segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Muçulmanos do Canadá, Sem Consenso

por Daniel Pipes
Original em inglês: Canada's Muslims, Not of One Mind
Tradução: Joseph Skilnik




Comunicado à imprensa: http://www.macdonaldlaurier.ca/much-good-news-and-some-worrying-results-in-new-study-of-muslim-public-opinion-in-canada/
Texto: http://www.macdonaldlaurier.ca/files/pdf/What-Do-Muslim-Canadians-Want-November-1-2011.pdf


Em seu estudo para o Instituto Macdonald-Laurier, "O Que Desejam os Muçulmanos Canadenses? O Conflito de Interpretações e a Pesquisa de Opinião", Christian Leuprecht e Conrad Winn começam com uma discussão sobre as maneiras de entender a posição dos muçulmanos no Canadá, para depois discutir os dados específicos. Eu irei acompanhar a sua ordenação e discutir esses dois tópicos separadamente, seguido de uma conclusão.


Paradigmas para compreender as posições dos muçulmanos: Dois dos três paradigmas conjecturados por Leuprecht e Winn presumem uma comunidade uniforme, um deles acreditando serem os muçulmanos uniformemente hostis ao modo de vida ocidental e o outro vendo-os como uniformemente tolerantes a esse modo de vida. Somente o terceiro paradigma, no qual concordam comigo, compreende uma multiplicidade de enfoques.


Fica óbvia a sensação intuitiva de que os muçulmanos discordam entre si – qual grupo não é assim? Espera-se que, acima de tudo, divirjam no que tange à compatibilidade do islamismo com os valores canadenses, questão chave em tempos de jihad e de iniciativas em implementar a Sharia (lei islâmica) no Ocidente.


Antes de analisar os resultados específicos da pesquisa, vale a pena observar, juntamente com Stephen Schwartz do Center for Islamic Pluralism (Centro para o Pluralismo Islâmico), que o "islamismo canadense é mais moderado, mais diversificado e mais aberto ao debate do que o islamismo americano ou britânico". Por qual razão? Primeiramente pela natureza da imigração muçulmana, que destacadamente incluiu tradicionalistas Cadi e similares Sufis, muçulmanos heterodoxos da África Subsariana e secularistas da Tunísia e da Argélia. Schwartz conclui em uma nota positiva que "deveríamos estar satisfeitos que o Canadá é diferente, que proporciona um lugar onde a sensatez é valorizada em vez de desprezada".


Resultados da pesquisa: Os resultados da pesquisa confirmam essa diferença canadense, de ser mais positiva quanto à postura no que diz respeito ao país imigratório, do que ocorre em outras populações muçulmanas no Ocidente. A aprovação extremamente alta dada ao governo do Canadá, comparável ao da população em geral, serve de base para esse resultado, assim como o fato dos muçulmanos canadenses, via de regra, rejeitarem a noção do Canadá ser um país racista.


Um aspecto do islamismo canadense: a capa do livro de Irshad Manji.


Questões sobre gostos e desgostos específicos revelam maior valorização a generalidades (democracia e liberdade) do que a sua própria situação (encontrar um emprego). Achei especialmente animador o fato dos muçulmanos canadenses compreenderem a democracia, não apenas como um sistema para a escolha de líderes, mas como uma mentalidade e um modo de vida que permite ao indivíduo a autonomia de pensar e agir em liberdade, de desenvolver suas próprias opiniões e de optar em ficar completamente fora da política.


Encontrar trabalho sobressai como uma questão chave na pesquisa do Instituto Macdonald-Laurier. Para se ter uma ideia dessa preocupação, imagine candidatar-se a um emprego com o nome de Maomé ou de Fátima, empregadores não muçulmanos desconfiam em empregar muçulmanos por razões que vão desde o terrorismo, exigências para privilégios especiais até receios de processos judiciais. Em parte, os não muçulmanos precisam lidar com seus próprios preconceitos, mas por outro lado, os muçulmanos precisam reconhecer os problemas que criaram e abordá-los com seriedade e de forma construtiva.


A questão sobre a implementação da Sharia tem um significado importante devido as suas implicações. A considerável maioria de 62 porcento deseja que a Sharia seja implementada de alguma forma mas, quando se destaca a categoria "não souberam responder/se recusaram a responder, o número salta para 75 porcento. O que aponta para o que poderia ser o problema mais espinhoso a cerca dos muçulmanos canadenses: seu desejo de marchar sob uma batida diferente. O fato de 15 porcento dos muçulmanos desejarem que "os muçulmanos sejam regidos pelos tribunais da Sharia" é acima de tudo alarmante, o que também confirma a minha avaliação que os islamistas compõem cerca de 10 a 15 porcento da população muçulmana.


Os 3 porcento que apóiam a Al-Qaeda apontam para o obstinado elemento islamista no Canadá – não muito grande, mas 3 porcento de uma população de aproximadamente 700.000 significam algo em torno de 20.000 indivíduos com ideias e afinidades muito perigosas. Essas informações deveriam alarmar e despertar tanto os serviços de imigração como os de segurança.


Outro aspecto: Zaynab Khadr participando de manifestação no Parliament Hill, Ottawa.


Os 13 porcento de aprovação de Israel nesse estudo diferem de uma estimativa digna de nota, apresentado por Conrad Winn em 2004, quando indicou que um quinto da população muçulmana do Canadá acredita que "Israel está certo em praticamente tudo", mas os números não diferem tanto assim e o novo estudo pode ser visto como uma confirmação quanto a ordem de grandeza do antigo. Da mesma maneira, a observação no presente estudo de que os "sentimentos pró-Israel foram de vez em quando divulgados como reação à veemência anti-israelense" reflete as observações de Winn há sete anos que "frequentemente [um enfoque pró-Israel] é uma reação contra o que eles veriam como líderes extremistas em suas próprias comunidades ou em seus países de origem".


Quando se trata de opiniões extremistas, Leuprecht e Winn reconhecem que foram pegos de surpresa: "esperávamos que os participantes religiosos nos grupos focados fossem mais radicais nas suas opiniões. Em comparação, as opiniões mais radicais tenderam a ser manifestadas pelos indivíduos relativamente seculares, frequentemente dotados com maior instrução em ciências sociais, enquanto que os muçulmanos devotos eram às vezes os defensores mais articulados em defesa do Canadá e da democracia". Esse padrão mostra que a devoção islâmica não é em si um problema e que o enfoque político é de grande relevância para as atitudes. Os seculares podem ser extremos e os devotos, moderados.


Conclusão: Leuprecht e Winn acreditam que, embora as atitudes que descobriram não se ajustam a nenhum dos três paradigmas com perfeição, concluem que os dados da sondagem "levam a crer que os muçulmanos canadenses se ajustam melhor ao paradigma de uma comunidade dividida com opiniões heterogêneas, conforme revelado por Daniel Pipes".


De um lado, fico satisfeito com essa conclusão. Por outro, me pergunto, de que outra forma seria possível caracterizar uma comunidade composta por centenas de milhares de pessoas. Naturalmente ninguém espera que sejam uníssonos, implicando que o islamismo transforma fiéis em autômatos, que perdem a habilidade de pensar por si próprios e são dominados por uma liderança que os programa. Nenhuma população humana se encaixa nessa descrição.


E se em alguma época essa noção de população quiescente tenha sido convincente, certamente o alvoroço que abateu o Oriente Médio durante 2011, indica que mesmo povos que obedecem por décadas, retém o fogo interno, que de forma imprevisível, pode derrubar seus dirigentes. Os líbios, sobre quem muitos assumiram que tivessem aceito os delírios de Muammar al-Gaddafi, revelaram, por exemplo, que estavam pensando por si mesmos.


O estudo Leuprecht-Winn revela uma série de atitudes problemáticas, do desejo pela Sharia ao apoio à Al-Qaeda, mas também mostra que o Canadá tem a população muçulmana mais moderada, heterogênea e aberta do Ocidente. Não se trata apenas de uma vantagem como base de apoio, mas também assinala um papel potencial para os muçulmanos canadenses moderados a levarem a sua mensagem e quem sabe, suas instituições a outros países do Ocidente.

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