sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Especial 11 de Setembro - parte 2 – a doença infantil do antiamericanismo


Por Fabio S. Cardoso / Dicta&Contradicta
O centro acadêmico de uma das principais universidades públicas do País decidiu fazer festa. Até aí, nada de novo sob o sol. O mote da celebração, no entanto, é que merece destaque e comentário: tomando a personagem de Osama Bin Laden como referência, o cartaz pergunta: “Quem é o terrorista?”. Nunca fui a essa festa em especial, tampouco conheço os seus idealizadores. Mas é mesmo singular que os estudantes que frequentam os corredores da elite do pensamento acadêmico do Brasil façam menção ao 11 de Setembro em tom de deboche travestido de crítica como espécie de homenagem aos ataques das torres gêmeas, que, agora em 2011, completam dez anos.
O evento da universidade está longe de ser um caso isolado. Em verdade, é mesmo um lugar-comum junto a certa intelligentsia a percepção de que o 11 de setembro foi uma reação do mundo oprimido contra os seus opressores; uma resposta dos dominados em direção à hegemonia norte-americana; um acerto de contas, que, apesar de ter ceifado civis, tem como justificativa “a resistência ao império ianque” – isso quando não sobram “analistas” que veem nos EUA os principais responsáveis para o ataque.
De fato, entre os muitos males liberados da caixa de Pandora dos ataques de setembro de 2001, o antiamericanismo é o que se apresenta com feição mais supostamente sofisticada. Explica-se: existe mesmo um coro de descontentes com a conjuntura internacional em que os Estados Unidos representam liderança política, econômica e militar. Nesse sentido, o esporte favorito de muitos comentaristas sempre foi malhar os EUA, contestando, assim, a legitimidade da liderança norte-americana para desempenhar esse papel. Antes do 11 de setembro, esse grupo, sempre minoritário, encontrava ressonância e respaldo apenas em alguns setores da academia, sempre afeitos a rejeitar o governo vigente e exigir a “imaginação no poder”.
Depois de setembro de 2001, a reação por parte dessa intelligentsia foi repercutir, agora em voz alta (alguém diria: os idiotas perderam a modéstia), as palavras de ordem contra os Estados Unidos, não importando tanto que eles tenham sido atacados, tampouco levando em consideração que esses mesmos ataques foram perpetrados fora de um contexto de conflito militar. Nesse sentido, a reação dos Estados Unidos, sob o nome de Guerra ao Terror, ganhou cores de tentativa de golpe e no plano internacional a agenda norte-americana tornou-se um tema, no mínimo, aborrecido. É verdade que desde a primeira eleição de George W. Bush, marcado por controvérsias eleitorais, a opinião pública mundial já estava de mau-humor em relação aos norte-americanos. Mas nada se compara com o período pós-ataque.
O problema central é que esse tipo de observação costuma confundir fato com ficção; análise com palavras de ordem; leitura ideológica do mundo com interpretação elaborada da conjuntura internacional. Em poucas palavras, o antiamericanismo, hoje, parece reflexo de pensamento crítico e independente, quando, em verdade, representa o consenso de um cenário que é hostil à América e aos americanos. E o curioso é que esse comentário ultrapassou o sentimento que agrega pessoas em torno de uma causa política, transformando, essencialmente, o inconsciente coletivo das massas desgarradas de ideologia. Da mesma forma como o senso comum palpita sobre a política nacional, sobram pseudoteorias sobre o poder norte-americano. A ponto de mesmo uma festa num centro acadêmico escarnecer do 11 de setembro e ainda assim ser progressista.
Dez anos depois, o 11 de setembro não somente mudou o mundo, mas, também, alterou a compaixão do mundo. Como se vê, para pior.
Fabio S. Cardoso é jornalista e professor universitário.

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