quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

O poder da loucura



por Olavo de Carvalho | Diário do Comércio


O discurso comunista mudou muito ao longo dos tempos. Começou declarando que a classe incumbida de destruir o capitalismo era o proletariado industrial. Desde Herbert Marcuse, acredita que os proletários são uns vendidos e que a tarefa de transformar o mundo cabe aos estudantes, prostitutas, bandidos e drogados (e, no Brasil, aos funcionários públicos, que Marx considerava aliados naturais da burguesia).


Começou proclamando que ideias e doutrinas eram apenas um véu de aparências tecido em cima do interesse de classe. Hoje, admite, com Ernesto Laclau, que as classes são inventadas pela propaganda revolucionária conforme os interesses do Partido no momento.


É difícil debater com gente que muda de conversa cada vez que a discussão aperta.
Mas uma coisa é inegável: a mentalidade comunista, que no início era um bloco dogmático de ideias prontas, foi se tornando uma trama obscura e proteiforme, um labirinto móvel de subterfúgios e desconversas, quase impossível de descrever.


Em vez da aceitação pura e simples de um esquema explicativo prêt-à-porter, a adesão à causa comunista foi se transmutando num processo psicológico complexo de ontaminação neurótica numa massa turva de sentimentos confusos.


Esse processo reflete a adaptação progressiva do movimento comunista a situações culturais criadas pelo descrédito intelectual do marxismo e pela necessidade de protegê-lo sob novas versões cada vez mais escorregadias, imunes à crítica racional. 


Ao longo do processo, a tática de aliciamento comunista foi se transformando cada vez mais num envolvimento emocional sem conteúdo doutrinal identificável, baseado no sentimento de participação comunitária e no ódio a inimigos cada vez mais vagos e indefiníveis.


Em vez de perder credibilidade, porém, o discurso comunista ganhou força com isso, precisamente na medida em que já não é mais um "discurso" em sentido estrito e sim um aglomerado de símbolos, muitos deles não-verbais, que apelam por igual às frustrações e ressentimentos mais disparatados, unificando, por incrível que pareça, o ódio de feministas e gayzistas à moralidade religiosa tradicional e a hostilidade fundamentalista islâmica à imoralidade endêmica das sociedades ocidentais, exemplificada, aos olhos do Islã, pelo próprio gayzismo-feminismo.


Por isso mesmo, a mente dos comunistas individuais, especialmente os "intelectuais", foi se tornando cada vez mais complexa e inapreensível, suas opiniões cada vez mais elusivas e escorregadias, ao ponto de que já não podem ser "discutidas", apenas analisadas como sintomas de um estado de espírito que elas não expressam diretamente, apenas insinuam por entre sombras, como na linguagem dos sonhos.


A coesão de um discurso pode ser interna ou externa. No primeiro caso, as partes estão unidas umas às outras por um vínculo lógico.


No segundo, pela referência a um conjunto de fatos ou coisas reconhecíveis. As duas formas de coesão podem vir articuladas.


Mas o discurso que nem é coerente nem reflete uma realidade nem articula essas duas exigências, pode continuar exercendo, ao menos sobre certo público, um
efeito persuasivo bem notável.


Isso acontece quando, sob a aparência de defender ideias ou expor fatos, ele reflete apenas o sentimento de identidade do grupo social a que se destina.


Como aí as ideias e fatos já não interessam por si mesmos, mas apenas como símbolos evocadores de certas reações emocionais, tudo o que o discurso precisa para ser aceito é usar os símbolos corretos, capazes de despertar as respostas instintivas desejadas. Para isso, evidentemente, esses símbolos têm de ser de uso geral e corrente no público-alvo: têm de ser lugares-comuns, chavões, frases feitas, clichês.


Uma linguagem de clichês pode ser usada deliberadamente, com arte e técnica, por um demagogo ou propagandista hábil. Mas também pode acontecer que, usada em excesso, ela se dissemine ao ponto de usurpar o lugar das outras formas de discurso, tornando-se o linguajar geral e espontâneo, o modo de pensar de todo um grupo falante, de toda uma coletividade de "intelectuais". Neste caso, a intenção de manipular torna-se praticamente inconsciente, a mentira deliberada transmuta-se em fingimento histérico, em que a falsidade absoluta dos pretextos alegados contrasta pateticamente com a intensidade real dos sentimentos que despertam.


Quanto mais vasto o grupo envolvido nesse jogo de teatro, mais vigoroso o reforço que cada um dos atores recebe de seus pares e mais se amplia a permissão geral para a prática da incoerência e da falsidade, até que todo resíduo de compromisso com a razão e os fatos seja por fim abolido e o sentimento de identidade grupal passe a valer como o único critério de veracidade concebível.


Esse sentimento, na medida em que se intensifica, fortalece a coesão e a capacidade de ação unificada do grupo envolvido, resultando, por vezes, em acréscimo do seu poder político. Assim se explica o paradoxo aparente de que, ao longo do século 20, os grupos mais intoxicados de ideias inverídicas e absurdas – os comunistas e os nazistas – saíssem frequentemente vencedores na disputa com adversários mais sensatos e realistas. Invertendo o otimismo inaugural da modernidade, que pela boca de Sir Francis Bacon proclamava "conhecimento é poder", a evolução dos acontecimentos mostrou que, em política, a ignorância, a inconsciência e a loucura, não só do público manipulado, mas do próprio manipulador, são armas nada desprezíveis.




Olavo de Carvalho é ensaísta, jornalista e professor de Filosofia

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