sexta-feira, 12 de agosto de 2011

A meretriz das vontades


Isaac Sandes Dias - Gazetaweb

Ao tratar das qualidades do homem, escritores e poetas alçam ao lugar mais alto de seus discursos, tratados e poemas, as magnas virtudes contidas nas manifestações da razão humana que denominamos de vontades. Santo Agostinho chegou a afirmar: “Deus é o senhor das vontades humanas”. Tal afirmação coloca os desígnios humanos quase que como um sopro divino, do qual o homem é apenas um mero executor.

Livre-me Deus da presunção de abordar em tal patamar o sentido das vontades humanas. Minha abordagem é secular, humana, quase blasfema. Falo das pequenas vontades humanas, as comezinhas, aquelas que são o tormento de uns, a felicidade e o sucesso de outros e, às vezes, a desgraça de uns tantos. A ambição na medida certa se torna ferrenha vontade que faz crescer social e economicamente o mais simplório dos elementos de uma determinada classe social e o coloca em paridade com as mais proeminentes castas. A conquista do ser amado é vontade que transmuta qualquer idoso em vigoroso e fogoso adolescente, faz o sisudo tornar-se ridículo e o ridículo tornar-se um casmurro. O desejo aventureiro é vontade que faz o homem trilhar desertos e escalar montanhas sem o menor temor.

Dentre tais vontades existe uma que, bem nascida em terras da Grécia, tinha tudo para ser uma das mais belas e nobres entre os homens. Falo da vontade democrática que foi garantida por superior direito ao homem. Direito a expressar sua livre vontade na escolha de seus dirigentes e líderes. No entanto, é triste ver e registrar como tal vontade, que era para ser soberana, vem sendo manipulada ao longo da história da humanidade. Talvez um dos maiores e mais trágicos exemplos de manipulação e uso indevido da vontade expressa pelo livre arbítrio do voto tenha sido o que nos foi dado por Pôncio Pilatos que, já naquela época, lançou mão de uma rápida e corrupta eleição para se ver livre da culpa de derramar o sangue do mais injustiçado entre os homens, Jesus Cristo.

Talvez ali tal vontade tenha cometido o seu pecado original e nunca mais tenha alcançado sua recuperação na trajetória da humanidade. Hoje, a expressão das urnas nunca representa a melhor escolha para os grupos, as sociedades, as religiões e povos em geral. Tudo porque o que era para ser uma das mais nobres expressões do homem vem, desde aquela desgraçada eleição que condenou o inocente Cristo e libertou o malfeitor Barrabás, se tornando pelo sua livre mercadância, a meretriz das vontades humanas.

O autor é promotor de Justiça.
Imagem: Internet

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