domingo, 18 de dezembro de 2011

Evangélicos entram no radar da Globo

Rede produz seu primeiro festival gospel e tenta avançar sobre uma audiência que representa 20% da população


Promessas, que o canal exibiu hoje, reuniu 10% do público esperado; fiéis dizem que Globo não sabe falar com eles
Felipe O'Neill/Agência o Dia
Platéia do Festival Promessas, realizado no Aterro do Flamengo, no Rio.


Folha de S. Paulo


Hoje é um novo dia de um novo tempo que começou para a Globo e os evangélicos.


A emissora, tradicionalmente ligada à Igreja Católica, dedica 75 minutos de programação ao segmento. Vão ao ar às 13h trechos do festival Promessas, produzido pela Globo com os principais nomes da música gospel.


O público era de 20 mil pessoas -um décimo do esperado. Ainda assim, o canal faz do evento cartão de visitas para uma fatia de audiência em ascensão: estima-se que mais de 20% da população brasileira seja evangélica.


O festival teve tratamento VIP na Globo e consumiu R$ 2,9 milhões da Prefeitura do Rio (leia texto na pág. 5).


Isso num momento em que a rede registra fuga de espectadores. A média/dia de audiência (7h à meia-noite) está em 16 pontos (cada ponto equivale a 58 mil domicílios na Grande SP), 10% abaixo da meta anunciada para 2011.


Em 2010, o pastor Silas Malafaia -ligado à Assembleia de Deus e ex-detrator do que julgava ser a "emissora oficial da Igreja"- reuniu-se com João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo, e sugeriu o festival.


A Globo confirma o encontro e diz que "coincidiu com intenção antiga de se aproximar mais do segmento gospel". Circulam nesse mercado R$ 2 bilhões anuais.


Diretor do núcleo responsável pelo Promessas, Luiz Gleiser diz "reviver a epifania" dos anos 90, quando detectou a existência de audiência ávida pelo sertanejo, gênero que viria a explodir.


A estratégia de aproximação começou há dois anos, após o "Jornal Nacional" fazer uma série de reportagens sobre trabalho social de igrejas. Desde então, a rede tem dado destaque em seu noticiário a eventos da comunidade evangélica. A presença de músicos gospel nos programas de Xuxa e Faustão cresceu, e há planos para um programa aos sábados.


O problema é que parte do público-alvo ainda é cética quanto às intenções globais.


Para Malafaia, o baixo quórum no Promessas é parcialmente explicado por "evangélicos desconfiados" após anos "apanhando" da rede.


A relação entre emissora e igrejas, de fato, já viu dias piores. Como em 95, quando Edson Celulari viveu um pastor pilantra na série "Decadência". Hoje, a Globo é acusada de querer entrar num jogo cujas regras desconhece.


Para o próprio Malafaia, a rede "tem doutorado em tecnologia, mas em mundo evangélico é analfabeta".


Reportagens da Globonews sobre o festival, por exemplo, usaram termos como "fãs" e "ídolos" -o que ofendeu alguns fiéis, pois sua crença rejeita a idolatria.


BRIGA DE PASTORES


A mudança da Globo acontece enquanto os principais líderes neopentecostais -Edir Macedo, da Igreja Universal, Valdemiro Santiago, da Mundial do Poder de Deus, R.R. Soares, da Internacional da Graça de Deus, e Malafaia - deflagram briga pública.


"A aproximação da Globo se dá principalmente com os adversários de Edir Macedo", diz o pesquisador Ricardo Mariano, da PUC-RS.


O maior ataque veio em novembro, quando o "Domingo Espetacular", da Record, controlada por Macedo, exibiu vídeo crítico à prática de "cair no espírito" -em que o fiel sofre uma espécie de "desmaio". Em setembro, Macedo já havia criticado os que fazem a cerimônia, como Ana Paula Valadão, da banda Diante do Trono, um dos nomes do Promessas. Na mesma declaração, criticou "99% dos cantores gospel".


Em nota, a Universal afirmou considerar excelente a aproximação de outros canais com os evangélicos.


(ANNA VIRGINIA BALLOUSSIER, DANIEL RONCAGLIA E MORRIS KACHANI)


ANÁLISE


Televisão responde à ascensão de comunidades religiosas


As redes parecem concordar em abrir as câmeras para padres e pastores, sem perder de vista os ganhos financeiros


NELSON DE SÁ
ARTICULISTA DA FOLHA


Até os anos 80, não havia conflito: o catolicismo se confundia com a própria sociedade brasileira, e sua presença na programação das televisões, privadas e estatais, não era questionada.


No caso da Globo, o país assistia ao que a Arquidiocese do Rio programava por conta de suas relações com o presidente das Organizações Globo, Roberto Marinho, não necessariamente com a empresa.


A Globo era aberta "a todas as religiões, era liberal", diz José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, executivo que comandou as primeiras décadas da rede.


O privilégio à arquidiocese se devia "à ligação pessoal do doutor Roberto com dom Eugênio Salles", então cardeal-arcebispo.


Também na TV Cultura era assim. "Transmitíamos a Missa de Aparecida todo domingo, e nunca ninguém pôs em questão", afirma Roberto Muylaert, ex-presidente da Fundação Padre Anchieta.


"Era a coisa mais normal do mundo."


Com a ascensão das igrejas evangélicas e da ala carismática da Igreja Católica, ao longo das últimas décadas, o quadro mudou.


Num primeiro momento, a Globo se aproximou de Marcelo Rossi e de outros padres de São Paulo, que hoje produzem discos e livros de grande vendagem por meio da gravadora Som Livre e da editora Globo, empresas do grupo.


E mais recentemente se aproximou da música gospel, evangélica, também mantendo sob contrato parte dos artistas que participaram do festival Promessas no último fim de semana, organizado pela Globo no Rio e programado como especial de fim de ano, hoje.


Boni não vê problema na ampliação do espaço evangélico na programação da emissora. "A religião é do povo, é uma mudança de comportamento natural, e a Globo tem que acompanhar."


Mas os vínculos comerciais, tanto com carismáticos quanto com evangélicos, acabam por obscurecer a distinção que se fazia entre a Globo, por exemplo, e a Record, que dedica parte de sua programação à Igreja Universal.


Outras redes não fazem coisa muito diferente, vendendo programação para diferentes grupos evangélicos, carismáticos e outros.


ÁGUAS PASSADAS


Antes de chegar ao quadro atual, houve episódios de conflito aberto, como o "chute na santa" dado por um pastor, na Record, e a demonização de pastores pela teledramaturgia, na Globo -o mais recente em julho, antes da programação do Promessas.


Agora, todas as redes parecem concordar em abrir as câmeras para padres e pastores, sem perder de vista os ganhos financeiros. A cobertura do último sábado, no "Jornal Nacional", mostrou pastores que falavam no intervalo das músicas.


Os problemas surgem, agora, quando se resiste às igrejas, como na estatal TV Brasil, que tentou tirar os programas religiosos da programação e voltou atrás, sob pressão conjunta da Arquidiocese do Rio e do senador Marcelo Crivella, bispo licenciado da Universal.


Muylaert comenta que, por parte das igrejas, a estratégia já não difere mais daquela do mercado publicitário. "Quem tem mídia tem fé", ironiza.


Quanto mais propaganda, mais rebanho.


Cantora gospel diz que 'Deus tocou o coração da Globo'


Festival Promessas reuniu público abaixo do esperado no Rio, mas artistas e fiéis o classificam como 'evento histórico'


Rede carioca, que exibe show hoje, montou estrutura com um helicóptero, câmeras de alta definição e gruas


MARCO AURÉLIO CANÔNICO
DO RIO


"Este é um evento histórico", dizia o animador de palco, tentando inspirar o pequeno público que aguardava o início do festival Promessas, no sábado passado. "Você vai poder dizer que esteve no primeiro evento evangélico que a Globo organizou!"


No palco como na plateia, a visão de que se tratava de um "evento histórico" estava disseminada entre os fiéis -boa parte vinda de municípios da Baixada Fluminense e de subúrbios distantes do Aterro do Flamengo (onde o festival aconteceu).


O baixo quórum não preocupava: todos apostavam na capacidade da emissora líder de disseminar "a palavra de Deus" para uma audiência abrangente.


"É a concretização de um clamor de muitos anos. Vai marcar a história", disse a pastora e cantora Ludmila Ferber. "É maravilhoso que a Globo tenha abraçado a causa e entendido quão poderosa é a mensagem de Deus."


Fé à parte, o aspecto comercial da empreitada -para a qual a Globo montou uma grande estrutura de divulgação e de transmissão (14 câmeras de alta definição, gruas, helicóptero)- não escapou aos religiosos.


"A Globo era a única emissora que não abria para os evangélicos. Notou que estava ficando para trás", disse Erisvaldo Oliveira, 26, fiel da primeira Igreja Batista da Ponte Preta, de Magé (RJ).


"Ela sabe que vai passar a ter muito mais audiência."


A disputa pelos telespectadores (e pelos ouvintes, já que parte dos artistas tem discos lançados pela Som Livre, gravadora ligada à Globo) era, no entanto, relativizada pelos participantes.


"Eu sei que, a princípio, todo mundo pensa em grana, em 'business'. É claro que isso existe, nós somos de carne e osso, mas acima disso tudo está o propósito de Deus para esta nação", disse o cantor Fernandinho, um dos mais aguardados do festival.


Os evangélicos também celebravam o evento como um ponto de inflexão no tratamento dispensado a eles pela emissora carioca.


"A Bíblia diz que todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Deus é o Senhor", afirmou a enfermeira Janaína Silva, 28, citando um trecho da Carta aos Romanos.


"A Globo fez isso agora porque Deus tocou o coração deles. Era o momento certo, Deus não chega atrasado", disse a cantora Damares.

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