quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Especial 11 de Setembro - parte 1 - O legado americano


Por Bruno Garschagen / Dicta&Contradicta
Como podes ser contra o 11 de Setembro? Os Estados Unidos sempre foram os agentes de algumas das piores infâmias da história mundial. Detonaram guerras próprias, estimularam e financiaram guerras alheias. Quem não se lembra do Vietnã? Quem não se lembra da ajuda aos insurgentes do Irã? E quem não se recorda do financiamento aos terroristas Afegãos para combater a União Soviética? E como podemos esquecer a atuação da CIA nos países da América Latina, cuja politica sempre foi monitorada e agitada subterraneamente pelo governo americano? E o nefasto e injustificável embargo contra Cuba? Santo Deus.
Os ataques contra as Torres Gêmeas, a representação duplamente fálica do pior tipo de capitalismo, foram uma reação natural e justificada pela opressão que a cultura e o governo americano exerce há décadas no mundo, não apenas contra os países muçulmanos. O modo de vida americano é um insulto não somente ao Islão, mas às diversas sociedades Ocidentais oprimidas e vulgarizadas pelo consumismo kitsch e pelo refugos culturais embalados e convertidos em bem-sucedidos produtos de exportação.
O que os Estados Unidos deram ao mundo, cavalheiros, senão a corrupção de valores e a ruína moral? Será que devemos perdoar os americanos só por terem criado um país assentado na ideia da liberdade individual e na busca da felicidade? Só porque promoveram sua Independência sob os fundamentos da tradição inglesa que a Coroa Britânica pretendeu solapar? Apenas porque os Estados Unidos foram fundamentais para vencer a Segunda Guerra e derrotar os regimes totalitários da Europa continental e da Ásia?
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Dizem que o 11 de Setembro mudou os Estados Unidos. É um erro. Um erro baseado no deslocamento da política externa americana num ambicioso projeto de combate ao terrorismo global. O Partido Republicano, que tradicionalmente tende ao isolacionismo para cuidar de assuntos domésticos, viu o ex-presidente George W. Bush conduzir o país numa batalha para além de suas fronteiras contra inimigos sem rosto, território ou sede. Um inimigo dotado de organização descentralizada com células operando em várias partes do mundo e uma satânica competência para articular seus membros e executar as ações terroristas.
O que o 11 de Setembro fez foi fazer com que os americanos empreendessem um processo de resgate de sua história, seus valores, seus princípios fundadores. Não é uma mudança de curso, presumo, mas de uma retomada.
O atual presidente Barack Obama sucedeu G. W. Bush porque a economia ruía e porque se valeu de valores e princípios fundadores do país. Em seu discurso logo após a vitória na eleição, Obama não defendia uma mudança radical das estruturas, mas uma política restauradora. As referências diretas a Abraham Lincoln, suposto modelo político e intelectual do presidente, estão no alicerce estrutural sustentado por outras grossas vigas: os Founding Fathers e a tradição do pensamento político americano. Mas se não era radical, Obama apresentava-se como restaurador daqueles princípios defendidos pelos homens que promoveram a união das 13 colônias num país e assinaram a Declaração de Independência.
O discurso calou tão fundo no coração dos americanos que os atos do presidente ao longo desses anos, contrários aos valores e princípios que alicerçaram suas promessas políticas, abriram as rachaduras que estimularam a reação de parte da sociedade dos Estados Unidos. Fenômenos como o Tea Party são a manifestação mais evidente dessa vereda que potencializou o confronto de posições. Os princípios e valores de Obama eram tão verdadeiros quanto à sua certidão de nascimento no Havaí.
A ação pela retomada dos princípios fundadores está restrita à parcela da sociedade que não apenas é americana, mas que assume o compromisso de proteger e preservar o país criado por seus antepassados.
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Não é fácil identificar qual tipo de mudança, ou mudanças, foram provocadas pelos ataques terroristas na cultura americana — mais ainda na esfera internacional. Temos a face aparente do impacto, como a posição dos governos e os produtos culturais sobre o tema, mas nem sempre são o indicador mais adequado da mudança real, que implica em adoção de novos hábitos, de modos e de mentalidade. O medo é, de fato, um poderoso estimulante de mudança, mas o passar dos anos e a eficiência dos sistemas de segurança, que impediu novos ataques ou tentativas, tendem a embaçar a memória, não curar cicatrizes, e permite que as pessoas retomem suas vidas sem que o terrorismo seja a preocupação central, embora aquele sentimento de imunidade dos americanos, como classificou David Beers em texto para o Salon, tenha recebido um golpe fatal.
É preciso não confundir o acréscimo de novas preocupações e cuidados com mudança, que implica numa alteração daquilo que se tinha como senso comum. Quando o discurso da guerra contra o terror encontra um terreno compreensivelmente fértil dentro da sociedade, as pessoas assimilam-no como um instrumento que as deixarão em segurança. Isto é tão mais fácil quando entre esses indivíduos existem identidade, ideias e valores comuns (liberdade, direitos individuais, patriotismo, desconfiança em relação a certos tipos de imigrantes, et cetera) capazes de estabelecer uma relação de confiança.
Stuart Croft, em Culture, Crisis and America’s War on Terror (Cambridge University Press, 2006, 310 páginas),  como bem resumiu Daniel Béland, mostra como uma metanarrativa coerente rapidamente foi assimilada pela população como um chão comum hegemônico com poder para legitimar o programa político batizado de guerra contra o terror e dominar o discurso político e a cultura popular. A metanarrativa era composta por quatro elementos:     

a) a construção retórica de um inimigo perfeitamente identificável como representante do mal que atacou cidadãos americanos inocentes porque odiava a democracia e a liberdade.
b) a ideia de que os Estados Unidos deveriam cumprir sua missão e lutar pela justiça e pela liberdade;
c) a crença de que essa luta deveria ter uma dimensão global e ser liderada pelos americanos com apoio da sociedade internacional;
d) a difusão da informação de que ninguém dentro do governo dos Estados Unidos deveria ser responsabilizado pelos ataques terroristas no 11 de Setembro.
A retórica, a metanarrativa e a política contra o terror, que violou muitos dos direitos e liberdades individuais mais caros aos americanos, produziu, inicialmente, panfletos constrangedores em forma de filme, livro, programas de TV. Passada a excitação inicial, a cultura foi reagindo, se reorganizando, mas com uma clivagem ideológica mais nítida entre esquerda (simpatizantes do Partido Democrata) e direita (alinhados com o Partido Republicano).
Um exemplo de como a literatura tratou direta ou indiretamente os ataques terroristas em 11 de Setembro de 2001 e seus reflexos está na lista de melhor livro de ficção do ano elaborada pelo jornal New York Times: Brick Lane, de Monica Ali, foi um dos escolhidos em 2003; Snow, de Orhan Pamuk, em 2004;Saturday, de Ian McEwan, em 2005; The Emperor’s Children, de Claire Messud, em 2006; e Terrorist, John Updike, no mesmo ano; A Gate at the Stairs, de Lorrie Moore, em 2009; Freedom, de Jonathan Franzen, em 2010.
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Será que devemos perdoar os americanos por terem lapidado um sistema econômico que permitiu à sua sociedade criar riqueza e prosperidade e irradiá-las para outras partes do mundo? Devemos ser seus defensores só porque eles criaram tecnologias e medicamentos que continuam sendo fundamentais no desenvolvimento de milhares de países e no tratamento e cura de milhões de pessoas? Apenas por terem criado e aprimorado um sistema educacional que faz com que o país abrigue as maiores e mais importantes universidades do mundo e atraia milhares de estudantes nacionais e estrangeiros do primeiro time assim como muitos dos mais destacados e prestigiados professores do planeta? Só porque os Estados Unidos conquistaram mais de 300 Prêmios Nobel de Economia, da Paz, de Química, de Física, de Literatura, de Medicina?
Devemos realmente perdoar os americanos apenas porque nos deram o jazz, a literatura, a tecnologia, os vinhos do Napa Valley, o cinema, Woody Allen, o bourbon, o Häagen-Dazs, a NBA, a Coca-Cola, a internet, a Apple, o Google, a Amazon et cetera?
O que os Estados Unidos deram ao mundo, cavalheiros, senão a corrupção de valores e a ruína moral?
Bruno Garschagen é Mestre em Ciência Política e Relações Internacionais pelo Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa e Universidade de Oxford, colaborador da revista Dicta&Contradicta e colunista do OrdemLivre.org

2 comentários:

BRUNO GARSCHAGEN disse...

Prezado, já agradecendo pela republicação do texto, peço que o atualize na sua página porque o seguinte parágrafo foi modificado e inserido dois links:

"Stuart Croft, em Culture, Crisis and America’s War on Terror (Cambridge University Press, 2006, 310 páginas), como bem resumiu Daniel Béland, mostra como uma metanarrativa coerente rapidamente foi assimilada pela população como um chão comum hegemônico com poder para legitimar o programa político batizado de guerra contra o terror e dominar o discurso político e a cultura popular. A metanarrativa era composta por quatro elementos:"

Obrigado e abraços,
Bruno Garschagen

Rodney Eloy disse...

Bruno, atualização realizada, obrigado!