domingo, 18 de março de 2012

Eleições EUA: Campanha põe mórmons em evidência

Favoritismo de Mitt Romney na corrida republicana à Casa Branca desperta debate de eleitores sobre sua religião


Preconceito seria causa de derrotas recentes do concorrente; 22% da população rejeita candidato mórmon


George Frey - 3.abr.11/Reuters
Coral de mórmons canta durante a 181ª conferência anual da religião, em Salt Lake City


Luciana Coelho | Folha de S. Paulo
Enviada especial  Salt Lake City, Saratoga Springs e Provo (Utah)


Eles não bebem café, orgulham-se de mandar os filhos no início da vida adulta para missões distantes que buscam converter fiéis e formam uma sociedade coesa, cuja rotina gira em torno da família e do serviço comunitário.


Raramente os mórmons nos EUA receberam tantas perguntas sobre sua fé como agora (sim, eles são cristãos; não, não são polígamos).


Mas o escrutínio trazido por uma campanha que pode levar o primeiro mórmon à Casa Branca, o republicano Mitt Romney, é festejado pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.


"Muita gente fala em 'momento mórmon'. Não sei se é 'momento', pois tivemos alguns ao longo dos anos, mas certamente há muita atenção e interesse na religião", diz Michael Purdy, diretor de mídia da igreja -há o cargo, assim como há uma campanha publicitária focada na diversidade da denominação, com 1 milhão de chats no site mormon.org em 12 meses.


"Crescemos e atingimos um tamanho visível, mas ainda somos relativamente pequenos, e muita gente não conhece um mórmon ou não tem informações sobre nós."


Existem hoje 4 milhões de mórmons adultos nos Estados Unidos, segundo dados do Centro de Pesquisa Pew (o Censo nos EUA não tabula religião). A igreja diz somar 14 milhões no planeta.


MISSIONÁRIOS


Muitos são convertidos pelos indefectíveis missionários -rapazes de 19, 20 anos que, em camisas brancas de manga curta e calças e gravatas pretas, batem às portas mundo afora com o Livro de Mórmon sob o braço e a palavra de Deus na ponta da língua. Cada dia, há também mais garotas missionárias por opção.


Imersa no universo mórmon centrado no bonito Estado de Utah, a Folha conversou com mais de 40 líderes religiosos, missionários, historiadores, membros e ex-membros para entender por que, quase 182 anos após sua fundação por Joseph Smith, mal-entendidos sobre a religião persistem.


Encontrou uma comunidade que vive sua crença intensamente, onde chamam a atenção a organização impecável e, sobretudo o tempo e o dinheiro devotados a atividades religiosas, sociais e humanitárias da Igreja.


Pesquisa do Gallup aponta que 22% dos americanos rejeitaria um candidato mórmon, e o preconceito é visto como causa da recente onda de derrotas de Romney nas prévias partidárias em Estados de maioria evangélica.


A igreja não endossa um candidato e, com raras exceções, não se envolve em polêmicas, sensível à rejeição de que a maioria dos membros diz ainda ser alvo.


"O problema é que é 'ok' tirar sarro de mórmons, e não há norma social que iniba isso", diz o professor de ciência política J. Quin Monson, da BYU (Brigham Young University, mantida pela igreja).


Porque sua história é de perseguição, os mórmons têm um profundo senso de precaução (estocam comida e dinheiro para eventualidades) e de caridade, patente no alto índice de trabalho voluntário entre os fiéis.


"Mas são também uma religião controladora, na qual questionar dogmas ou deixar de seguir preceitos como ser missionário pode trazer um estigma", diz Trevor Hunt, 34, ao lado da mulher, Becky, 31, ambos ex-mórmons de famílias religiosas.


O casal de brasileiros Bosco Ferreira e Marilda Renosto, há 11 anos em Utah, conta que por não serem mórmons têm a vida social um pouco restrita pela falta de afinidade.


Os filhos, Ana Carolina e Gabriel, se converteram. A de 32 vive na Flórida com o marido. O de 26 mora em Utah, onde os mórmons são maioria, e descreve entusiasmado o serviço na igreja.


"Eu gostaria que ele fosse viver em outro Estado, como a irmã, para ter ideia melhor do mundo fora da bolha da religião", diz Marilda. "É totalmente diferente ser mórmon aqui e em outro lugar."


Concorda Jessica Moody, uma relações públicas de Idaho que, após trabalhar na indústria do entretenimento em Los Angeles, hoje está no departamento de RP na Praça do Templo, a sede da igreja em Salt Lake City.


Recém-casada aos 30, ela explica que a união tardia para o padrão dos mórmons de Utah, por exemplo, é resultado desse universo paralelo.


"Aqui, as pessoas vão a atividades da igreja toda hora e acabam se conhecendo. A vida gira em torno disso. Em Los Angeles, era mais difícil."


Igreja tem perfil empreendedor e técnica de corporação


As latas de pêssego em calda trazem a marca "Deseret". As bandejas de carne também. Assim como o molho, o pão, os biscoitos, o leite.


Uma loja mórmon (há 42) dá pistas da mentalidade que fez da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias uma organização bem-sucedida e de sua máxima: "Ajudemos as pessoas a se ajudarem".


"Deseret" é um nome bíblico de uma de abelha apreciada pela engenhosidade. Estampa produtos alimentícios (cultivados, processados e vendidos ou doados pela igreja), livros, móveis e lojas de roupas de segunda mão.


Mantida pelo dízimo (10% da renda líquida, que todo mórmon ativo paga), a igreja opera, de certa forma, como uma corporação eficiente.


Há um forte componente religioso, claro, e muito da organização vem da disciplina rígida incutida nos jovens missionários. Stephen Allen, diretor administrativo do serviço, gosta de dizer que "é impressionante a mudança que se opera em dois anos".


Mas há também um pragmatismo econômico, em parte derivado do fato de a liderança eclesiástica, que é laica e rotativa, muitas vezes vir do mundo dos negócios.


O aspirante republicano à Casa Branca Mitt Romney, executivo do setor financeiro, serviu por 20 anos como líder local (bispo) e regional da igreja em Massachusetts.


A Deseret Industries se ampara em voluntários e associados, que trocam trabalho por produtos e ajuda financeira ou salário mínimo.


"O trabalho de assistência na igreja é para ajudar as pessoas a se ajudarem", afirma Rick Foster, diretor do Welfare Square (a praça do bem-estar em Salt Lake City).


"Em vez de fazermos tudo para elas, permitimos que trabalhem até o ponto que sua capacidade permite." Por isso, quem recebe ajuda (de dinheiro para o celular a comida) firma um plano com o bispo local para tentar deixar o sistema em até seis meses.

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