quarta-feira, 13 de julho de 2011

No Sul, neonazistas queriam criar um novo país

Objetivo foi descoberto em investigações durante festejos dos cem anos de Hitler

Mônica Ribeiro e Ribeiro, do R7
neonazistas no rio grande do sulReprodução/Polícia Civil do RS
Membros de gangue neonazista identificada pela polícia gaúcha

Um novo país dentro do Sul do Brasil. Este era o desejo de um grupo neonazista, formado principalmente por membros do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais. De acordo com as polícias gaúcha e paranaense, o plano foi descoberto há dois anos, após um caso de homicídio que envolvia neonazistas rivais.

De acordo com o delegado Francisco Alberto Caricati, titular do 10º Distrito Policial de Curitiba (PR), o caso que envolveu a morte de um casal neonazista durante uma comemoração dos cem anos do nascimento do líder nazista Adolf Hitler, em abril de 2009, foi o estopim para descobrir os anseios políticos do grupo.

- O casal foi executado na BR-116, na cidade de Quatro Barras (PR). Durante as investigações, descobrimos que havia um estatuto de uma nova nação nazista a partir de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Eles queriam tomar o poder a partir desses Estados para depois expandir para outros lugares.

As mortes de Bernardo Dayrell e Renata Ferreira, provocadas por uma disputa interna de comando, resultaram na prisão de seis pessoas, incluindo a do paulista Ricardo Barollo, que foi apontado como o mandante do crime, e de um soldado do Exército.

Segundo Caricati, os neonazistas brasileiros fazem parte de uma rede internacional, que inclui integrantes de países vizinhos.

- Uma das armas encontradas com os criminosos era da Polícia Federal Argentina.

O delegado titular da 1ª Delegacia Policial de Porto Alegre (RS), Paulo Cesar Jardim, que também participou do caso, diz que nem todos os neonazistas se unem em gangues para agredir os grupos considerados inimigos – como negros, judeus e gays. Alguns se juntam para imaginar, o que seria na mente deles, um mundo ideal.

- Os neonazistas que praticam esses delitos, quando são presos, apresentam-se como jovens revolucionários políticos que vêm ajudar na transformação da pureza da raça branca. O ódio os une. É um ódio de satisfação, é algo surpreendente.

Segundo Jardim, na capital gaúcha, atualmente, há cerca de 30 inquéritos sobre casos neonazistas – em sua maioria, por formação de quadrilha, tentativa de homicídio, corrupção de menores e lesão corporal grave. Pelo menos 35 pessoas já foram indiciadas por cometer esses atentados.

Em Porto Alegre, todos os casos que envolvem ações neonazistas são encaminhados para a delegacia em que Jardim é titular. Há dez anos, ele estuda a atuação desses grupos.

Segundo o delegado, em uma das ações feitas pela sua equipe, ele indagou como que em um país como o Brasil, em que a miscigenação é predominante na população, há a possibilidade de realizar a “higienização étnica”.

- Um deles olhou para mim e disse que no Sul do país isso ainda é possível porque “nós temos alemães e italianos puros”. Ao agredir as vítimas, eles comparam as pessoas com baratas. Eles são doentes, de uma imbecilidade que os impede de ter o mínimo respeito ao ser humano.

Perfil
Assim como em São Paulo, no Sul o perfil dos agressores é de jovens entre 15 e 30 anos. Sempre agindo em bandos, eles costumam usar armas brancas, como facas, martelos, estiletes e tacos.

Em Porto Alegre, as vítimas, na maioria das vezes, são judeus, negros e gays. Já em Curitiba, onde os ataques de neonazistas são mais escassos, como afirmou o delegado Francisco Alberto Caricati, o alvo principal são os homossexuais. A reportagem do R7 tentou contato com a Polícia Civil em Santa Catarina, mas não obteve resposta.

Ligação com SP
No ano passado, segundo Paulo Cesar Jardim, foram desmontados cinco grupos que agiam pela internet. O trabalho foi feito a partir de investigações do serviço de inteligência da corporação.
- Em uma dessas células, apreendemos, além de estiletes e martelos, bombas. Elas eram as mesmas que foram usadas em São Paulo na Parada Gay de 2009.

Na capital paulista, a polícia identificou cerca de 20 gangues, que estão sendo investigadas pela Decradi (Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância). Pelo menos 130 inquéritos estão em andamento.

Na semana passada, um ataque a quatro pessoas resultou no primeiro inquérito sobre tentativa de homicídio a negros registrada na delegacia especializada.

Assista ao vídeo:

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