terça-feira, 11 de outubro de 2011

Humores perfeitos


João Pereira Coutinho / Folha de S. Paulo



Quando a Al Qaeda aparece como um exemplo de equilíbrio, eu começo a ver sinais do Apocalipse

"HUMOR" E "Irã" não costumam jogar na mesma frase. Mas a vida é uma surpresa. Nos últimos tempos, os únicos momentos de genuína gargalhada vieram por causa dos persas.
Começou com o discurso do presidente iraniano na ONU.Sobre o 11 de Setembro. Melhor: sobre os autores materiais dos atentados que mataram 3.000 pessoas. Terão sido obra da Al Qaeda? Ou, como defendem vários lunáticos dentro e fora dos asilos, foram antes os Estados Unidos que prepararam e executaram o golpe em solo próprio?

Mahmoud Ahmadinejad tem poucas dúvidas: o 11 de Setembro não pode ter sido obra da Al Qaeda. Melhor suspeitar de dedo americano. Foi o que bastou para que os protestos começassem a chover sobre Ahmadinejad. Não os protestos dos Estados Unidos. Ou da ONU, esse famoso antro de racionalidade diplomática.

Falo dos protestos da própria Al Qaeda, que se mostrou revoltada com as "crenças ridículas" de Ahmadinejad, que vão contra toda a "lógica".

Não pretendo ser alarmista. Mas quando a Al Qaeda aparece como um exemplo de equilíbrio, mesmo que seja para defender a sua dama, eu começo a ver sinais do Apocalipse.

Que não se resumem à Al Qaeda. Ainda do Irã, tivemos as palavras, sempre sábias, do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do país. Disse ele que promete votar contra resolução palestina na ONU para a criação de um Estado respectivo. Repito: contra.

A lógica de Khamenei é impoluta: reconhecer um Estado palestino junto a Israel é, "ipso facto", reconhecer Israel. Ou, nas palavras elegantes do cavalheiro, é permitir a presença de "um tumor cancerígeno" no Oriente Médio. Isso é ir longe demais.

É, no fundo, uma traição à única causa que interessa: um Estado independente palestino, que se estenda do Mar Mediterrâneo ao rio Jordão, sem concessões de qualquer espécie. Tradução: sem nenhum judeu lá pelo meio. Ou é isso, ou é nada.

Infelizmente, tem sido nada. E o que espanta na retórica dos líderes ocidentais, Dilma Rousseff inclusa, é a absoluta incapacidade deles para formularem a única questão relevante sobre o conflito palestino-israelense: e se os palestinos, ou uma parte importante deles, não estão dispostos a reconhecer o Estado de Israel? Por que motivo obtuso deve Israel negociar com 
quem lhes nega esse reconhecimento?

A pergunta não é meramente acadêmica. Começa por ser histórica: em todas as propostas de partição da Palestina, foram os árabes que sucessivamente recusaram o Estado independente que agora reclamam.

Assim foi com as recomendações da Comissão Peel em 1937. Assim foi quando as próprias Nações Unidas propuseram a partição, em 47. Assim seria em 2000, quando Ehud Barak ofereceu a Arafat o que Mahmoud Abbas agora parece reclamar (um Estado palestino independente; Jerusalém partilhada; o retorno dos refugiados ao novo país).

E assim foi em 2008, três míseros anos atrás, quando o premiê israelense Ehud Olmert repetiu o cardápio do antecessor para obter a mesma resposta do outro lado: não, não e não. As recusas palestinas selaram o destino intratável desse conflito.

Mas a pergunta não é só histórica; é prática e bem prática. Hoje, não existe uma Palestina unida -e mesmo o "acordo" entre o Hamas, que domina Gaza, e a Autoridade Palestina da Cisjordânia não deve iludir um fato desconfortável: o Hamas não reconhece a existência do Estado judaico.

A sua carta fundamental é explícita sobre esse ponto. E também é explícita sobre um outro ponto, que o aiatolá Khamenei deixou claro: um Estado palestino não existirá ao lado de um Estado judaico. Fim de conversa. Os atos de terrorismo do Hamas são apenas a conclusão lógica da sua proclamação de "princípios" (digamos assim).

O mundo pensante pede a Israel para reconhecer um Estado palestino, coisa que Israel se 
propôs fazer várias vezes.

Mas o mesmo mundo não levanta a voz para obter dos palestinos, a começar pelos palestinos do Hamas, uma frase muito simples: aceitamos a existência de Israel e estamos dispostos a partilhar fronteiras soberanas e seguras com os judeus. Isso é que nunca aconteceu.

Falar dos assentamentos, dos votos na ONU e do veto dos EUA é tudo fumaça. E a fumaça só serve para esconder o essencial.

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