domingo, 18 de setembro de 2011

Escada para o paraíso

Assim como a previsão do Calendário Maia , grupo de católicos espera pelo apocalipse em dezembro de 2012

Eliane Trindade / Folha de S. Paulo

Para eles, o fim dos tempos tem data marcada: 21 de dezembro de 2012. São 200 fiéis católicos que passaram os últimos oito dias rezando e se preparando para o juízo final.

O encontro, intitulado "Escada do Céu", aconteceu entre os dias 10 e 17, em Porto Belo (SC), a 68 Km de Florianópolis. "Desde 1998, avisamos que o fim dos tempos está próximo", diz Arnaldo Haas, porta-voz do Movimento Salvai Almas. O grupo de leigos católicos alardeia que a "grande tribulação", prevista no Apocalipse, já começou.

Eles se guiam pelas previsões do catarinense Cláudio Heckert, 65, chamado de profeta. Desde 1997, o ex-escriturário, que cursou até a quarta série, relata aparições de Nossa Senhora, cujas mensagens transcreve em agendas.

O movimento está em sintonia com adeptos do Calendário Maia. "Embora fossem índios, Deus os usou para alertar a humanidade sobre o fim dos tempos", diz Haas.

Cláudio, que se professa católico apostólico romano e fiel ao papa, prevê uma série de eventos apocalípticos: a falência mundial a partir deste mês, com quebra generalizada nas bolsas de valores, e a Terceira Guerra Mundial, em 23 de maio de 2012, quando Israel lançaria uma bomba atômica contra o Irã.

E mais: o domínio do anticristo, quedas de asteroides e desastres naturais. "Ontem, fizemos novas perguntas à Nossa Senhora e ela disse que as datas não mudam mais", relatou Hass, na última terça.
Os seguidores do movimento acreditam que no Natal de 2012 terá início uma "Nova Terra". "Poucos estarão vivos, então", avisa o profeta, por meio de seu porta-voz. Cláudio não dá entrevistas "por ordem de Nossa Senhora".

As supostas revelações foram publicadas em 30 livros. Segundo Hass, best-sellers: 500 mil exemplares vendidos.

Os líderes do Salvai Almas recomendam ainda o uso do lencinhos brancos de Nossa Senhora "contra gases venenosos" e com poder de cura.

A Igreja Católica não reconhece as aparições de Nossa Senhora a Cláudio. Em março de 2003, d. Murilo Krieger, então arcebispo de Florianópolis, enviou uma carta a Cláudio afirmando que as presumidas revelações celestes "são apenas fruto de meditações privadas". Pedia que os livros não fossem mais difundidos sem aprovação.

PODER DE DEUS
Isso parece não incomodar os fiéis. "A Igreja acha que o Cláudio inventa mensagens de Nossa Senhora.

Para saber se é verdade basta conviver com ele e sentir o poder de Deus", diz a curitibana Bernadete Kopytowsky, 63.

Devotas como ela fizeram da Capelinha de Nossa Senhora do Sion, que teria sido construída a pedido da Virgem, ponto de peregrinação. Os gêmeos Ramon e Marco Ruiz, 26, saíram de São Paulo rumo a Porto Belo pela 15ª vez. Estão convictos de que, após três dias trevas, a volta de Cristo será no Natal de 2012.

Católicos praticantes, eles são analistas de telecomunicação e se graduaram em sistema de informação.
Ambos fazem parte do grupo de 72 membros do Salvai Almas escolhidos para missões até o juízo final.

"Nossa Senhora proibiu a todos de falar do fim dos tempos. Nossa função é rezar pelas almas do purgatório", diz Ramon.

Os "escolhidos" aguardam coordenadas celestiais via Cláudio. "Os padres preferem não falar. Assusta o povo", diz Marco. Ele parece tranquilo, mesmo diante da previsão de que "haverá mais derramamento de sangue dos cristãos do que em 2.000 anos de história". Vai casar em maio de 2012. "Temos de seguir a rotina. Jesus não quer ninguém parado quando voltar."

'É sintoma de uma crise', diz teólogo da PUC

DE SÃO PAULO

Para o professor da Faculdade de Ciências da Religião, da PUC-SP, Pedro Vasconcelos, a crença no "fim dos tempos" e em uma "nova era" são frutos do mesmo fenômeno.

"É uma expressão, um sintoma de crise. Quem está bem não tem que sonhar com o fim", diz o professor.

"Quem anseia por mudanças, em geral, não está bem alocado, seja do ponto de vista social, econômico ou emocional."

Estudioso de textos sagrados como o Apocalipse, ele ressalta que ao longo da história as profecias em torno do fim dos tempos, com base no texto bíblico, foram reinterpretadas inúmeras vezes.

Seja como for, 2012 está na pauta de católicos, alternativos e evangélicos. "Em 2012 virá uma mudança dos céus e não precisa ser místico para acreditar", diz o administrador Tomaz Ahau, 43. Ele e a mulher, a artista plástica Ludmila, 36, vão se mudar de São Paulo para uma ecovila em Pirenópolis (GO).

A mudança é pela crença em uma "nova era" em 2012. São ativistas do Movimento das 13 Luas, que propõe a troca do calendário gregoriano pelo Tzolkin, o Maia. "A frequência artificial de 12 meses e 60 minutos nos levou ao caos", diz Mara Greselle, que segue o calendário da paz.

Eles não creem no apocalipse em 2012, mas no "alinhamento planetário galáctico". Já a obra missionária Chamada da Meia Noite, com evangélicos de várias denominações, realiza em outubro o congresso "2012 e as Profecias", em Águas de Lindoia (SP). Já têm 500 inscritos.

"Em função do Calendário Maia e da visibilidade do tema, vamos tratar a questão à luz da Bíblia", diz o organizador, Markus Steiger. "Dizer que o mundo vai acabar em 2012 não tem fundamento."
Mas crê no "arrebatamento". "Esperamos a volta de Jesus." Só não sabe quando.(ET)

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