas há uma tendência de alguns cientistas de ficarem ateus por conta do ônus da prova da existência de Deus; de Deus ser dos crentes. Outro argumento contra a existência de Deus é o chamado ARGUMENTO DO MAL: se Deus é bom e o mundo é mal, há algo de errado na premissa. Quanto a mim, acho o ateísmo mais provável como hipótese filosófica. Não sou religioso, não acho que a vida tenha algum grande sentido, mas acho o conceito de Deus bíblico elegante e fascinante.


M@M - Em relação à Igreja Católica, como o senhor vê o fenômeno da Teologia da Libertação?

LP - Vejo como uma resposta à miséria latino-americana, um modo de ler o carisma profético do cristianismo usando a hermenêutica marxista, um fato do contexto histórico dos anos 60 e 70. Mas acho uma lástima em termos intelectuais e teológicos porque reduziu a teologia à pastoral sindical, político-partidária e a modas da esquerda mundial, do tipo teologia feminista, teologia gay, teologia verde; isso não significa que não devemos dar atenção a esses temas, o que critico é a tendência, as obssessões da teologia ao se tornar uma vassala do marxismo atenuado que ela usa.

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