domingo, 10 de junho de 2012

Covardia é o pior dos vícios, diz Pondé


Fabio Andrighetto da Livraria da Folha


Vista como única ou dividida em quatro cardeais --justiça, temperança, coragem e prudência--, na antiguidade, os estoicos argumentavam que a virtude era o bem supremo. A ideia contrariava outras escolas da mesma época, estas defendiam que a felicidade era o sumo bem. O estoicismo condenava comportamentos opostos, ou os vícios, como a covardia. Aqui, Luiz Felipe Pondé concorda com a ética estoica, e é difícil vê-lo concordar com alguma coisa.


Quem acompanha os textos de Pondé percebe o seu descontentamento com os covardes. É um assunto recorrente. Pode ser visto em "Contra um Mundo Melhor", "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia" e no posfácio de "Diário da Corte".


No "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia", o autor e colunista da Folha inicia o processo de escalada do politicamente correto com a história do general Patton e o soldado covarde, encontro imortalizado no filme "Patton: Rebelde ou Herói?".


Em entrevista à Livraria da Folha, Pondé, que se prepara para lançar "Por Que Virei à Direita", escrito em parceria com Denis Rosenfield e João Pereira Coutinho, falou sobre as vicissitudes humanas, a indústria dos transtornos psicológicos e o niilismo chique.


*
Livraria da Folha - Como um estoico, você costuma criticar a covardia. Seria ela a pior das vicissitudes?


Luiz Felipe Pondé - Acho que sim, sempre se soube disso.


Intelectuais explicam a sua adesão ao pensamento conservador


No século 21, os estoicos seriam considerados politicamente incorretos?


Com certeza, quase toda a filosofia seria. Os estoicos seriam também, seriam vistos como depressivos, resignados e "antifelicidade".


Um governo nos moldes de "A República", de Platão, seria mais eficiente que a democracia de hoje?


Não, não sou contra a democracia, acho-a o menos pior dos sistemas, mas acho que as críticas à vocação sofista da democracia, que na Grécia já se sabia, é um fato. O que acho risível é o culto da ideia que tudo pode ser democrático, até o Corinthians, isso é um modo, como na educação, de se esquivar da autoridade.


Você inicia a escalada do politicamente correto com o exemplo do general Patton e do soldado com problemas nervosos. Esse também é o começo da indústria dos transtornos psicológicos?


Interessante questão. Recomendo a leitura do " Therapy Culture", de Frank Furedi. Acho que a indústria da terapia é mais tardia. Como mostra Furedi em seus estudos empíricos, é a partir da década de 1990 que, pelo menos na mídia impressa em língua inglesa, termos típicos dessa indústria da terapia, como estresse, autoestima, etc. começam a aparecer em alta frequência estatística, revelando o grau de "terapeutismo" de nossa cultura, mas isso nada tem de contra as terapias em si.


A psicologia está se mesclando com a autoajuda? Como você analisa essa relação?


Sim, mercantilizarão de produtos baratos, assim como comer miojo sozinho em casa no lugar de comida.


Em outra conversa, você criticou o que nomeou de "budismo de boutique". Esse comportamento religioso seria um reflexo de uma crise no cristianismo? Se sim, como explicar o crescimento das religiões pentecostais no Brasil?


Não crise do cristianismo em si, mas dos modelos mais tradicionais. O neopentecostalismo brasileiro é um híbrido de umbanda com cristianismo.


Também existe um niilismo de boutique?


Sim, niilismo chique é o que não falta... sempre foi chique ser melancólico.



Título: Por Que Virei à Direita
Autor: Denis Rosenfield, João Pereira Coutinho, Luiz Felipe Pondé 
Editora: Três Estrelas
Edição: 1
Ano: 2012
Idioma: Português
Especificações: Brochura | 112 páginas
ISBN: 978-85-6533-905-6




Em "Por que Virei à Direita", três intelectuais explicam os motivos de sua adesão ao pensamento conservador.


Articulistas polêmicos da imprensa, o jornalista João Pereira Coutinho, o filósofo Luiz Felipe Pondé e o analista político Denis Rosenfield expõem em detalhes as razões que os levaram a recusar os princípios políticos da esquerda. Seus textos são marcados pela liberdade intelectual e coragem de arrancar o debate político da frouxidão em que está imerso.


Coutinho discute os riscos das utopias propagadas pelas esquerdas: "Não é função de um governo conduzir uma comunidade rumo a um fim de perfeição. Não apenas porque os homens são incapazes de o atingir, mas porque esse fim é, conceitualmente, inatingível".


Para Pondé, o pensamento progressista tem uma falha essencial: ignora aquilo que é próprio ao ser humano: "A esquerda é abstrata e mau-caráter porque nega a realidade histórica humana a fim de construir seu domínio sobre o mundo".


Rosenfield analisa a "te-leologia da esquerda", que vê o Estado como encarnação máxima da moral. Faz ainda dura crítica à democracia participativa implementada pelo PT, para ele uma armadilha autoritária e "liberticida".


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