segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Carter, Blair e Bush: memórias

por Fabio Silvestre Cardoso / Dicta & Contradicta n. 7

Jimmy Carter, White House Diary, Farrar, Straus and Giroux, 2010. Tony Blair, The Journey, Knopf, 2010. George W. Bush, Decisions Points, Crown, 2010.

Recentemente, Jimmy Carter, Tony Blair e George W. Bush ajudaram a escrever mais alguns capítulos da história política mundial. A motivação para tanto não teve nada a ver com alguma decisão executiva, mas, sim, porque os três líderes políticos lançaram livros que dão conta de sua trajetória como presidentes da República (como é o caso de Jimmy Carter e de George W. Bush) e primeiro ministro (Blair). E, ao contrário do que se pode corriqueiramente imaginar, Carter, Blair e Bush têm mais em comum do que o séquito político de cada um deles gostaria de acreditar.

Os livros não são narrativas "imparciais", isto é, assinadas por outros autores. Cumprindo uma espécie de tradição, que remonta os grandes líderes do passado, ao sair de seus respectivos cargos executivos, os presidentes e os ministros de Estado constumam guardar para si um tempo para processar as mudanças e, por que não dizer?, prestar um acerto de contas para com a sociedade que esteve sob seu comando. Nesse sentido, os livros autobiográficos, masi do que obedecer à lógica do escândalo e do espetáculo que grassa na contemporaneidade, têm como objetivo mostrar as motivações, os acertos, os erros, e, eventualmente, apresentar explicações (ou mesmo uma mea-culpa) acerca de determinados atos. Por tudo isso, os relatos tendem a ganhar carga bastante emocional, não apenas porque as histórias de vida são fascinantes, mas, essencialmente, porque os depoimentos podem trazer revelações esclarecedoras a propósito de alguns eventos históricos.

É o caso de White House Diary, assinado pelo ex-presidente norte-americano Jimmy Carter. O livro possui estrutura bastante peculiar, uma vez que foi escrito originalmente durante o período em que Carter esteve no cargo mais importante do mundo, como gostam de ressaltar alguns analistas políticos. Carter foi o presidente que substitiui Nixon, que foi abatido pelo escândalo de watergate, malgrado suas conquistas na política externa. É curioso, nesse sentido, que, embora tenha tido muito mais complacência por parte dos veículos de comunicação de seu tempo, o legado mais lembrado nessa área, hoje em dia, é a Revolução Islâmica, que tirou o Xá Reza Palevi do poder e encastelou os aiatolás fundamentalistas. Carter era o comandante-em-chefe naquela ocasião, e seu compartamento, algo tergiversamente, é evidenciado nas suas anotações. Para aplacar esses e outros dissabores, Carter adotou uma estratégia interessante: não alterou o texto original, mas acrescentou comentários extras, em itálico, a fim de "contextualizar" o leitor 30 anos depois.

Desse modo, o público tem em mãos quase um segunda biografia, pois os comentários são estritamente estudados e traçam comparações com os governos subsequentes, ora atacando a gestão de seu rival político, Ronald Reagan (como na política de guerra contra as drogas do republicano); ora justificando suas conquistas (como ao ressaltar a preocupação com os direitos humanos, tema essencial de sua agenda democrata).


O caráter internacionalista de sua gestão pode ser comparado com o do ex-premiê britânico Tony Blair, cujo The Journey tem o mérito de dissecar o seu longo mandato em Dowining Street. No caso do político britânico, chama a atenção o fato de que seu governo também recebeu juras de amor da mídia liberal tanto dentro quanto fora da Europa, como se, sob seu comando, a renovação do partido trabalhista tivesse  corrigido a rota após os desastrosos anos do governo conservador. E boa parte de sua narrativa inicialmostra exatamente isso: a derrota dos conservadores, que definitivamente representavam o atraso, e a vitória dos trabalhistas, com  a esperança de mudança, como se fosse o retorno da imaginação ao poder.

A esse estado de coisas deve-se acrescentar que a morte da princesa Diana concedeu um status de altíssima popularidade a Tony Blair, a quem se atribui, no imaginário popular sobre a política de bastidores, a articulação para que o funeral fosse um evento público, com a participação e declaração de  pesar da Majestade, a Rainha Elizabeth II. Para quem não se lembra, houve mesmo, naqueles dias, quem atribuísse a Blair a manutenção da Monarquia. De forma semelhante a esse exagero triunfalista, existe destempero por parte dos críticos em relação à atuação de Tony Blair desde 2001, quando os EUA deflagaram "Guerra ao Terror". Aliado de primeira hora de George W. Bush, Blair foi achincalhado até o fim de seu mandato, e os mesmos acólitos que antes o saudavam como o agente da mudança foram célebres em classificá-lo como animal de estimação do presidente norte-americano. Blair parece não temer o confronto, pois em suas memórias elogia inclusive a inteligência e assertividade de George W. Bush.


O ex-presidente norte-americano, por sua vez, não precisa de defesa de Tony Blair. Em seu Decisions Points, o político republicano defende com clareza ímpar as posições mais controversas de sua gestão. No ponto de vista da organização textual, trata-se do texto mais original entre os três, até mesmo porque Bush radicaliza e não apresenta um livro linear. Em vez da jornada do herói, o que se lê é a construção do político improvável que chegou à Casa Branca em 2000 e foi reeleito em 2004, com uma plataforma conservadora intragável para os "bens pensantes". Nesse sentido, Bush, não tem dúvidas: é, sobretudo, um homem resoluto e que cita até Admirável Mundo Novo para justificar sua restrição contra as pesquisas de células-tronco. Já na política externa, Bush sai em defesa das guerras que empreendeu e, ironia das ironias, observa que Obama acertou ao dedicar mais atenção ao Afeganistão para conter a insurgência naquele país.

Nesse ponto, é signicativo o fato de que os três líderes políticos sejam personagens não apenas de sua época ou de suas respectivas nações: pertencem, isto sim, a um período histórico marcado pela interdependência política dos acontecimentos. Seus relatos constituem, assim, apesar da insistência de seus detratores em contrário, um registro fundamental para a história contemporânea.

Fabio Silvestre Cardoso é jornalista e professor universitário.

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