quarta-feira, 25 de abril de 2012

Em Wall Street, manter tradições da fé é algo complicado para muçulmanos


Fiéis que trabalham no mercado financeiro têm que conciliar suas crenças com um ambiente em que o dinheiro vale mais do que Deus


Kevin Roose, The New York Times | IG



Os colegas de trabalho de Naiel Iqbal não conseguiam decifrá-lo.



Ele havia acabado de começar a trabalhar em um fundo de hedge em Manhattan - o tipo de enclave que abriga apenas engravatados superqualificados da elite americana, que trabalham para juntar seus primeiros US$100 mil antes de ir para a Escola de Negócios de Harvard. Mas Iqbal, de 27 anos, um graduado da Escola Wharton, não agia como alguém deste mercado. Ele não se apresentou no escritório. Ele também não almoçava com os outros operadores.


Na verdade, ele nunca comia nada. Ou bebia. Nem café, nem refrigerante, nem sequer um gole de água Nalgene em sua própria mesa. Todos os dias, o dia todo, ele apenas ficava lá, olhando para o terminal de operações da Bloomberg. Será que era doente? Nervoso?


Foto: Ruth Fremson / The New York Times
Naiel Iqbal, um muçulmano que trabalha para um fundo de hedge, em Nova York

Nada disso: era apenas o Ramadã. Iqbal, um muçulmano, estava exausto por jejuar até o pôr do sol diariamente.


"Na verdade, eu como muito", lembrou ele com uma risada. "Quando o Ramadã terminou, eu disse a todos eles que poderia ir aonde quer que fossem. Ninguém tinha visto esse meu lado."

Iqbal - que não bebe ou fuma - esta entre o número crescente de jovens muçulmanos que estão abalando a antiga cultura de Wall Street. Vista de um determinado ângulo, Wall Street ainda parece uma coalizão de homens brancos com diplomas da Ivy League e sobrenomes ostensivos. Isto é especialmente verdadeiro quanto mais alto você olhar - ali não há chefes executivos negros, abertamente homossexuais ou mulheres.


Mas à medida que Wall Street se adapta à uma maior regulamentação, lucros mais baixos e custos mais apertados, a região financeira de Nova York tem passado por mudanças. Estas, por sua vez, atingem principalmente os níveis mais baixos. Um esforço de muito anos de recrutamento em grandes bancos resultou em um grupo diversificado de aspirantes a mestres do universo financeiro.


Jovens muçulmanos, um dos grupos mais recentes a fazer incursões nas finanças americanas, podem enfrentar obstáculos maiores na sua entrada. Alguns obstáculos são remanescentes de uma era menos tolerante. Mas também importantes, são as limitações do próprio Islã - cuja fé tem princípios, segundo os próprios trabalhadores muçulmanos, que parecem muitas vezes em desacordo com a cultura liberal de Wall Street.


"Eu sou sempre aquele que bebe Diet Coke no happy hour", disse Iqbal.

Claro, para os muçulmanos que vivem uma vida mais secular, trabalhar em Wall Street pode não representar qualquer problema. Os muçulmanos, afinal, não são os únicos cujos valores se chocam com os caminhos de Wall Street. Judeus ortodoxos, cristãos conservadores e outros fiéis que trabalham com finanças têm, em algum momento, que conciliar suas crenças e práticas com um ambiente em que o dinheiro vale mais do que Deus.


Mas para os muçulmanos observantes que esperam manter as práticas da lei islâmica, conhecida como sharia, intacta enquanto sobem a escada profissional, a situção pode ser complicada.

Foto: Ruth Fremson / The New York Times
A muçulmana Aisha Jukaku, consultora financeira em Wall Street, ora em seu apartamento nos EUA


Aisha Jukaku, uma analista de cuidados de saúde no Goldman Sachs, enfrentou muitos desafios. Jukaku usa um hijab desde que tinha 11 anos de idade. Como muitas mulheres muçulmanas conservadoras, ela evita o contato físico com os homens fora de sua família. (Ela faz exceções para apertos de mão em um ambiente profissional que sejam complicados de evitar.)

"Não é algo que eu queira fazer", diz ela sobre o aperto de mãos. "Mas esse é o jeito americano de se fazer negócios."
 No Goldman, onde trabalhou entre 2006 e 2008, ela desenvolveu uma rotina diária que a permitia preservar suas crenças religiosas sem perder o ritmo de trabalho. Ela acordava antes do nascer do sol em seu apartamento perto do Parque de Battery para realizar a primeira de cinco orações diárias, em seguida, voltava a dormir até por volta das 8h30. No trabalho, ela se vestia de forma mais modesta que a maioria de suas colegas e encontrou uma sala na empresa onde podia orar durante o dia. Durante o Ramadã, seu diretor, vendo como ela parecia cansada depois de completar um grande negócio com o estômago vazio, teve pena dela.

"Ele disse: 'Vá com calma durante as próximas semanas. Isso não deve ser divertido para você'", disse Jukaku, que agora trabalha como consultora financeira freelance.

Trabalhar em finanças é algo simples em um país muçulmano, onde a pausa para a oração é algo comum e feriados como o Eid al-Fitr, que marca o fim do Ramadã, são incorporadas ao calendário. Mas banqueiros muçulmanos nos Estados Unidos têm menos recursos. Muitos não têm salas de oração no trabalho e sair do escritório para a prece de sexta-feira em uma mesquita significa deixar seu trabalho nas mãos de um colega.

"Temos um conceito chamado de lei da necessidade", disse Rushdi Siddiqui, diretor global de Finanças Islâmicas da Thomson Reuters. "Você tem que, a certo ponto, respeitar as leis do país em que reside, sejam elas as leis escritas ou as leis culturais".


Farhan Malik, que trabalhou no Citigroup, teve sua fé testada no ano passado, quando foi convidado a trabalhar em um negócio envolvendo pubs britânicos. Malik, que não bebe, decidiu que negociar pubs violaria princípios básicos de sua fé. Ele pediu para ser retirado do projeto e seus chefes aceitaram.


Para Malik, que desde então deixou o Citigroup e agora trabalha em um banco de Bahrain, que negocia produtos agrícolas mais convencionais, a noção de conciliar a cultura financeira ocidental com as exigências do Islã parecia uma batalha perdida. "Se você vai para a oração a sexta, se você não está bebendo, é como tentar lutar box com uma mão amarrada nas costas", disse ele.


Mas "Wall Street é basicamente cega para religião", afirmou Siddiqui. "O que quer ver é o fluxo de negócios".

Malik explicou de outra forma: "Você poderia adorar a Satanás. Enquanto estiver ganhando dinheiro, eles estarão felizes."

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