domingo, 18 de setembro de 2011

Kasher gigital



Cem anos após os judeus do Leste Europeu migrarem para o Brasil, seus descendentes ganham uma forcinha da tecnologia para manter as tradições

Bruno Huberman / Revista São Paulo

Sempre que chega ao trabalho, Dovid checa seus e-mails. São mais de 200 mensagens. Sua secretária o põe a par dos principais assuntos. Ao longo do dia, não desgruda do Blackberry.

O cotidiano de qualquer executivo paulistano, certo? Nem tanto. Dovid Goldberg, 35, é o rabino Dov, o responsável pela sinagoga Beit Chabad do Morumbi, uma das maiores organizações judaicas ortodoxas do mundo.

Entre seus hábitos também estão rezar três vezes por dia, usar o "talit" (uma espécie de xale) por baixo da roupa escura e jantar com a mulher e os sete filhos. Sua religião, no entanto, não o impede de viver as benesses do mundo moderno. "As pessoas fazem má interpretação do judaísmo. Pensam que vivemos em outra época. As novas tecnologias têm o lado bom e o ruim", afirma o rabino.

As inovações trouxeram facilidades inclusive para seguir os costumes religiosos no shabat -dia de descanso judeu que acontece entre o pôr do sol de sexta-feira e o de sábado. É o caso do elevador programado para parar em todos os andares do edifício, que evita que os religiosos apertem o botão para chamá-lo, o que é proibido nessa ocasião.

Neste ano, comemora-se no Brasil o centenário da migração dos judeus do Leste Europeu, onde nasceu a ortodoxia de Dovid. Trata-se da maior corrente judaica a vir para o Brasil e também para São Paulo, onde se concentra nos bairros de Higienópolis e do Bom Retiro.

Rabinos nas redes sociais
Hoje, entre os mais religiosos, o modelo de organização judaico não mudou muito em relação a um século atrás. Mas sofreu adaptações.

Um exemplo é o Espaço K, exclusivo para judeus de 18 a 35 anos. Instalado em um antigo casarão de Higienópolis, o local lembra uma fraternidade universitária americana. Até o rabino de lá foge do comum. Dudu Levinson, 29, tem um programa no Youtube, o "Fala Dudu", e mais de mil amigos no Facebook.

"Isso porque entrei há pouco tempo", diz. Não é difícil encontrá-lo de roupa casual jogando videogame. "Os rabinos de sinagoga ficam mais nas rezas. Aqui, participo do dia a dia do pessoal. Eles me veem como um amigo."

Esse desafio do rabino Dudu, de manter os princípios do judaísmo e atrair os jovens ao mesmo tempo, é a meta do Espaço K. "A nossa base é ortodoxa. A comida aqui é kasher, fechamos aos sábados para o shabat, mas, ao mesmo tempo, tentamos não afastar ninguém", diz Rafael Piancastelli, 29, coordenador social do espaço. O kasher é um conjunto de leis seguidas pelos religiosos que envolve todo um modo de vida -como regras de alimentação que proíbem a carne de porco no cardápio- e são ampliadas no dia do shabat.

O objetivo do Espaço K é promover o casamento entre judeus -e, logo, evitar a "assimilação", isto é, que judeus se casem com góis (não judeus). São organizadas viagens e encontros entre jovens. "Tentamos fazer com que eles se sintam bem dentro da religião."

Compra coletiva kasher
O Espaço K, por motivo de segurança, não aparece no principal guia da comunidade judaica em SP, o Koshermap. Criado em 2007, o mapa, que ganhou versão on-line (www.koshermap.com.br), lista mais de cem estabelecimentos e serviços judaicos da cidade. Segundo seu criador, Mosher Frenkel, 30, o Moshiko, o Koshermap extrapolou o objetivo inicial, de aproximar os judeus dos locais kasher.

"Muitas pessoas que não têm contato direto com a comunidade recorrem a nós para tirar dúvidas sobre a religião e os costumes", conta. O portal, que ainda é uma central de notícias da comunidade, trabalha sob a supervisão de rabinos, que orientam o seu funcionamento.

Animado com a repercussão do site, Moshiko criou, no início deste ano, o Guelfitefish Urbano: um portal de compras coletivas nos moldes do Peixe Urbano para a comunidade judaica. "Os demais sites de compra coletiva não podem ser utilizados pelos judeus por não serem kasher", afirma.

As regras da religião podem ser quebradas em casos extremos, como o que ocorreu com o rabino Dov quando sua filha nasceu. "Era Yom Kippur [Dia do Perdão] e shabat. Peguei um táxi e levei minha mulher para o Albert Einstein. O pessoal do hospital pensava que iríamos a pé, mas moro longe, não tem como", conta. Uma das restrições do shabat é a andar de carro.

Para ele, o dia de descanso é cada vez mais necessário no mundo de hoje. "A melhor parte da semana é quando desligo o meu Blackberry. Com certeza todos fariam o mesmo se soubessem o prazer disso."

"As pessoas fazem má interpretação do judaísmo. Elas pensam que nós vivemos em outra época"
DOVID GOLDBERG, rabino

judeus em sp
1904-1911: Primeira onda migratória de judeus do Leste Europeu, a maior corrente judaica a vir para o Brasil

1912: Os judeus se estabelecem no Bom Retiro e abrem, na rua da Graça, a primeira sinagoga de São Paulo

1914-1933: Imigração de judeus da Europa Ocidental

1916: É fundada, em São Paulo, a Sociedade Beneficente Amigo dos Pobres Ezra, principal organização judaica da época

1933-1945: Grande leva migratória de judeus europeus durante o Holocausto

1936: É criada, por judeus alemães, a Congregação Israelita Paulista (CIP)

1946: A Federação Israelita do Estado de São Paulo é fundada

1953: O clube A Hebraica é inaugurado no Jardim Paulistano

1955: O Hospital Israelita Albert Einstein é construído

1974: O Beit Chabad, entidade ortodoxa, chega ao Brasil

Pobres, imigrantes queriam liberdade
Os primeiros judeus do Leste Europeu que chegaram por aqui fugiam da perseguição e da pobreza. "Eram pessoas simples: sapateiros, comerciantes e alfaiates", conta Marcio Pitliuk, autor do projeto "100 Anos de Imigração Judaica do Leste Europeu", que lançou exposição, livro e filme neste ano. "Eles se depararam com uma liberdade que não tinham em seus países."

Em SP, os judeus de várias origens se espalharam por comunidades distintas. Os da Europa Oriental (ou asquenazitas) ocuparam o Bom Retiro. Os da Europa Central chegaram por volta dos anos 1920 e se estabeleceram nos Jardins e em Higienópolis. Os sefaraditas, oriundos da Península Ibérica e do norte da África, que migraram há quase 200 anos, ficaram na Bela Vista. Muitos ainda vieram na época da Segunda Guerra Mundial, fugindo do nazismo.

Era a primeira vez que vários judeus, separados pela diáspora centenas de anos antes, encontravam-se com patrícios de diferentes cantos do mundo.

Hábitos de uma casa judia religiosa
Há duas cozinhas diferentes, para separar os alimentos lácteos dos animais

No batente da porta, fica pregada a "mesusah", para abençoar a residência

Os homens usam roupas escuras e quipá (ou chapéu) e as mulheres, saia e peruca

Em ocasiões festivas, as velas da "menorah" são acesas antes da refeição

Os costumes do shabat (do pôr do sol de sexta ao de sábado)
Como não se pode cozinhar, a comida é feita antes e mantida num aquecedor

A luz dos eletrodomésticos é desligada, pois não se pode gerar eletricidade

Os "elevadores de shabat" são programados para parar em todos os andares

As luzes da casa e o ar-condicionado são acionados por "timers" 

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