quarta-feira, 30 de maio de 2012

Em busca do rei Davi

Arqueólogo encontra relíquias que, segundo ele, comprovam a existência do personagem bíblico. Especialistas, porém, alertam para o risco de pesquisas como essa terem viés político


Paloma Oliveto | Correio Braziliense 


Candelabro de barro: resquícios de uma cultura sofisticada


Relicário de barro escavado próximo a Jerusalém: produzido há cerca de mil anos 


A existência do rei Davi, o jovem que derrotou o gigante Golias e se transformou em um dos principais personagens do judaismo, do cristianismo e do islamismo, jamais foi confirmada. Um historiador da Universidade Hebraica, em Jerusalém, contudo, acredita ter encontrado a prova de que o monarca não só existiu, como governou uma região de cultura sofisticada, com traços arquitetônicos elaborados e centrada na adoração de um único Deus, Javé.


Um dos mais renomados arqueólogos bíblicos, o israelense Yosef Garfinkel anunciou ontem que, depois de cinco anos de escavações no Vale de Elá, a cerca de 30km de Jerusalém, sua equipe encontrou ferramentas e artefatos de ferro e cerâmica em três santuários de pedra que, de acordo com ele, eram do tempo de Davi e, mais tarde, foram anexados ao Primeiro Templo de Salomão. As peças são as mais antigas já descobertas referentes aos primeiros monarcas judaicos, descritos pela Bíblia no Livro dos Reis. Além das escrituras sagradas, não há outras fontes que citem esses reis.


Segundo a tradição religiosa, Davi, que teria vivido entre 1040 a.C. e 970 a.C., queria construir um local de adoração para guardar as tábuas com os 10 mandamentos, ditados por Javé ao profeta Moisés, mas Deus não permitiu, porque ele havia se envolvido em muitas guerras. Foi permitido, contudo, que seu filho, mais tarde o rei Salomão, edificasse o santuário. Enquanto isso não ocorria, a arca da aliança, que guardava as tábuas, ficava no tabernáculo, um santuário móvel, que acompanhava os judeus durante as migrações, desde o êxodo do Egito. O livro bíblico das Crônicas diz que Davi passou a Salomão, ainda muito jovem, todos os detalhes da construção do templo definitivo. Já no livro de Reis 1, há descrições do local e, segundo Garfinkel, elas se encaixam com os objetos encontrados. O templo foi pilhado e destruído no cerco a Jerusalém pelos babilônios, em 587 a.C.


Santuário


Datados com carbono 14 na Universidade de Oxford, no Reino Unido, os objetos foram produzidos entre 1020 a.C. e 980 a.C., quando Davi teria governado a Fortaleza de Kuttamuwa, onde hoje é o sítio arqueológico. Os artefatos, segundo Garfinkel, eram usados em cultos religiosos. Trata-se de cinco blocos de pedra, dois altares de basalto, dois vasos de cerâmica e dois oratórios portáteis, um de cerâmica, com 20cm de altura, e outro de pedra, com 35cm. O relicário de argila tem uma fachada elaborada, na qual se veem dois leões (símbolo da tribo de Judá, à qual Davi teria pertencido), uma porta principal, um pano dobrado e três pássaros pousando no telhado.


O santuário de pedra é feito de calcário fino, pintado de vermelho, com o estilo de arquitetura semelhante ao dos templos gregos, como o Pathernon. No alto, há um elemento de entalhe chamado triglifo, caracterizado por sulcos que se intercalam. “Nossa descoberta tem importância mundial, pois é o mais antigo exemplo desse tipo de arquitetura”, conta Garfinkel. Segundo ele, durante muito tempo, o livro dos Reis foi entendido de maneira errada. A expressão slaot, traduzida como “pilar”, seria, na verdade, o triglifo. O tipo de porta, embutida, também é descrita na Bíblia, tanto em Reis quanto em Ezequiel. “Escavar esses objetos foi como entrar em uma cápsula do tempo”, empolga-se o especialista.


O arqueólogo garante que o estilo dos artefatos mostra que os frequentadores do tabernáculo respeitavam orientações judaicas, de proibir a reprodução de imagens humanas em objetos decorativos e esculturas. Dessa forma, não se poderia atribuir os objetos a religiões politeístas, como a dos cananeus e dos filisteus. Na Fortaleza de Kuttamuwa, há outros indícios de obediência às leis judaicas, como a de não comer porco nem oferecer esse animal em sacrifício. “Já descobrimos milhares de ossadas de outros animais, como ovelhas, cabras e bois, mas jamais encontramos ossos de porcos”, diz Garfinkel, cujas descobertas foram publicadas no livro Footsteps of king David in the Valley of Elah (Pegadas do rei Davi no Vale de Elá, em tradução livre), lançado ontem em Jerusalém.


Para o arqueólogo, as descobertas fornecem evidências fortes que contradizem os acadêmicos para quem Davi não existiu ou apenas liderou uma tribo pouco significativa. “Essa é a primeira vez que arqueólogos descobrem uma cidade fortificada de Judá, datando do tempo do rei Davi. Mesmo em Jerusalém não temos uma cidade fortificada desse período. E a riqueza decorativa e arquitetônica mostra que era um local culturalmente avançado, então, o argumento de que ele era uma figura mitológica ou líder de uma pequena tribo pode estar errado”, diz.


Política
Historiador e arqueólogo com ênfase em judaísmo helenístico e paleocristianismo, o professor do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) André Chevitarese faz ressalvas às descobertas de Yosef Garfinkel. Ele conta que o ramo da arqueologia bíblica teve início no século 19, tendo como proposta “materializar aquilo que não pode ser explicado”. “Em um mundo cada vez mais laico, em que o ‘deus ciência’ se instaura no Ocidente, as experiências religiosas foram objeto de intensas críticas. A arqueologia bíblica surge como o lugar da materialidade, da prova da experiência de fé, tanto no judaismo quanto no cristianismo”, afirma.


De acordo com Chevitarese, autor de diversas publicações na área, no caso do judaísmo, há um outro componente que precisa ser considerado: a luta dos judeus pela criação do Estado de Israel. “A ideia é mostrar que toda aquela terra onde hoje está Israel é, e sempre foi, judaica. As escavações, então, ganham uma dimensão política”, afirma. O especialista, porém, faz questão de destacar que é favorável ao Estado de Israel exatamente onde ele está situado. Ele acredita, porém, que os achados arqueológicos não podem ser dissociados desse contexto político e social.


“Eu acho que as pessoas têm de aprender a ler a Bíblia. Há questões que podem ser interpretadas do ponto de vista histórico e outras, não. Alguns acadêmicos falam sobre questões políticas associadas à arqueologia bíblica, mas nós estamos descrevendo objetos que foram escavados em um sítio arqueológico e datados pela Universidade de Oxford”, rebate Yosef Garfinkel. Ainda assim, Chevitarese alerta que, ao se alegar a existência real de monarcas como Saul, Davi e Salomão, por exemplo, vinculando esses importantes personagens bíblicos a uma experiência monoteísta, o risco é interpretar que determinada religião é a “eleita”, em detrimento das outras. Ele lembra que a própria Bíblia cita muito mais o deus Baal no Antigo Testamento que Javé, um indicativo de que a entidade adorada pelos cananeus era bem mais popular que o Deus judaico e cristão.


Para o professor da UFRJ, é provável que, ao mesmo tempo em que adorassem Javé, os moradores da Fortaleza de Kuttamuwa prestassem homenagem a outros deuses, já que o monoteísmo como entendido hoje só foi estabelecido depois das guerras dos macabeus, dois séculos antes de Cristo. Ele faz uma comparação com os tempos atuais, quando um católico, por exemplo, pode se sentir à vontade em um templo budista sem, contudo, deixar de ser católico por causa disso. “Não existe um só judaísmo, um só cristianismo nem um só islamismo”, afirma.


“Eu acho que as pessoas têm de aprender a ler a Bíblia. Há questões que podem ser interpretadas do ponto de vista histórico e outras, não”
Yosef Garfinkel, arqueólogo autor da pesquisa





CAVERNA CHAUVET
Pinturas têm mais de 21 mil anos


O estilo rebuscado faz especialistas duvidarem da idade dos desenhos


Especialistas discutem há tempos se os sofisticados desenhos de animais da famosa Caverna Chauvet, na França, são, de fato, os mais antigos exemplos de arte do tipo já encontrados no mundo. Agora, um novo estudo, publicado na edição desta semana do periódico norte-americano Proceedings of the National Academy of Sciences, sugere que sim.


As curvas suaves e os detalhes finos das pinturas de ursos, rinocerontes e cavalos da caverna, na pitoresca região de Ardeche, são tão avançados que alguns acadêmicos os datavam entre 12 mil e 17 mil anos atrás. Isso os situaria como relíquias da cultura Magdaleniana, na qual os ancestrais humanos usaram ferramentas de pedra e ossos para criar uma arte impressionantemente avançada. No entanto, alguns estudos realizados por meio da datação por radiocarbono indicaram que os desenhos eram mais antigos, com cerca de 30 mil ou 32 mil anos.


Na pesquisa publicada esta semana, cientistas franceses acreditam ter conseguido a confirmação de que as pinturas são “as mais antigas e mais elaboradas já encontradas”. As descobertas se basearam em um método de análise chamado datação geomorfológica e cloro 36, feito nas superfícies das rochas em torno do que se acredita ser a única entrada da caverna.


Fechada


A investigação concluiu que um despenhadeiro começou a ruir 29 mil anos atrás e voltou a sofrer desmoronamentos ao longo do tempo, selando a entrada da caverna para os humanos cerca de 21 mil anos atrás, até ser descoberta em 1994. Isso significa que as pinturas tiveram de ser feitas antes disso, o que sustenta a ideia de terem sido criadas por pessoas da cultura Aurignaciana, entre 28 mil e 40 mil anos atrás.


“Concordando de forma notável com as datações de radiocarbono da ocupação humana e animal, esse estudo confirma que as pinturas na Caverna Chauvet são as mais antigas e mais elaboradas já descobertas, desafiando nosso conhecimento atual sobre a evolução cognitiva humana”, destaca o estudo. Segundo o principal autor da pesquisa, Benjamin Sadier, as descobertas põem fim a qualquer debate sobre quando os desenhos podem ter sido feitos com base em seu estilo. “O que nosso trabalho e outro trabalho que será publicado em breve demonstram é que o método de datação por estilo não é mais válido”, explicou à agência France-Presse.

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