domingo, 25 de março de 2012

Música que cura

Não se surpreenda se você começar a ouvir música nos corredores de hospitais. Pesquisadores estão descobrindo os poderes dos sons sobre o nosso cérebro – para o bem e para o mal – e usando melodias para o tratamento de doenças.


por Alexandre de Santi | Galileu



Os pesquisadores Alex Doman e Don Campbell reuniram no livro Healing at the speed of sound (A cura com a velocidade do som, sem edição brasileira) grande parte das evidências de que a música, o silêncio e o ruído têm papel importante no nosso humor, no desenvolvimento do cérebro, no estresse e, por consequência, no sistema imunológico. Na obra, ainda sugerem como usar a música em caráter medicinal. Doman conversou com GALILEU sobre as descobertas da ciência e como a música afeta cérebro e corpo.


Doman: Sim, essa é uma área que está crescendo. Há 20 anos, grande parte da discussão sobre os benefícios da música na saúde era vista como piada. Agora, estamos mais avançados, principalmente em neurociência, descobrindo o que acontece no cérebro em resposta à música. Uma das nossas colegas fez um estudo clínico com dois tipos de música compostas para reduzir depressão em 250 pacientes. Mais de 60% dos sintomas diminuíram, algo muito mais efetivo do que os antidepressivos e sem os efeitos colaterais. Essa pesquisa foi transformada em um tratamento contra a depressão financiado pelos governos da Áustria e Alemanha. Em outros casos, quando há comprometimento neurológico, como lesões cerebrais, derrames e autismo, há muitas pesquisas com programas de música que mostram evidências de recuperação do cérebro e melhoria de comportamento. Mas, no geral, sabemos que música pode reduzir estresse e melhorar humor. E isso, isoladamente, tem um impacto profundo na melhoria da qualidade de vida. Quando há música relaxante, o hormônio responsável pelo estresse, o cortisol, é reduzido. E o cortisol compromete o sistema imunológico.


* E que tipo de música ajuda os depressivos? Música alegre?
Doman: Não. O foco não é o humor da pessoa no momento, mas o efeito acumulativo da música com o passar do tempo. Dois tipos de música são usadas. Uma para ajudar quem tem depressão de origem cognitiva, que surge a partir da perda de um parente ou do emprego. Nesses casos, são usadas músicas estimulantes para o cérebro. No caso de pacientes que sofrem de depressão de longa data, com fundo neurofisiológico, eles precisam de canções mais calmas que ajudam a relaxar o sistema límbico, ligado à emoção, para ajudá-los a sair do estado depressivo.


* Então, não deveríamos ouvir mais músicas nos hospitais?
Doman: Há uma tendência crescente. Um dos exemplos mais evidentes é a renomada Cleveland Clinic. Eles incorporaram programas musicais não só para pacientes, mas também para familiares e funcionários. Usam seleções que mudam a cada 20 minutos, criadas especialmente para combinar o som com o que acontece no hospital. Também estamos analisando o papel de terapeutas especializados em música que tocam ao vivo para os pacientes como parte do tratamento.


* Veremos médicos prescrevendo músicas específicas, como pílulas? Ou qualquer tipo de música ajuda?
Doman: É preciso ter a música certa. As pessoas podem montar listas de acordo com 3 princípios chamamos de “marchas”. Você pode separar as canções de acordo com o andamento, o alcance da frequência e arranjo. Na primeira, indicamos músicas de até 60 batidas por minuto (bpm), tons graves e arranjos simplificados. Música ambiente e new age são exemplos e podem ser usadas para acalmar os ritmos do corpo e reduzir estresse. Na marcha 2, são músicas de 60 a 90 bpm, frequências médias e geralmente instrumentais – violões e música barroca, por exemplo –, boas para a concentração. A terceira é de músicas acima de 90 bpm e ampla frequência sonora, como no pop, rock e jazz, para aumentar a energia. Também há música especialmente composta para provocar efeitos psicológicos e físicos determinados. Há receitas médicas destinadas a pessoas que sofrem de transtornos de espectro autista, que recebem uma indicação muito específica de quais músicas escutar, quando e por quanto tempo para reduzir o estresse relacionado à doença.


As receitas são fornecidas por médicos e profissionais como terapeutas ocupacionais. Há um programa musical usado pelo Exército americano para ajudar soldados que estiveram no Iraque e Afeganistão que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático e lesões cerebrais.


* A música pode curar doenças?


"Música pode melhorar nossa circulação. O sistema imunológico pode ser turbinado, o que ajuda a combater doenças. As coisas que sempre sentimos em relação à música agora podem ser medidas."


* O estilo faz diferença? Há uma noção de que estilos como música clássica e jazz são “melhores”.
Doman: Existe uma ideia de que música clássica, como Mozart ou Bach, são boas para o cérebro. E são. Mas todos os gêneros podem ser benéficos. Não é o estilo que faz diferença, mas componentes como o ritmo, a melodia, a harmonia, a dinâmica, as frequências e a nossa relação com a música. O elemento mais importante é que você goste da música. Se você não apreciar, o cérebro vai interpretar como ruído.


* Por que os cientistas levaram tanto tempo para estudar os benefícios da música para a saúde?
Doman: Sabemos desde o início da humanidade que a música tem um efeito profundo em nós, mas a novidade foi a expansão da neurociência. Ainda é um campo novo, com 20 anos, e foi somente nos últimos que pudemos enxergar através dos equipamentos de imagem como o cérebro responde à música e quais áreas processam informações como ritmo e melodia. As ferramentas melhoraram e agora a sociedade reconhece que música pode ir além de entretenimento.


* E o que a neurociência descobriu?
Doman: Um estudo recente com músicos de longa data mostrou que sua audição é melhor que a de outras pessoas – desde que não tenham sido expostos a volumes muito altos ao longo da vida. Outro mostrou que quanto mais tempo uma pessoa toca um instrumento, maior é o desenvolvimento de certas áreas do cérebro. Algumas regiões ficam maiores, como o conjunto de fibras nervosas que conecta os dois hemisférios e que permite que eles trabalhem juntos. Um músico tem uma ponte melhor entre os dois hemisférios, o que melhora todos os aspectos da vida, porque o cérebro se torna um sistema de processamento mais eficiente.


* E no resto do corpo?
Doman: Música pode expandir vasos sanquíneos, melhorando a circulação. O sistema imunológico pode ser turbinado com o aumento de produção de uma proteína chamada imunoglobina, que ajuda o corpo a combater doenças. Também há o aumento de enforfina, o que reduz estresse. As coisas que sempre sentimos em relação à música agora podem ser medidas.


* E o barulho? Provoca efeitos no corpo e no cérebro?
Doman: O barulho tem um efeito muito negativo. Pode restringir a circulação, aumentar níveis de estresse e reduzir a força do sistema imunológico, facilitando as doenças. Também pode provocar perda de audição. É um equilíbrio delicado: o som pode curar e pode prejudicar. A questão é esse equilíbrio. Precisamos dosar nossa exposição ao barulho e criar oportunidades de experimentar sons saudáveis.


* Há pesquisas que mostram os benefícios de expor crianças à música. Educação musical deveria ser uma ferramenta para os pais?
Doman: Acreditamos que é um componente importante para o desenvolvimento cerebral e aprendizado do recém-nascido. Depois do segundo trimestre de gestação, o sistema auditivo do feto já está funcionando e ele pode ouvir o que acontece fora do útero. Na infância, uma variedade de bons sons molda os centros auditivos do cérebro e cria os pilares para o aprendizado, para se comunicar e para compreender as emoções.


* O silêncio também tem poderes?
Doman: Silêncio é essencial. Temos que ter uma dieta de sons balanceada: reduzir a exposição a ruídos, ouvir os sons da natureza, escutar música e ter períodos de quietude. Recomendamos pela manhã e à tarde, por 5 ou 10 minutos. Absorver muitos sons é como comer muito: pode estressar o corpo.

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