terça-feira, 15 de maio de 2012

O Facebook islâmico



Por Sergio da Motta e Albuquerque | Observatório da Imprensa

Vem aí a rede social muçulmana que pretende ser uma alternativa ao Facebook e abocanhar em três anos cerca de 50 milhões de usuários em diversos países, em diferentes partes do mundo islâmico. Claramente inspirado (o layout e o projeto genérico de rede) na gigante americana, o lançamento da Salamworld está previsto para o feriado do Ramadã deste ano – que, de acordo com o calendário lunar, não tem data fixa. Em 2012 acontecerá entre 21 de julho e 19 de agosto.

Os rumores de uma rede social muçulmana halal não são recentes (halal é a palavra árabe para tudo o que é permitido pela lei islâmica; é o equivalente árabe para a palavra kosher, dos israelenses). No ano passado, na Indonésia (um dos países a apoiar o projeto da nova rede islâmica), o Daily Social (10/10/2011) comentou a iniciativa, ainda com um pouco de ceticismo, como uma “iniciativa de empresários russos e turcos”.

Em março deste ano, o presidente e mentor da rede Salamworld), Abdulvahit Niyazov, um muçulmano russo, declarou ao Today’s Zaman, da Turquia (04/03), que Istambul é vista como a locação ideal para a sede da empresa devido à sua única posição entre Oriente e Ocidente, por sua estabilidade econômica e pela proeminência que este país vem obtendo entre os outros países muçulmanos. A cidade conta também com a vantagem de ser mais aberta ao Ocidente e ao capital internacional. Outros dois escritórios estarão localizados no Cairo e em Moscou.

Niyazov não é apenas o presidente da Salamworld. Ele é presidente do Centro Cultural Islâmico da Rússia e do Conselho russo de muftis (um mufti é um acadêmico capaz de interpretar a sharia, a lei islâmica). E pertence a uma minoria étnica aparentada aos turcos.

Tiro pode sair pela culatra



A plataforma internacional de tradução de notícias Worlcrunch publicou (30/4) tradução do artigo do jornal alemão Tages-Anzeiger sobre a nova mídia social. Uma boa reportagem, que começou por perguntar “por que os muçulmanos precisam da Salamworld?” Jawus Selim Kurt, porta-voz da rede, respondeu: “Existem 1,7 bilhão de muçulmanos no mundo. Cerca de 300 milhões usam a internet e quase a metade deles usam redes sociais. Infelizmente, nem mesmo uma dessas redes é presidida por muçulmanos. O alvo da rede são muçulmanos e não muçulmanos interessados na religião, que busquem promover a ‘paz e harmonia’ pelo fortalecimento de valores (islâmicos) morais e da comunidade islâmica, ou Umma”.

O periódico informou ainda que os investidores são russos e turcos, e que a comunicação inicialmente entre os usuários será em oito línguas: inglês, francês, persa (farsi, a língua dos iranianos), turco, árabe, malaio, urdu (aparentada ao turco) e russo. Outros idiomas serão acrescentados depois. Material considerado ofensivo às leis islâmicas será removido. Incitação ao terrorismo e violação aos direitos humanos serão igualmente proibidos.


A rede não é religiosa, garante seu presidente. Não vai haver censura. “Não somos uma mesquita”, declarou Niyazov, “e haverá, é claro, o mesmo tipo de liberdade que os outros usuários de redes sociais desfrutam.” Desnecessário dizer que nudez e pornografia estão proibidos desde já no site. O jornal alemão não pareceu muito impressionado com o projeto da rede islâmica. “É um projeto comercial, e não suporta ideias políticas”, acreditam os alemães. Veremos.


A BBC Brasil publicou um pequeno resumo sobre a Salamworld (10/5). Três parágrafos e um vídeo explicando principalmente as diferenças entre as redes ocidentais e a islâmica, assim como o comitê de censores especialistas muçulmanos, que examinará todo o material apresentado na rede. O Último Segundo reproduziu o conteúdo no mesmo dia. Apresentaram comentários, e não artigos, sobre a Salamworld.

A realidade que ficou fora da cobertura da mídia foi a enorme importância geopolítica que essa rede terá, se for bem sucedida. Sua cúpula, formada por Niyazov e seu lugar-tenente, o muçulmano Ahmed Azimov, do Daguestão é formada por russos muçulmanos abertos a ideias leigas. Mas também são homens de confiança de Vladimir Putin. Azimov é funcionário de uma organização com forte presença do Estado russo. Foi diretor do escritório de Moscou do Congresso Russo de Povos Caucasianos até 2008 e continua na organização como “presidente da filial de Moscou do Supremo Conselho e membro do Congresso” (ver aqui).


Os russos têm interesses na Ásia Central. Não querem perder a influência que herdaram do domínio comunista. A Turquia, por sua vez, quer ser a potência regional do Oriente Médio. Uma rede social que nasceu de cima para baixo, controlada por simpatizantes russos do regime opressor de Putin e empresários turcos poderá ser um excelente instrumento de controle e informação para os interesses de Moscou e para o fortalecimento das ideias seculares nos países muçulmanos.

Apesar de todo o controle previsto para a Salamworld, redes sociais são permeáveis a infiltrações e novidades inesperadas para seus planejadores. A rede poderá também arrefecer o poder das organizações terroristas, auxiliando as autoridades muçulmanas e outras com informações importantes. Mas seu comportamento será determinado por seus usuários, e não pelos padrões de seus idealizadores. O tiro pode sair pela culatra. Os chineses sabem disso. Seus clones do Twitter têm dado enorme dor de cabeça aos dirigentes do partido.

Público-alvo e equipe



Esta é a rede, segundo a informação apresentada em seu site:



** “Salmanworld é uma chance de muçulmanos ter seu próprio espaço na internet e nas redes sociais”.

** “Salmanworld é um sistema único de comunicações, a possibilitar a troca de conhecimento, habilidades, informação útil, empregos e oportunidades de negócios, para muçulmanos”.

** “Salmanworld é um instrumento para reviver, modernizar, desenvolver Umma em termos do estilo de vida (Umma é a comunidade espiritual muçulmana universal, que une os crentes apesar de todas as suas diferenças)

** “Salmanworld é uma janela de oportunidades para jovens”.

** “Salmanworld visa a preservar tradições de família buscando conteúdo seguro e inofensivo para elas.”



Sua audiência projetada deverá atingir:


** “Jovens gerações de muçulmanos e não-muçulmanos”
** “Famílias muçulmanas modernas”

** “Rede internacional de acadêmicos muçulmanos internacionais”

** “Nova geração de líderes sociais”
** “Comunidades muçulmanas em regiões islâmicas e não-islâmicas” ** “Não muçulmanos buscando informação sobre o Islã”


A equipe é composta de especialistas de 12 países. Os administradores da empresa são representativos de 17 países, informou o site da nova rede a ser lançada em breve.


Porta de entrada para o “inferno astral”

Em 2011, o presidente da Salamworld viajou pelo mundo islâmico e além, sempre buscando apoio de líderes moderados dentro e fora do Islã. Um comportamento de estadista ou lobista, e não o de promotor de uma rede social. Esta rede tem toda a cara de uma estrutura estatal de controle social, misturada a uma proposta de comércio na web controlada por Moscou e Istambul. Seu presidente e seu vice têm ligações com o Estado russo. A Salmanworld serve bem aos interesses dos dois países.



Abdulvahit Niyazov, o presidente e idealizador da rede, conversou com imãs e mulás conservadores e moderados, e líderes de países muçulmanos da Ásia (Indonésia e Malásia são dois países a receber tratamento especial), África, América e Europa. Os líderes muçulmanos acharam conveniente apoiar uma rede social própria dos muçulmanos e sujeita as suas leis. Sentiram na carne os problemas que as mídias sociais ocidentais podem trazer para regimes autoritários. Ou falsamente democráticos.

Do ponto de vista do Ocidente, o sucesso da rede é de grande interesse porque pela primeira vez milhões de perfis de muçulmanos de todas as partes do mundo estarão na web (se tudo der certo, como imaginam seus propositores). Os serviços de informação americanos devem estar a comemorar. Uma rede social islâmica na web é uma porta de entrada para o mundo proibido do Oriente Próximo e da Ásia Central, o “inferno astral” dos Estados Unidos.

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[Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor]

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