terça-feira, 10 de abril de 2012

O Islã tomou a pílula




Duda Teixeira / Veja


O número de filhos que, em média, cada mulher terá ao longo da vida das ferramentas mais valiosas para prever o crescimento populacional e o futuro de uma nação.Nos países desenvolvidos, esse dado desabou tão velozmente que algumas populações já estão encolhendo e outras só se mantém estáveis em razão do influxo de imigrantes.O fenômeno também ocorre, com menor intensidade, em países ocidentais emergentes como o Brasil- cuja média de filhos por mulher é de 1,8, ou seja, abaixo da taxa de reposição,de 2,1, o mínimo necessário para substituir numericamente os habitantes mortos.Segundo o senso comum, essas estatísticas são um prenúncio do declínio das populações cristãs e de seus valores e marcam o início da era do islamismo como a maior religião monoteísta do mundo.Os demógrafos de fato estimam que, antes de 2030,haverá mais muçulmanos no mundo do que cristãos.Estudos recentes, contudo, indicam que também na ummah (termo árabe para a comunidade muçulmana global) a taxa de fecundidade está diminuindo, e a um ritmo surpreendentemente mais acelerado do que no resto do mundo.


Nas últimas duas décadas,a média de filhos por mulher nos países de maioria muçulmana caiu de 4,3 para 2,9.Em 2040, estará abaixo do índice de reposição.Isso já ocorreu no Irã, no Líbano e na Albânia.Na Indonésia, o país muçulmano mais populoso do mundo, a taxa de fecundidade é de 2,1.A redução quebra conceitos bem cristalizados sobre a influência do islamismo na sociedade.Nos anos 70 e 80, ao constatarem que as muçulmanas tinham vários filhos (as afegãs chegaram a ter oito filhos cada uma,em média),os estudiosos relacionaram os ensinamentos de Maomé com casas repletas de crianças.A ideia se fortaleceu com a migração em massa para países ricos.Na Inglaterra, a taxa de fecundidade das muçulmanas é de três filhos por mulher, enquanto a média nacional é inferior a dois.


De 1990 em diante, dois fatores ajudaram a derrubar a tendência a proles numerosas.O primeiro foi o início de programas estatais de controle de natalidade em países islâmicos.O segundo foi a simples melhora nas condições de vida em alguns deles.Com as meninas ficando mais anos na escola e adiando o primeiro filho, a taxa de fecundidade diminuiu.Em nenhum dos dois casos a religião foi um grande empecilho.”A igreja é contra a camisinha e contra o aborto, e ainda assim a fecundidade desabou em países católicos”, diz o sociólogo americano Brian Grim, diretor da Pew Research, instituto que, no ano passado,publicou um amplo estudo demográfico sobre países muçulmanos.Grim completa:”No mundo islâmico,mais heterogêneo, aconteceu o mesmo,apenas com alguns anos de atraso”.


A inocuidade religiosa nesse assunto ficou evidente no Irã.Após a revolução de 1979, que instaurou uma teocracia,o aiatolá Ruhollah Khomeini anulou os poucos programas de planejamento familiar em vigor, considerados um instrumento do imperialismo americano.A meta era abastecer as trincheiras na sangrenta guerra contra o Iraque, de 1980 a 1988.Líderes religiosos estimulavam o nascimento de crianças, festejadas como presentes de Alá.Em 1986, um censo revelou um insustentável crescimento da população, de 3,4% ao ano.Prover escolas e hospitais a todos seria impossível.A partir daí,a ideologia deu lugar ao pragmatismo. Benefícios sociais, como licença-maternidade,passaram a ser dados somente até o terceiro filho.O uso de pílulas anticoncepcionais e camisinhas foi incentivado.O Irã tem hoje a única fábrica de preservativos estatal do Oriente Médio, e 73% de suas mulheres utilizam algum tipo de contraceptivo- a mesma proporção dos Estados Unidos.Os aiatolás justificaram a mudança de política dizendo que o Corão não prevê barreiras ao planejamento familiar.Hoje, a taxa de fecundidade está em 1,7.”O Irã fez em quinze anos o que o Brasil fez em quarenta”,diz o demógrafo José Eustáquio Diniz Alves, da Escola Nacional de Ciências Estatísticas do IBGE.Outros países islâmicos com programas de planejamento familiar são o Egito,a Indonésia,a Turquia,o Paquistão e a Tunísia.Nos lugares em que a fecundidade mantém padrões altos, os motivos são de ordem econômica e social.Em regiões rurais, famílias tendem a ter mais crianças para ajudar no trabalho braçal.Em áreas pobres, as meninas ficam menos tempo no colégio, e por isso se casam e tem filhos mais cedo.É o caso do Níger, onde a média de tempo de escola dos habitantes é de quatro anos e a taxa de fecundidade está em 7,1.


O efeito das famílias menores sobre o avanço da população islâmica levará alguns anos para aparecer.A explicação está principalmente na proporção de jovens.Com mais pessoas em idade reprodutiva, a taxa de natalidade, que mede os nascidos para cada1 000 habitantes, é maior entre os muçulmanos do que no Ocidente.Outro fator é o aumento da expectativa de vida.Há vinte anos, os habitantes de países de minoria muçulmana viviam, em média, 62 anos.Hoje, a expectativa é de 68 anos,e, em 2030, chegará a 73.Por isso, em números absolutos,a população dos países muçulmanos continuará inchando até 2070,mas em ritmo menor.A partir daí se estabilizará ou começará a encolher.Para quem acreditava no crescimento descontrolado dos muçulmanos,as estatísticas mostram o oposto.Nesse ponto, Ocidente e Islã são mais parecidos do que se poderia supor.

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