quinta-feira, 5 de abril de 2012

Saudades de Saddam e do Taleban

Marcos Guterman | O Estado de S. Paulo

Duas reportagens do Washington Post mostram como é grande a distância entre a utopia americana da democracia como valor universal e a realidade dos lugares que os EUA pretenderam “libertar”.

No Iraque, o Parlamento discute projetos de lei patrocinados pelo governo que criminalizam a crítica às autoridades em redes sociais e que exigem autorização para a realização de manifestações. Para o governo, o povo precisa de “organização”, depois de décadas de ditadura. Mas grupos iraquianos de defesa dos direitos humanos consideram que a democracia trazida pelos americanos permitiu que partidos de tendências autoritárias chegassem ao poder. “No tempo de Saddam Hussein, havia ao menos uma linha vermelha”, disse uma ativista. “Agora todo mundo é Saddam. Temos 300 Saddams, cada um com seu partido.”

No Afeganistão, o Post mostra como meninos são coagidos a servir de “parceiros” sexuais de afegãos. Os garotos, alguns com 9 anos, se vestem de mulher e dançam para satisfazer a tara desses homens. As crianças geralmente são órfãs, de modo que ninguém aparece para defendê-las. No caso retratado na reportagem, o homem que “casou” com o menino disse que não quis uma menina porque seria um casamento muito caro. Ademais, não é possível levar a esposa a festas e reuniões, graças às tradições locais que segregam mulheres, mas meninos podem ser levados a qualquer lugar. E há quem “terceirize” os meninos, “alugando-os” a outros parceiros em festas nas quais só homens entram. Os garotos mais bonitos são vendidos.

A prática, embora seja um tabu no Afeganistão, é antiga e generalizada em áreas rurais. Ela só foi interrompida quando o Taleban chegou ao poder – quem fosse flagrado com um menino era executado, já que sodomia é proibida pela sharia (lei islâmica). No entanto, tudo mudou desde que o grupo fundamentalista foi derrubado pelos americanos, em 2001. “Gostemos ou não, havia mais respeito à lei sob o Taleban”, disse Dee Brillenburg Wurth, especialista em proteção infantil que integra a missão da ONU no Afeganistão. “Eles viam isso como pecado, e conseguiram coibi-lo.”

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