quinta-feira, 21 de julho de 2011

Capitalismo, história de humores


A nossa relação problemática com o capitalismo é mais velha que o mundo

João Pereira Coutinho / Folha de S. Paulo

OS ESTADOS Unidos podem falir dia 2 de agosto se democratas e republicanos não chegarem a acordo sobre a subida do teto da dívida.

A União Europeia, com três Estados insolventes (Grécia, Irlanda e Portugal) e mais dois a caminho (Espanha e Itália), vive a pior crise financeira da sua história. De quem é a culpa?

Primeira hipótese: a culpa é do endividamento irresponsável a que os dois lados do Atlântico se entregaram nos últimos anos -uma vertigem suicida a que a crise financeira global deu a estocada.

Segunda hipótese: a culpa é do próprio sistema capitalista, que só pode gerar destruição e pobreza.

Não sei qual das duas hipóteses o digníssimo leitor escolhe. Mas, enquanto pensa, posso sugerir um livro luminoso sobre a matéria?

Foi escrito por Jerry Z. Muller e se intitula "The Mind and the Market: Capitalism in Western Thought" (a mente e o mercado: o capitalismo no pensamento ocidental). O conteúdo da obra está expresso no título: a nossa relação problemática com o capitalismo é mais velha que o mundo.

Muller concentra-se no século 18 para começar essa história de amor e desamor. Razão prosaica: terá sido com os inícios da modernidade que o Ocidente passou de um sistema de produção centrado na subsistência dos Estados para um sistema mais vasto de produção centrado na troca. Mas o interesse do livro de Muller está na forma rigorosa, por vezes bem-humorada, como ele faz a ponte entre esses debates modernos e os debates dos nossos ilustres antepassados.

Conclusão melancólica: o capitalismo nunca teve grandes amigos.

Entre os filósofos gregos, a "pleonexia", que podemos traduzir por ganância, era o oposto das virtudes fundamentais que se esperavam do verdadeiro cidadão. E o verdadeiro cidadão é aquele que nutre um amor pelo bem comum, e não apenas pelo bem próprio; esse egoísmo só contribui para arruinar a firmeza e a coesão dos Estados.

Essa postura de hostilidade não foi amaciada pelo cristianismo emergente. Pelo contrário: a "avaritia" e a "luxúria", intimamente ligadas à perseguição dos bens materiais, foram prontamente condenadas pelos doutores da igreja.

Um amor desmedido pelas coisas terrenas era uma forma herética de desviar atenções do fim supremo e celestial. Pior ainda: para retomarmos a formulação de Santo Agostinho, "se nós não perdemos, os outros não adquirem". Ou, inversamente, e adaptando a máxima ao nosso linguajar ressentido e contemporâneo, a existência da riqueza só se faz à custa da pobreza.

E, sobre a "usura", as leis canônicas e civis dos países católicos continuaram a proibi-la até finais do século 18. Os judeus que se encarregassem dessas práticas imundas.

Não é de admirar, perante todo esse patrimônio, que a partir do século 18 os intelectuais "modernos" tenham repetido, consciente ou inconscientemente, os argumentos anticapitalistas centrais da tradição greco-latina e judaico-cristã. Uma postura mimética que suplanta ideologias e que é possível encontrar quer à esquerda, quer à direita.

À direita, temos um conservador reacionário como o alemão Justus Möser (1720-1794), que via no "livre-mercado" uma ameaça à sociedade tradicional (e hierárquica) da sua Osnabrück natal.

À esquerda, encontramos um igualitário como Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), que na sua crítica ao "luxo" das sociedades comerciais apenas repetia o que vários pregadores medievos tinham dito antes dele.

O livro de Muller recorda-nos velhos argumentos contra o capitalismo que são repetidos, no século 21, como se fossem a última moda.

Esses argumentos têm a dupla vantagem de fazer esquecer os horrores comprovados das "economias planificadas" e de desculpar os comportamentos irracionais dos indivíduos com a suposta irracionalidade de todo o sistema.

Lendo Muller, e relendo através dele os textos de autores tão distintos como Voltaire ou o escocês Adam Smith, entendemos que o capitalismo não é anjo nem demônio.

Para retomar as palavras do famoso escocês, o mercado é apenas o mecanismo que permite aos homens perseguir livremente esse desejo universal de melhorarem a sua condição. Com regras e, já agora, com boas maneiras.

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